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Fevereiro 2009 - Ano XI - nº 121


Sumário

Festança
Os cavaleiros do Bom Jesus
Nylton Gandra Ribeiro

Cancioneiro
As bravuras de Maria Jararaca
Francisco de Souza Campos

Imaginário
A lenda do Crespim

Colher de Pau
Nem só de churrasco vive o povo gaúcho

Oficina
Ele é seringueiro

Palhoça
O linguajar sertanejo
Alcides Siqueira

Panacéia
Banha de jacaré vendida nas barracas de Caruaru
Moacyr Jorge

 

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Os cavaleiros do Bom Jesus

Nylton Gandra Ribeiro

As notícias das graças alcançadas por intercessão de Bom Jesus de Pirapora sempre gozaram de ampla divulgação, tendo a pequena cidade se constituído em um dos mais concorridos centros romeiros do Brasil.

Entretanto, dentre as milhares de romagens que anualmente são feitas ao Santuário, distingue-se, pela sua originalidade e garbo a que efetuam os Cavaleiros do Bom Jesus, em sua grande maioria, moradores de Santo Amaro, que anualmente entre fins de abril e início de maio, comparecem em cavalgada no cumprimento de uma promessa centenária.

Uma vez por ano, as bombachas vistosas saltam dos velhos baús, as camisas coloridas são envergadas com taful entusiasmo, enrolam-se nos pescoços lenços flamantemente coloridos, os cavalos são lavados e seus pêlos carinhosamente acamados, num preparativo alegre e entusiástico para a festejada romaria.

Cobrem depois, homens, mulheres e crianças, com denodada coragem, os setentas e tantos quilômetros que separam Santo Amaro de Pirapora, unidos pelo misticismo, não sem certa contradição, uma alegria profana, de cambulhada com alguns costumes quase pagãos.

É uma vistosa procissão de cores vivas e sugestivas evocações, que dura três dias, incluindo os festejos.

Os festejos

Em Pirapora, os cavaleiros substituem as roupas empoeiradas da viagem pelos seus mais flamantes trajes de montaria. Não falta, para dar um toque de elegância ao ambiente, a graça feminina, que, diga-se de passagem, metida numa bombacha bem feita, coberta pelos chapelões de abas largas, é bem mais agradável às nossas pobres vistas mortais, que a elegância algo exagerada dos homens.

Após a missa especialmente destinada aos cavaleiros, o dia é preenchido por uma série de festividades. As ruas e os largos de Pirapora se repletam de cavalos fogosos e os lances de malabarismo equestre substituem o fervor religioso. Cada qual procura ser melhor cavalheiro que os outros, espicaçam animais, dão saltos prodigiosos, empinam valentemente os matungos, já inteiramente esquecidos da fé e do próprio Bom Jesus...

Há também os que gostam de suavizar a soalheria e o pó denso que se ergue das ruas, com goles de cachaça, e, então, são comuns cenas de bebedeiras mais dignas de Baco do que do suave Jesus misericordioso...

Entretanto, a ordem quase nunca é alterada, pois os próprios responsáveis pela cavalgada – todos os anos escolhe-se um chefe – se incubem de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas...

Um banho lustral

A fé remove montanhas – diz-se com convicção – e assim sendo as águas traiçoeiras do Parnaíba adquiram pelo poder imenso da fé características milagrentas. Do "rio ruim", denominação pouco litúrgica que lhe pespegou a terminologia selvagem, as suas águas se tornaram lustrais e pias. Assim, há uma usança observada desde tempos imemoriais, que consiste em lavar os cavalos nas águas do rio, por ocasião da romaria. Dizem que serve para prevenir as moléstias que afligem os animais. Serve também como promessa a ser cumprida, cada vez que se perde um cavalo ou que este esteja na eminência de morrer.

As margens do rio, então, ficam atestadas de cavaleiros e cavalos e o resultado desse banho milagroso é um lamaçal tremendo que se forma nas imediações.

Não sei se tal operação tão misticamente imponderável em seus resultados, produz os mesmos efeitos objetivos. Mas em todo casa, persiste sua beleza tradicional, como mais um testemunho da fé imensa do brasileiro, que malgrado as suas inocentes irreverências, guarda em si um acendrado amor à religião católica.

A romaria dos cavaleiros do Bom Jesus se constitui numa das manifestações de belos costumes antigos, daquele tempo em que havia pão, havia carne, havia graça e alegria de viver...

(Ribeiro, Nylton Gandra. "Os cavaleiros do Bom Jesus". A Gazeta. São Paulo, 08 de dezembro de 1952)

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