Em casa da raposa havia festa, o terreiro estava todo limpo, e brilhava a areia da beira do rio como salpicada de ouro vivo.
É que ia casar-se a filha dela com o camaleão, que se requebrava de contente sobre um galho de frondoso taperebá.
Tinham acendido debaixo da árvore uma fogueira, para assarem as caças do banquete, e o camaleão recebia com prazer o calor das chamas, quando viu deslizar nas águas do rio um bonito peixe prateado.
— Que belo prato de bodas! — pensou ele.
E num relance atirou-se agilmente do taperebá por cima da fogueira, cujas labaredas lamberam seu corpo, caindo em cheio no rio, onde pescou o peixe.
A raposa, que o olhava com admiração, sentiu logo o mais violento desejo de imitar a proeza do futuro genro.
— Não faça isso, mamãe — gritou a noiva, — que você tem pêlo e o fogo pega...
— Deixe-se disso, comadre! — gritaram os convidados.
Mas a raposa a ninguém atendeu. Subiu para o taperebá e atirou-se por cima da fogueira, cujas chamas se lhe prenderam ao pêlo do corpo, queimando-a barbaramente. Esteve por um triz a morrer e, quando escapou, não consentiu mais no casamento da filha com o camaleão, dizendo que por causa dele é que quase perdera sua vida.
Em breve, ficou outra vez noiva a filha da raposa do martim pescador, que vivia de pescar com o seu formidável bico, mergulhando na água.
E ainda quis a raposa experimentar se também não podia imitar o seu futuro genro, com o auxílio do seu alongado focinho. Dito e feito. Jogou-se na água. Mas o peixe que ela perseguia ferrou-lhe os dentes no focinho, e quase que a raposa foi para o fundo do rio com o peixe e tudo, sendo salva com a maior dificuldade.
Imediatamente, ao voltar a si, ela desfez o casamento da filha, dando o martim pescador como causador do seu acidente; e tratou de fazê-la noiva de um marimbondo, a quem vira roubar peixe seco de um varal de pescadores, com o auxílio das suas asas.
Preparou-se tudo para as bodas, mas a raposa dessa vez ainda imaginou imitar o genro, furtando também peixe seco do varal. Atirou-se sobre ele, pretendendo pairar no ar, enquanto o roubava, mas foi cair nas goelas dos cães de vigia do varal, que lhe deceparam a cauda com os dentes.
Voltou a raposa cabisbaixa, confusa, e ainda por cima cotó; mas não se deu por emendada e, rompendo o casamento da filha com marimbondo, procurou o carrapato para genro.
Quando este se apresentou, vinha a rir-se à socapa e foi logo apostando com a futura sogra que ele era capaz de quebrar cocos sobre a sua cabeça, sem se molestar.
A raposa pôs-se logo atenta, já invejosa da proeza desse valente carrapato, que na verdade mandou que lhe batessem com os cocos sobre a cabeça. O fato porém é que, sendo a sua cabeça mole, as marteladas do coco não lhe podiam fazer mal.
Chegou o dia do casamento, veio muita gente de fora e estava tudo pronto para a festa, quando a raposa se lembrou de dizer:
— Minha gente, vocês pensam que eu também não sou capaz de mandar bater na minha cabeça com um coco sem a quebrar, como o carrapato?
— Ah, minha mãe! — gritou a raposinha. — Já começa você com a sua mania. Mas veja que o carrapato, meu noivo, tem a cabeça mole e a sua é feita de ossos e se quebrará...
A nada atendeu a raposa orgulhosa, que pediu ao veado para lhe dar uma pancada forte com o coco sobre a sua cabeça. E todos veriam como ela nada havia de sofrer.
O carrapato ria-se.
O veado enfim obedeceu, e a pancada do coco logo quebrou a cabeça dura da raposa, que morreu, castigada assim de querer imitar as façanhas dos outros.
A raposinha casou com o carrapato, e foram sempre muito felizes.
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