O raio não é outra coisa mais que uma faísca elétrica, e o ruído que o acompanha procede da repulsão do ar. Os efeitos do raio só diferem dos da máquina elétrica por sua intensidade; cabe com preferência nos pontos culminantes e corpos metálicos; inflama as substâncias combustíveis. Debaixo da sua influência, o leite e o caldo decompõem-se, as substâncias animais fermentam.
Quando ameaça uma trovoada, muitas pessoas experimentam opressão do peito; os doentes acham-se numa agitação contínua, que cessa subitamente no momento em que a trovoada arrebenta. Quanto ao raio, este paralisa e rasga, queima, desorganiza as partes que toca: o infeliz, sobre quem cai, morre antes de perceber o relâmpago; e se a vítima traz adereços metálicos, a eletricidade os derrete, seguindo o caminho que lhe oferecem; até a presença deles determina a direção das lesões da pele; como também a natureza isolante de certas roupas contribui para preservar o corpo dos ataques do raio. Assim, vê-se na relação das desgraças acontecidas numa tempestade em Châteauneuf, em França, que um sacerdote celebrante, estando com uma vestimenta de seda, foi o único respeitado pelo raio no meio de numerosas vítimas deste terrível meteoro, que matou nove pessoas e feriu oitenta e duas. As substâncias isolantes da eletricidade são o vidro, a seda e as resinas.
A queda do raio nem sempre é seguida de terminação fatal: as vezes só sobrevém um estupor e uma surdez que se desvanecem ao cabo de alguns dias; em outros casos, manifesta-se uma paralisia mais ou menos completa e passageira.
O tratamento das pessoas fulminadas, consiste em esfregar o espinhaço com vinagre ou água de colônia; aplicar sinapismos nas pernas e braços, dar a cheirar vinagre, meter na boca um pouco de sal de cozinha; e se o rosto estiver vermelho, praticar uma sangria no braço.
A ciência, depois de determinar a natureza íntima do raio, fez conhecer os meios de nos preservar dele: o guarda-raio, imaginado pelo americano Franklin, preenche este fim. Consiste este instrumento a uma barra de ferro do comprimento de 8 a 10 metros, e de 5 centímetros de largura, que se coloca sobre os edifícios e é destinada a protegê-los: termina por uma haste cônica de latão, tendo na sua extremidade uma agulha de platina muito aguda, e comunica sem nenhuma solução de continuidade com a terra úmida, ou água. Estas duas condições de não haver interrupção de condutos, e comunicarem estes com o chão úmido, são de rigor; quando não são preenchidas, o guarda raio é mais nocivo do que útil; o raio, que sobre ele cai, não tarda a abandoná-lo e dirige-se sobre os corpos vizinhos, que despedaça para abrir caminho até o solo.
As cautelas contra tão grande perigo consistem pois em guarnecer os telhados de condutores, evitar em ocasiões de trovoada a vizinhança dos corpos que pela sua elevação atraem a eletricidade das nuvens, afastar-se das igrejas, das torres de sinos e das árvores isoladas. O mais prudente, quando alguém for colhido por uma violenta tempestade, é continuar lentamente o seu caminho, ainda que exposto à chuva. Nos quartos, deve-se estar distante das chaminés, que conduzem facilmente a eletricidade pela fuligem que elas contém, e nunca aproximar-se dos canudos metálicos que conduzem as águas servidas e as da chuva.
Efeito do raio, exíguo número das suas vítimas
Os efeitos do raio são mui variados, e muitas vezes estranhos: ele quebra os corpos maus condutores, inflama os que são combustíveis, funde os metais, mata os animais, e transtorna os pólos da agulha da bússola.
Observa-se que ele não cabe sempre sob a forma de uma faísca, mas algumas vezes, com um globo de fogo, que desce mesmo assaz lentamente, em comparação com a faísca, e depois acaba por estourar com uma detonação comparável ao estrondo de muitos canhões. É neste estado, sobretudo, que o raio incendeia os edifícios em que cai. Conta-se que em 1718, tendo o raio caído assim, debaixo da forma globular, em Gouesnon, perto de Brest, fez voar o teto e as paredes de uma casa como o faria a explosão de uma mina, e que houve pedras projetadas em todas as direções até 50 metros de distância.
O raio deixa após si um cheiro sulfuroso particular. Desde alguns anos, atribui-se este cheiro à eletrificação do oxigênio do ar que forma um produto que se designa com o nome de ozone.
Muitas pessoas deixam possuir-se de um extremo terror do raio. Este receio, contudo, diminuiria consideravelmente, se se considerasse o pequeníssimo número de pessoas que morrem assombradas do raio. Com efeito, não se conta em França, termo médio, mais de vinte vítimas por ano; isto é, cerca de uma por dois milhões de habitantes; o que é muito menos que de outro gênero de acidentes, de que quase se não tem medo. As pessoas a quem esta consideração não chegar a tranqüilizar, podem garantir-se durante o tempo de trovoada, com vestidos de seda, e melhor ainda, com assentos de pés de vidro, ou um disco espesso da mesma matéria sobre o qual ficam isoladas. Com estas precauções, elas não podem ser tocadas, e sentiriam só uma comoção mais ou menos forte, mas não mortal, se o raio caísse perto delas.
Nas aldeias, está-se no costume de tocar os sinos durante a trovoada, cuidando, pela virtude do sino, afastar a nuvem, e evitar a saraiva tão perigosa para as searas. Se isso não passasse de um preconceito, pouco inconveniente haveria em deixar a gente do campo essa tal ou qual satisfação; mas há perigo para aqueles que tocam sinos, porque os edifícios mais altos são os que correm maior perigo, e com efeito vê-se freqüentemente cair o raio sobre as torres e matar os que ali se acham. Portanto é expor, inutilmente, a vida de pobres ignorantes o deixá-lo tocar os sinos quando troveja.
Extraído do Dicionário de medicina popular do Dr. Chernoviz; 4ª ed. - 2 grossos volumes, com um total de 2.292 páginas, e 422 figuras intercaladas no texto, 1870
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso