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Fevereiro 2009 - Ano XI - nº 121


Sumário

Festança
Os cavaleiros do Bom Jesus
Nylton Gandra Ribeiro

Cancioneiro
As bravuras de Maria Jararaca
Francisco de Souza Campos

Imaginário
A lenda do Crespim

Colher de Pau
Nem só de churrasco vive o povo gaúcho

Oficina
Ele é seringueiro

Palhoça
O linguajar sertanejo
Alcides Siqueira

Panacéia
Banha de jacaré vendida nas barracas de Caruaru
Moacyr Jorge

 

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A lenda do Crespim

Quem viaja pelo Pampa ouve a qualquer hora do dia ou da noite um profundo gemido, vindo do fundo do mato, que se assemelha a um lamento e parece dizer: Crespim, Crespim... É um pássaro solitário e tristonho que assim manifesta suas qualidades canoras através de um amargurado soluço, enquanto que os outros pássaros expressam seus dons naturais por meio de maviosos e sutís cantares. Esse pássaro estranho chamado Crespim e que dificilmente é visto, tem a sua lenda que é a seguinte:

Era um casal de camponeses que se dedicava ao cultivo da terra a fim de ganhar a vida. Mas enquanto o homem era muito trabalhador, paciente e resignado, a mulher era preguiçosa e despreocupada e sobretudo gostava muito de diversões e bailes. Um ano em que a colheita foi muito abundante, Crespim (esse era o nome do camponês) se entregava à árdua tarefa de ceifar o trigo, sob o solaço inclemente do verão. O esforço despendido era demasiado e, um dia, Crespim adoeceu. Pediu então à mulher que fosse ao povoado próximo a fim de lhe trazer remédios e lhe recomendou que se apressasse, pois desejava sarar em seguida para voltar à lavoura.

A mulher partiu, mas em meio do caminho encontrou, em um rancho de beira de estrada, um fandango e resolveu chegar apenas para descansar um pouco. Lá chegando, entretanto deixou-se contagiar pela alegria e começou a beber e depois a dançar. Quando estava bastante entretida vieram avisá-la que o marido agravara e desejava vê-la. Ela, porém, não deu ouvidos ao aviso e continuou a festa. Por segunda vez e por terceira vieram avisá-la e de nada adiantou. Por fim, a derradeira mensagem foi de que o marido tinha morrido. E assim sucedeu realmente.

Alguns vizinhos piedosos o velaram e enterraram. Quando a mulher voltou não mais o encontrou. Saiu a buscá-lo desesperada, pelos campos, perambulando dia e noite e chamando o seu nome. Enlouquecida de dor pediu a Deus que lhe desse asas para melhor poder buscar o seu marido e Deus transformou-a em um pássaro. Desde então se ouve, dia e noite pelos campos e matas, esse pássaro estranho e solitário a chamar com doloroso acento: Crespim... Crespim...

("A lenda do Crespim". Diário de Notícias. Porto Alegre, 02 de novembro de 1956)

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