Nos tempos passados, as donas de casa do interior do Rio Grande do Sul, acompanhadas pelas filhas, parentes e amigas, tinham o costume de costurar sobre estrados de madeira. Um velho hábito da aristocracia rural. Sentar-se ao estrado, junto a uma senhora, era sinal de distinção, pois quer as pessoas de menos hierarquia social, quer a escravaria, não gozavam desse privilégio. Daí a expressão para designar as moças de elevado status na nossa velha sociedade pastoril: "Ah! Fulana é moça de estrado!"
Mas não foras "as moças de estrado" que criaram, tanto quanto sabemos até o momento, a riqueza de uma das nossas mais belas, senão a mais bela tradição feminina: a tecelagem gaúcha.
Ao contrário, dado o elemento humano que a conserva até o presente, é lícito imaginar — como hipótese de trabalho para ulterior pesquisa — que foi a humilde mulher do povo quem nos carreou a herança européia e portuguesa da tecelagem manual. De fato, só no interior, e em todo o interior diga-se de passagem, é que se encontram nos dias atuais as dezenas, talvez centenas de tecedeiras gaúchas, todas elas, sem exceção, modestas figuras humanas e de humilde condição social. Foram elas, impulsionadas pela tremenda força da tradição, que ontem como hoje sentam nos mochos, frente ao tear, para tecer a sua lã, o seu algodão, ou mesmo trapos de seda colorida. Anônimas, ignoradas pela sociedade moderna, inconsciente da beleza e do valor tradicional de sua arte, as tecedeiras gaúchas trabalham sem cessar através os dois séculos de nossa história.
Mas chegou o dia de sua arte ser posta em evidência. Como num passe de mágica, de uma hora para outra, a tecelagem gaúcha rebentou nas manchetes de jornais, e em reportagens de revistas. Como se isso não bastasse, terá agora o seu momento de glorificação: a Mostra de Tecelagem Folclórica do Rio Grande do Sul, montada pelo Instituto de Tradições e Folclore da Divisão de Cultura, será inaugurada hoje às 17 horas, na Galeria Municipal de Arte, nos altos de abrigo de bondes da praça Quinze de Novembro.
Velhos bicharás, os pesados ponchos de lã que abrigaram nossos avoengos e a escravaria gaúcha, os tradicionais cobertores de Mostardas, tapetes, cortinas, colchas, toalhas, de lã, de algodão ou trapos de seda lá estarão expostos para surpreender e emocionar o Rio Grande. Surpreender, dizemos, pela enorme variedade de desenhos, tanto quanto pela riqueza de colorido. Para emocionar, repetimos, porque poderemos rever, na mansa urdidura daqueles panos, a própria trama da história do Rio Grande.
Mulheres açorianas tecendo nas horas de lazer. Mulheres que, tecendo, esperavam o marido e o filho ausentes, perdidos nas tropeadas longes. Mãos femininas que, também tecendo, enganavam os meses e anos de guerra, sozinhas no rancho abandonado. Bicharás descoloridos pela intempérie e rasgados a lança em mil combates, tudo ali estará recontando a gesta mesma do Rio Grande. Até o humilde baixeiro, o xergão que protege o lombo do cavalo, sobre o qual criamos o nosso progresso.
Mas a glorificação da tecelagem tradicional do Rio Grande não estacará aí. Irá mais longe, com repercussão nacional. Graças à colaboração da Varig, a nossa pioneira da aviação aérea no país, esta mostra, bem como o pessoal técnico do Instituto de Tradições e Folclore, será transportada até Salvador da Bahia dentro de pouco tempo para ser montada naquela capital por ocasião do próximo Congresso Nacional de Folclore, cujo tema central é desta vez precisamente o artesanato doméstico.