É da própria gênese do comércio ambulante esse espírito de aventureirismo, essa despreocupação social, esse apurado arrivismo, tudo tão característico do mercador andarilho.
Foram os intolerados por uma determinada estrutura econômico-social; foram os renegados pela insaciável cobiça e pelo privilégio de sangue e de berço dos grandes senhores do Alto Feudalismo; foram aqueles que, jogados nas estradas do mundo, tendo como perspectiva de futuro a aventura e como norteamento o incógnito: foram esses, os "dezenraizados", como os classificou Pirenne, que constituíram a semente germinadora da mercância andeja hoje espalhada por todos os quadrantes do mundo.
Ao longo do tempo em que a terra era a única fonte de produção e de renda, vale dizer, de riqueza, tirando só dela o homem os meios necessários à sua subsistência, uns poucos, pela força ou por benesse, apoderaram-se de consideráveis extensões de gleba a cujo amanho subjugaram grandes massas humanas. Eram estas inconsistentes e informes, meros ajuntamentos de camponeses, eterna e forçadamente curvados ao trabalho da terra, incondicionalmente submissos a seus amos e senhores: eram os coloni.
No velho ocidente dos séculos III e IV, dominado pelo poderio das legiões romanas, o exército e a burocracia fizeram reviver a economia natural consubstanciada na maior freqüência do intercâmbio de mercadorias do que no uso da moeda em franca desvalorização. As constantes, sangrentas e prolongadas guerras, em que se via envolvido o Império Romano, deram como resultado o caos econômico acompanhado, inevitavelmente, da desordem social, cultural e política.
Nas áreas em que a luta se desenvolva tanto interna quanto externamente, contra ferozes e ávidos invasores, expedientes vários e desesperados foram postos em prática para manter a fidelidade do poderio das armas e da organização burocrática; dentre eles introduziu-se o hábito de pagar os impostos com produtos naturais. E de tal forma se arraigou o sistema que, malgrado as reformas de Diocleciano e de Constantino, o imposto sobre a terra continuou a ser pago in natura, repudiando-se qualquer iniciativa de retorno à economia monetária.
Essa modalidade de satisfação de impostos, cujas requisições atingiam até bestas de cargas, trabalhos manuais forçados e artigos essenciais à vida, recaía, sobretudo, nos trabalhadores da terra; aos principais contribuintes, sobrava a simples tarefa da coleta entre seus dependentes, os coloni, e a entrega das mercadorias coletada nos armazéns públicos, para depósito.
Ao dos impostos ajuntou-se do mesmo passo, o pagamento dos salários em produtos naturais. Então, não só os funcionários superiores, da administração civil como ainda profissionais privilegiados e soldados, tinham direito de recolher suas pagas por meio de requisições, no que praticavam toda sorte de abusos e explorações. É que tanto para civis quanto para militares, tornava-se vantajoso o pagarem-se em produtos naturais; isso porque, se nas épocas de fartura não tinham problemas, nas de escassez negociavam suas pagas com pingues lucros. Dessa forma, não só ajustavam o soldo como satisfaziam à sua sempre crescente ambição de lucro. Quem sofria era o colonu. Os ricos, os potentiores, estes encontravam meios de furtarem-se ao pagamento de impostos, no todo ou em parte, fazendo recair tal e tão pesado ônus sobre os vergados ombros da classe pobre.
O termo coloni, que antes significava apenas os meros cultivadores do solo, estendeu-se, mais tarde, aos arrendatários e até mesmo aos pequenos proprietários porque estes, como os demais, sentiam dificuldades em pagar os impostos em produtos atingidos que eram pelas flutuações dos valores. Nessas condições, sofriam praticamente os rigores da condição de escravo, gozando apenas de uma liberdade nominal que em nada lhes servia de consolo.
