Em Piracicaba, na primeira década deste século, havia um lixeiro que além de barulhento, gostava muito de proferir nomes feios, palavrões. A boca pequena o chamavam de "João Palavrão", porém jamais alguém ousou chamá-lo pelo apelido porque estaria sujeito a ouvir a cartilha todinha, da primeira à última página dos nomes feios, sem gaguejar nas sílabas.
Logo pela manhã, lá vinha ele blasfemando, ora cantando, ora surrando os burros que puxavam o carroção coletor de lixo da sempre limpa "Noiva da Colina".
Um dia encontraram o lixeiro morto na boléia do carroção.
Depois disso, nas últimas noites de quinta para sexta-feira de todos os meses, nas horas mortas da noite, ouvia-se o passar do carroção de lixo e o barulho de alguém a fustigar os animais. Ia-se ver, nada se via, só se ouvia o barulho que passava.
Certa noite, um grupo de estudantes da Luís de Queirós e outros moços da cidade, esperaram para "segurar" aquele carroção barulhento. Eis que, em determinada hora, ouviu-se o barulho do carroção de lixo que vinha pela rua Alferes abaixo. Todos se aprestaram para acabar com a barulheira, ficando no meio da rua para impedir a passagem. Eis porém que o barulho do carroção, do resfolegar dos animais chicoteados passa por eles e ninguém viu nada. Até os mais corajosos trataram de ir para as repúblicas ou para casa, com o cabelo em pé e o corpo todo arrepiado... alguns mais mal cheirosos do que o antigo carroção coletor de lixo...
Dizem os barranqueiros que aquele lixeiro blasfemo cumpriu sua pena, acabando assim lá por 1915 essa aparição, não saindo mais à noite para cumprir o seu fadário.