Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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Vendedores ambulantes

Jorge Americano

O nougat apareceu mais tarde, numa bomboniére e depois nas ruas, nos quiosques ambulantes.

No começo era um chinês que o vendia, dentro do quiosque de madeira leve, pintado com motivos chineses. Carregava-o com as mãos, por duas alças internas. Mais tarde, um italiano fantasiado de chinês.

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Vem seu Elias, mascate, tendo as costas o enorme baú com divisões e gavetas, preso ao corpo por uma faixa larga de couro a tiracolo. Enfiado num dos braços traz o banco portátil, sobre o qual põe o baú, para abri-lo e exibir a mercadoria.

Traz na outra mão dois pedaços de madeira ligados por um couro; sacudindo a peça, os paus se entrechocam e fazem o barulho característico do mascate que se aproxima.

Estão no baú alguns cortes de fazenda muito ao gosto das empregadas, e todos os artigos de lojas de armarinhos (ponto russo, rendinhas, fitinhas, elásticos, sabonetes, cadarços, botões, colchetes, alfinetes, agulhas, carretéis, retroses, dedais, pentes). Além disso, traz bugigangas, vidrilhos, espelhinhos, bonequinhas.

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Um homem com vara vem tocando perus. No meio do quarteirão apregoa: "Peru, peru, peru". Os perus gritam. De vez em quando desvia um, quer voltar atrás, o homem retorna e encaminha-o. Passou um tílburi na esquina, alguns perus correram para um lado, outros para outro. O homem correu, tangeu daqui, tangeu dali. Um que entrou na venda da esquina saiu escorraçado pelo vendeiro. Sujou na calçada. Um moleque assobia, todos os perus gritam.

Uma criada chamou no portão. a patroa aparece na janela. —- Quanto? Quinze mil réis? É um despropósito!

Tomam vários perus, para sentir qual é o mais pesado.

— Fica este por dez!

O homem oferece outro menor, por doze. Afinal ajustaram o maior por doze, depois de lhe abrir o bico e espiar a garganta para ver se não tinha "gogô". Não tinha.

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O "Castagnaro" vendia "castagna assada ao forno". O forno era um fogareiro conduzido em carrinho de mão, uma roda e duas hastes de suporte. As castanhas iam sendo assadas, eles as tirava e enfiava num cordão, por meio de uma agulha. Juntando uma dúzia, amarrava na ponta de um pau.

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Havia o "Pipoca, pipoca". Um cartucho de papel, um tostão.

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O "dim-dim-dim". Um ferrinho batendo num triângulo metálico. Vendia um cartucho de massa adocicada, como o que hoje serve para acondicionar sorvetes.

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Havia o "açúcar de algodão". O homem despejava uma colher de açúcar no centrifugador, pedalava para girar, o açúcar transformava-se em fios de teia de aranha, tomava o aspecto de algodão no cartucho de papel. Pronto! Um tostão!

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Ouve-se um grito estridente. Este pregoeiro fala francês: "Fraternité, Egalité, "vassourité", la facilité de la famille". Não é francês, não sabe francês, mas era o vassoureiro preferido, porque lhe ensinaram aquelas imbecilidades.

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Escuta-se a distância um chiado estridente, como o canto de cigarras. Vem aumentando, e aparece o carro, com "lenha bruta", vindo de Santo Amaro, puxado por junta de bois. Tange-os, ao lado, um caipira descalço, de chapéu grande e lenço no pescoço, com uma vara de acicate ao ombro.

Comprando "lenha bruta" paga-se quatro vezes o preço das carrocinhas de meio metro cúbico e recebe-se a quantidade seis ou sete vezes maior, despejada à calçada.

Daí a pouco aparece um preto descalço, de machado ao ombro, e se oferece para rachar e recolher. Racha na rua e depois recolhe.

Somando o preço da lenha ao que se paga ao preto lenhador, dá diferença a favor do comprador entre dois e três mil réis.

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Um homem traz às costas um jacá de taquara preso a tiracolo. Pelos vãos largos do tecido passam cabeças de frangos.

— Quanto custa o frango?

— Mil e quinhentos.

— Dou mil e duzentos.

Discute-se, e o vendedor deixa por mil e trezentos. Afasta as malhas do jacá com as mãos e tira um frango preto. A compradora sopra-lhe o pescoço: "Esse não quero, porque tem pele preta".

O homem tira outro, o mais magro de todos: "Não serve, pode ir-se embora".

O homem não quer ir. Discutem, discutem, e afinal fica um mais gordo pelos mil e trezentos (um cruzeiro e trinta centavos).

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Ouvia-se um grito prolongado e estridente como canto de cigarra. Era o vendedor de balaios e cestos de vime. Apoiava alguns paus de pinho sobre os ombros e pendurava neles quantidade de coisas de vime, por barbantes. Cestos cilíndricos e hexagonais para guardar roupa suja. Cestos hexagonais com divisões internas, alças de fecho, ao lado, fixadas uma a outra por um pauzinho, e tendo a alça maior no tampo fixado do lado oposto ao fecho, por duas dobradiças de vime. Seria para colocar farnel para piqueniques. Cestas grandes, do feitio de bandejas, para transportar roupa lavada. Outras menores, do mesmo feitio para os padeiros entregarem o pão. Cestas ainda menores, mesmo feitio para guardar pão. Cestos em feitios de barrilotes muito pequenos, para guardar alimentos que deviam ficar arejados. Alguns abertos, para guardar ovos ou frutas, e cestos pequeníssimos imitando todos os outros, para brinquedo de crianças. E carrinhos de vime, para transporte de bonecas. E uma coisa de vime, semelhante a uma raquete de tênis, para espantar moscas dos tabuleiros ambulantes de doces. E outra menor para abanar o fogo no fogão de lenha, pela manhã.

O homem, visto de longe, carregava um peso imenso. De perto, via-se que transportava uns 20 quilos de enorme volume, difícil de equilibrar quando fazia vento.

(Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo 1895-1915. São Paulo, Edições Saraiva, 1957)
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