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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A Providência

A. E. Zaluar

As influências locais no Brasil são ordinariamente potentados que exercem poder absoluto sobre as populações desprotegidas do interior.

Raras vezes os homens que dispõem de grande poder entre seus concidadãos, não só nos municípios próximos como nos afastados dos centros de maior tráfego, sabem tirar proveito dele em utilidade do desenvolvimento material e moral das classe ou dos indivíduos que dominam.

A riqueza pecuniária e a prepotência caprichosa da autoridade, de que naturalmente se acham revestidos, sãos os privilégios que concedem aos régulos de aldeia, uma órbita de ação ilimitada, e lhes dão uma importância relativa tão superior, que sua vontade constitui lei, os seus interesses e ambições, e não poucas vezes as suas paixões desenfreadas, uma imposição forçada aqueles de que querem servir-se como instrumentos passivos de seus condenáveis desígnios.

As influências locais por conseguinte, em vez de concorrerem para o bem, são um invencível tropeço ao desenvolvimento da riqueza pública e da moralidade individual, porque esterilizam os esforços e as aptidões de que poderiam tirar utilidade, dando-lhes uma direção inteiramente oposta aos verdadeiros fins das instituições sociais, o que mais se agrava se considerarmos que só com o trabalho morigerado e ativo se podem resolver os problemas de cuja solução depende o futuro deste país.

Enquanto a indústria em todos os seus multiplicados ramos, e sobretudo a indústria agrícola, enquanto o comércio e todas as fontes da prosperidade nacional definham à mingua de braços e de um impulso salutar, em que se consome a atividade da maior parte das nossas populações do interior?

Custa a dizer, porque faz dó e causa vergonha: em servir os caudilhos da política, e adestrar-se nas miseráveis e estéreis lutas das insurreições eleitorais!

A defeituosa organização de nossas instituições civis, quanto às habilitações e competência do pessoal para a sua pública administração, é a primeira causa do abandono em que jazem os núcleos de povos disseminados pelo interior do país; e daqui, pela falta absoluta de educação moral, e do conhecimento dos direitos e deveres sociais e políticos, a aptidão das inteligências rudes ou ignorantes para abdicarem diante de qualquer força imponente a energia da própria vontade, os sentimentos mais elevados do coração humano, e até a independência e a inviolabilidade da razão e da consciência.

Em país algum do mundo, como no Brasil, o falseamento do sistema representativo tem produzidos resultados tão nefastos e prejudiciais.

Os certames da política, que devem ser considerados como um episódio necessário embora, porém passageiro, na vida dos povos industriais, são aqui o foco, o centro, o confluente de todo o movimento do país, esgotando-se no serviço de ambições improfícuas a atividade, a força, os elementos de ação que deviam empregar-se no alargamento de todos os meios legítimos de progresso, e no conseguimento de todos os melhoramentos práticos que podem engrandecer a nação.

A ignorância das massas é o primeiro auxiliar do despotismo: um povo sem educação não compreende, nem merece a liberdade. A escravidão moral, mais abjeta do que a escravidão das raças, dá, em conclusão, resultados análogos: a degradação e o embrutecimento do homem, e por conseguinte a aquisição de qualidades negativas que tornam o cidadão impróprio para obter e gozar os benefícios da civilização.

Sujeitos a esta servidão opressora, os povos, sem crenças religiosas, sem iniciativa no presente, nem aspirações no futuro, deixam absorver a sua autonomia, perdem o vigor de suas faculdades morais e físicas, e, reduzidos ao degradante papel de máquinas, seguem o impulso de uma direção do acaso, à semelhança dos carneiros de Panurgio.

O homem só trabalha quando se vê forçado a fazê-lo, ou quando vê no seu trabalho algum interesse.

A grande lavoura, porém, representada pelos lavradores mais abastados, que são ordinariamente as influências de que tratamos, tem presos em laços tão vexatórios os pequenos proprietários, que estes não podem, por mais que seja a sua boa vontade, desprender-se do ônus a que se acham sujeitos, e dar por conseqüência desenvolvimento e alento ao trabalho livre.

Diz um notável escritor belga, dando conta de uma viagem que fez à Espanha, que, nos países onde o falso espírito das contendas políticas esteriliza a seiva da nação, há só dois freios que possam desviar deste caminho improdutivo o esforço das populações: é o primeiro deles os capitais fluindo em ativas transações, e por conseguinte trazendo em contínuo movimento os interesses das classes superiores na escala social; e o segundo, a organização séria e conscienciosa do trabalho produtivo, único que pode conter o pensamento inquieto das turbas e encaminhá-las na senda de um progresso salutar.

Infelizmente entre nós, onde escasseiam tanto os capitais, e onde é tão defeituosa a organização do trabalho, se por ventura tal organização existe, calcule-se qual será a sorte dos povos entregues ao capricho e a prepotência dos ferozes e insaciáveis mandões da aldeia.