Na Idade Média, consoante ensina Leo Hubermann, existiam três classes sociais: a dos pregadores ou eclesiastes, a dos militares e a dos trabalhadores. Estes últimos eram os que cultivavam a terra, ou cuidavam dos rebanhos, recolhendo os frutos das sementes, tosando as alimárias lanígeras e vivendo em condições sub-humanas, num labor incessante e penoso para sustentar as demais classes. Deles exigia-se tudo; nada se lhes dava.
Sempre que nesses grupos de miseráveis acontecia aumentarem as famílias, ultrapassando a capacidade de atendimento dos compromissos que os manietavam ao suprimento das rendas castelares, inclusive o pagamento dos impostos e salários in natura, eram os excedentes humanos obrigados a tomar novos rumos, a porem-se no desconhecido, a abandonar a casa paterna para não comprometer a precária estabilidade da mesma. Esses degredados da fortuna é que iam compor os grupos de vagabundos, vagando de abadia em abadia, do condado em condado, valendo-se, para manterem-se, das míseras esmolas reservadas aos pobres nos umbrais dos conventos, comendo os sobejos dos canis fidalgos. Enraizava-se neles o espírito da aventura fortalecido pela argamassa da incerteza. O amanhã sempre uma incógnita.
Atendiam ao chamado dos clarins de guerra, soantes do alto das muralhas dos castelos, e engajavam-se como mercenários nos corpos de guerra, insensíveis aos motivos das disputas, por ignorá-los; interessava-lhes, antes de tudo, o saque, quando traziam para as páginas da história a trágica relembrância das arremetidas bárbaras. Pejadas as vinhas, empregavam-se na sadia e nobre tarefa das colheitas. Ao longo das costas, nos estuários dos rios, apresentavam-se para suprir os claros nas tripulações de barcos escandinavos ou venezianos, seduzidos por novos horizontes, por desconhecidos meios de subsistência. As numerosas caravanas de mercadores, que com crescente freqüência se dirigiam aos portos, assim chamados os núcleos de comercialização, os absorviam sob contrato, dando-lhe oportunidades de vitória no longo e doloroso estirão da vida.
Às pressões de ordem econômica e social, expressadas nas diferenciações de classe, ajuntaram-se as de caráter religioso, consubstanciadas nas lutas de crenças, com suas restrições e perseguições. E mais o continuado explodir de guerras, por direito ou de conquista, ora entre condados vizinhos, ora entre nações e povos dispostos a dominar o mundo, utopia que, ao longo dos séculos vem sendo tentada desde César a Hitler.
Eram essas implicações elementos desagregadores do equilíbrio e da estabilidade sociais, levando os inconformados, os perseguidos, os intolerados a procurarem regiões outras, em que lhes fosse permitido plantar raízes duradouras, gozar um viver mais tranqüilo, enfim, descortinar um porvir mais risonho. E não foram pequenos os contingentes humanos que se espalharam pelos diversos quadrantes do mundo tendo por destino... a incerteza e por norteamento... a aventura. Revela a história que desde a Alta Idade Média repetiu-se, multiplicadamente, o fato, robustecidos nos derradeiros tempos pelas dissenções ideológicas e pelo impacto das pressões demográficas.
As estradas dantanho eram palmilhadas por milhares dessas sobras humanas, errantes ao sabor das contingências, sem destino certo, sem horizontes nem perspectivas. Dentre seus componentes, porém, muitos derivavam para a mercância andeja, levando suas mercadorias, não raro seus versos e seus cantares, de castelo em castelo, de feira em feira, de casa em casa, de casebre em casebre arrostando, denodados, os riscos e perigos com que se defrontavam, até que agrupando-se em foris-burgos descansavam da permanente intranqüilidade dos ermos caminhos.
Eram os viajeiros da comercialização; eram os divulgadores orais dos acontecimentos; eram os versejadores e os seresteiros dos saraus nobres; eram os mercadores dos caminhos, os bufarinheiros das estradas sem término. Eram aqueles que, um dia, viriam ter ao Brasil.
Sim, eram os mascates.
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