Quanta é, porém, a utilidade real que se tira de uma influência legítima, quando esta, inspirada por verdadeiros sentimentos de humanidade e de progresso, encaminha com sua inteligência, sua prática e experiência, e os recursos de sua fortuna, a prosperidade das localidades e o bem estar dos seus concidadãos, sobre quem exerce uma ação benigna e um ascendente louvável!

Vou contar a este respeito um interessante episódio, que presenciei andando em viagem pela província do Rio de Janeiro, e de cujo acontecimento conservo a grata memória que deixa no coração a prática das boas ações.
 

II

Um abastado fazendeiro, em cuja casa estive por muito tempo hospedado, mas cujas maneiras, bom senso e elevadas qualidades não era preciso muitos dias de convivência para poder lisongeiramente apreciar, convidou-me uma manhã para ir com ele assistir à posse de uma fazenda que tinha acabado de comprar, associado com alguns de seus parentes.

Aceitei de boamente.

O amável cavaleiro que me fez este convite é um dos homens mais simpáticos e insinuantes que tenho conhecido em minhas digressões pelo interior. Além da impressão que o seu aspecto físico produz nas pessoas que têm a felicidade de o tratar, a sua posição elevada entre os lavradores do rico município onde se acha estabelecido dá-lhe uma dessas influências espontâneas que cercam por toda parte, como uma auréola de prestígio, as naturezas privilegiadas.

Ele era, e creio que ainda hoje é e será sempre o juiz consciencioso de todas pendências, a mão providencial pronta sempre a tornar menos amargo o calix das tribulações mundanas, e finalmente o espírito bom, e por conseqüência justo, de todos os que sofriam e eram vítimas da terrível morte moral.

A sua casa não é só uma fazenda, é também um palácio: o útil com o agradável, a riqueza com o trabalho, a liberdade com a disciplina, tudo ali se consorcia, enlaça e une em um natural amplexo, porque a ordem e o respeito à autoridade dentro dos limites traçados com inflexível, mas salutar prudência, é o grande esteio sobre que repousa todo o imenso edifício daquela fábrica agrícola, digna de um estudo e considerações mais desenvolvidas do que podemos aqui consignar.

Montados em robustos e possantes animais, dirigimo-nos portanto ao sítio indicado, que ficava algumas léguas de distância da fazenda em que me hospedara.

As jornadas em boa companhia, pelo interior do país, não têm nada dessa monotonia que os homens costumados aos passeios desenxabidos e insípidos das grandes cidades querem a todo o custo imputar-lhes, sem que mesmo se achem autorizados a estabelecer o ponto de comparação.

A perspectiva de um painel novo que nos oferece de repente a natureza do solo, saindo nós da garganta de um desfiladeiro ou de um desvio da estrada; a vista que se descobre do alto de um morro; a frescura e o perfume agreste que se respira no seio das matas ou seguindo as picadas por dentro dos capoeirões; o aspecto dos córregos, ou dos afluentes, que ora correm por um leito bordado de virente e opulenta vegetação, ora se despenham de cachoeiras em cachoeiras e se desenrolam em novelos de branca espuma por cima das pontas agudas de alcantilados rochedos; tudo isto, acompanhado de uma conversa amena, ditos picantes, anedotas mais ou menos chistosas, tem o condão de fazer abreviar as horas, e dar à jornada um caráter mais variado e curioso que andar algumas horas fechado dentro de um carro de posta, ou mesmo trancado dentro dos vagões da mais ligeira e veloz locomotiva. As viagens feitas nestes últimos meios de transportes são estéreis, e aborrecidas como a fumaça do carvão de pedra. Quem fizer uma volta a roda do mundo dentro de um carro dos caminhos de ferro voltará aos seus lares sem ter uma aventura que contar, a não ser qualquer acidente perigoso da própria locomoção.

Chegamos ao sítio a que nos dirigíamos seriam talvez duas horas da tarde. Depois das formalidades que o fisco e a legislação competente exige para tornar legais esses atos, fomos visitar os terrenos.

A propriedade era extensa, enriquecida de copiosas aguadas, alguns mil pés de café coroando o cimo e descendo pelo pendor dos morros desiguais, e os terrenos pareciam de ótima e excelente qualidade. Vendo, observando, examinando, e fazendo considerações provavelmente muito justas, mas de que eu, confesso a minha indesculpável ignorância, quase nada ou muito pouco compreendia, chegamos a um vale assombrado por uma trincheira de colinas, onde se descobria, sobre uma pequena esplanada, um pequeno e velho casebre, solitário no meio daquela natureza selvagem.

O novo dono da fazenda quis formar uma idéia mais precisa daquela casinha e do fim a que era destinada, e nesse intuito nos dirigimos todos em sua companhia à porta do albergue.

A choupana estava fechada, e só acusava ter moradores os pequenos filetes de fumaça que saíam das largas fendas da arribana, descrevendo no ar, ao impulso do vento, formas variadas.

Batemos por umas poucas vezes sem que pessoa alguma nos respondesse; mas finalmente a nossa insistência fez com que nos abrissem a porta.

A pessoa que acudiu a nosso chamado era uma velha mal vestida, com os cabelos desgrenhados, o semblante desfigurado, e que parecia presa de uma violenta comoção nervosa.

Esta singular aparição causou-nos uma verdadeira surpresa.

O interior da choupana era quanto se pode imaginar de mais miserável e pobre. Uma mesa quebrada, dois ou três bancos em igual estado, objetos diversos espalhados pelo chão térreo, uma grande e velha arca colocada a um canto, formavam toda a mobília deste aposento, onde se respirava a pobreza e a mais completa indigência.

Uma das pessoas da comitiva, que tinha ficado um pouco atrás de nós, chegou neste momento, e nos explicou em duas palavras quem era e o que fazia ali a decrépita septuagenária.

Há muitos anos que vivia naquela choupana, em companhia de dois filhos ainda crianças que eram derrubadores de mato, cultivando ela própria com suas mãos a roça de milho, feijão e mandioca, alguns pés de café, e finalmente todos os mantimentos necessários para a subsistência acanhada daqueles três entes, julgando-se por esse fato possuidora do terreno que talvez por compaixão lhe haviam cedido.

Quando ela ouviu o procurador do antigo proprietário intimar-lhe a ordem de despejo, dizendo-lhe que a fazenda havia sido vendida e passava a outro proprietário, a velha deu um pulo terrível, e, saltando da soleira da porta interior ao meio da choupana, respondeu com voz entrecortada e presa:

— Quem é capaz de me deitar fora da minha casa? Que tenho com os antigos ou velhos donos da fazenda, se esta pequena roça, desde que posso trabalhar, tem sido cultivada sempre por minhas mãos? Não! eu não saio daqui! Fui eu que derrubei esta mato; fui eu que plantei este feijão; fui eu que plantei a mandioca e o café; foi meu marido que fez esta choupana; e querem agora deitar-me fora do lugar onde tenho vivido toda a minha existência! Oh! não, ninguém me porá daqui fora! No momento em que me forçassem a fazê-lo, pois só sairei daqui arrastada e violentada, esse será o último instante da minha vida! Deixem-me, senhores, deixem-me morrer tranqüila neste albergue, pois não desejo, não posso, não quero conhecer no mundo outra pousada.

Depois que terminou este monólogo, a velha ficou em um tal estado de exacerbação, que só depois de muito tempo é que se conseguiu acalmá-la, e o procurador lhe disse que, não desejando vexá-la, lhe propunha avaliasse as benfeitorias que havia feito ao terreno, pois lhe seriam pagas, sendo razoável a avaliação, e com esse dinheiro ela facilmente se estabeleceria em outro local.

— É impossível! continuou ela. Eu não quero dinheiro, não quero nada, só quero morrer aqui. Podem dar-me milhões, que não os receberei. De que me serve a mim a riqueza, quando fosse mesmo a riqueza que me oferecessem? Eu quero esta choupana, esta mobília desmantelada, este teto de sapé, por entre o qual entra o clarão dos raios quando ronca a tempestade e se filtram os raios da lua nas noites serenas! Eu quero estas roças, esta água que vem do córrego beijar os pés das mangueiras, e reverdecer o meu limoeiro e o meu laranjal! Guardem o seu dinheiro todo; mas retirem-se, vão-se depressa, ou ver-me-ão morrer aqui, e tomarão conta desta choupana passando por cima do meu cadáver.

Esta cena produziu em todo nós o mais vivo interesse, e aguardávamos todos em silêncio, esperançosos pelo desfecho.

O meu hóspede, novo dono da casa, insistiu de novo e com mais calor pela avaliação das benfeitorias.

A velha tornou a si, e esperava ansiosa pela sua sentença.

Houve um grande silêncio, em que ouvia-se apenas a respiração dos assistentes.

O procurador, depois de examinar tudo minuciosamente, dirigiu-se ao novo proprietário e lhe disse:

— Senhor comendador, as benfeitorias que se acham neste sítio valem, pagando-se muito generosamente, 500$000 réis!

O meu companheiro e amigo meteu a mão lentamente no bolso, tirou uma carteira, contou cinco notas de 100$000 réis, e, entregando-as à velha estupefata, lhe disse:

— Aqui está o valor das benfeitorias.

— E a minha choupana, senhor, e a minha roça? — perguntou a velha com um grito de desespero.

— São de hoje em diante propriedade sua e de seus filhos.

— Providência! exclamou a velha.

E tornou a perder os sentidos.

Quando voltou a si, não sei o que disse ao seu benfeitor, pois já estávamos montando à cavalo.
 

[1865]

 

(Zaluar, A. E. "A Providência". Jornal das Famílias, tomo 3, 1865, p.339-345)

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