O folclore da cegueira não podia deixar de ser um campo de riqueza fascinante. Nenhum defeito físico provoca maior piedade por parte do povo, que muitas vezes pode não pensar, mas que nunca deixa de sentir. Além da compaixão pelos atingidos, ela desperta um temor indisfarçável no homem são. Nestas linhas não pretendemos analisar o assunto, nem esboçar o levantamento de suas múltiplas formas de expressão, tão variadas quanto é ampla a capacidade emotiva da cegueira. Vamos apenas lembrar algumas histórias, amostras expressivas do filão precioso.
De princípio, recordemos um conto árabe, em que o cego não entra como personagem central, mas como expediente para a dramatização de outro tema incomensurável: a astúcia da mulher. Um cego tinha ciúmes violentos e constantes da esposa, cuja conduta não estava realmente a salvo de suspeitas e censuras. E, meditando no silêncio e na escuridão da sua noite permanente, acabou arranjando para ela uma prisão original. Fê-la viver empoleirada numa grande pereira. Assim não lhe seria possível fugir da vigilância doentia do marido, nem havia como aproximar-se de outro homem, pois lá estava ele permanentemente abraçado ao tronco da árvore. Uma formiga não poderia descer ou subir sem passar sobre seus braços. Pouco durou, porém a situação pois subitamente, no relance de um milagre, o homem recuperou a vista. Antes de esfregar os olhos aturdido pela comoção, seu primeiro olhar foi para o alto da pereira.
Lá estava a infiel, muito bem, mas... em companhia do amante. As expressões de cólera arrasadoras partidas aqui de baixo, ela retrucava, muito ofendida, lá de cima: Como? Isso é que é ser ingrato! Soubesse ele que Alá, numa mensagem especial, a havia prevenido de que o marido só recobraria a visão se ela e esse homem que ali estava, se encontrassem um dia juntos sobre aquela árvore. Depois de tanto esforço para criar as circunstâncias indicadas pelos céus, vinha ele agora com tamanho espalhafato e com suspeitas horrorosas! Era assim que se pagavam benefícios do tamanho desse milagre? Tal ingratidão desafiava os Céus, tirarem-lhe novamente a vista! Ao contar que o homem acabou se desfazendo em desculpas, o conto não faz mais do que repetir o eterno tema dos ardis que as manhas da mulher vêm revelando, desde o jardim do Éden e da caverna do troglodita, até a era do pif-paf e do existencialismo.
A cegueira como castigo chegou até nós num reconto budista. Eram quinhentos que emigravam tangidos pela miséria e pela fome que desabara sobre a terra em que viviam. O país que procuravam era muito distante e para atingi-lo haviam que atravessar longos e perigosos desertos. Haviam contratado um guia, mas este, depois de haver recebido adiantado o seu salário, abandonou-os sem nenhum recurso na solidão imensa dos areais intermináveis. No auge do desespero impotente, sentem o Buda se apresentar entre eles, explicando-lhes a causa da tortura.
Outrora um construtor havia apalavrado o serviço de quinhentos operários para um trabalho importante. Estes, recebendo adiantadamente o total dos salários, desapareceram, deixando o homem sem ter com quem rasgar o solo para os alicerces. Passaram-se muitas gerações. Era forçoso que os operários infiéis fossem tratados, algum dia, como outrora haviam tratado o seu patrão. O guia que os abandonaria no meio do deserto era aquele mesmo construtor, que um dia ficara olhando para o chão intacto, onde se devia erguer a casa planejada e paga. O Buda os fizera cegos para que o castigo fosse mais rude, mas, já que haviam expiado plenamente a sua falta, ele lhes abria os olhos para a luz e lhes iluminava o espírito com a sabedoria.
Os milagres espetaculares da cura da cegueira haviam de se colorir, através dos tempos com as suas lendas. Quem poderá pegar o encanto daquele conto do príncipe indiano atingido pela cegueira, que se refugiou no isolamento da floresta, onde pudesse livremente chorar sua desgraça? Lá ficou o jovem largos anos e, de tanto viver junto dos pássaros, chegou a entender sua linguagem. Nada lhes podia falar, mas tudo quanto diziam o cego traduzia facilmente.
Certa ocasião, deitado sob uma moita enfolharada, ouviu um pássaro falando na árvore mais próxima. Era um pai, dando a aula de todos os dias ao filhote. Ensinava-lhe várias coisas úteis e, em dado momento, disse-lhe que a cegueira se curava com o suco de certa planta. O filhote, bom aluno, quis saber onde se encontrava esse remédio. E soube que se achava ali mesmo, ao pé da árvore em que estavam empoleirados. Mal acabou de ouvir, o príncipe saltou de seu abrigo, espremeu nas mãos ansiosas as folhas que ali estavam tão fáceis, tão à sua espera. Num gesto irreprimível, esfregou nos olhos a massa verde. E, ao abri-los, trêmulo de emoção, estava enxergando. A história acrescenta que sua noiva, também cega, foi curada pelo príncipe. E, como nas narrativas de antanho, casaram-se, foram muito felizes e tiveram muitos filhos.
Encerremos com outra história muito diferente, que nos veio da longínqua Arábia, registrada num livro de cego extraordinário que foi Pierre Villey. Pouco antes da data marcada para o casamento, uma linda moça adoeceu gravemente e, quando chegou a abandonar o leito, estava cega, completamente cega. Alguns dias depois, o noivo, que muito a queria aparece com os olhos vendados de espessas ataduras. Contraíra terrível oftalmia que o levou também à cegueira. O casamento se realizou pouco depois. Não estavam agora os namorados em perfeita igualdade de condições?
Porque protelar o restinho de ventura que pudessem encontrar na vida? Casaram-se no meio de grande simpatia e comiseração. Viveram, na mais completa harmonia, na mais perfeita felicidade, durante mais de 20 anos. Até que um dia a esposa adoeceu, seu estado se agravou irremediavelmente e, na hora em que morreu, a família e os amigos que lhe rodeavam a cabeceira assistiram ao prodígio: o marido retira as suas ataduras, descobrindo os olhos perfeitamente sãos. Vivera cego durante mais de vinte anos, para compartilhar a sorte da companheira querida.
Muitos clamarão que seria mais sensato conservar o uso dos olhos para proteger a esposa com mais segurança entre os infortúnios da existência. Isso seria o realismo da razão. Mas nós, dentro da lenda estamos no domínio do coração e do sonho. Por mais desesperadora que se apresente a cegueira, não podia deixar de esbater, algumas vezes, o lado altruísta do coração humano. Se as lendas traduzem o espírito que as criou, bendigamos a terra em que brotou a história sublime e dolorida de um grande sacrifício pela mulher amada. No coração do homem não rastejaria somente a maldade. Haveria dentro dele um cantinho, atapetado de branco e ataviado de lírios, onde ainda pudesse viver, como existia há milênios, o afeto imortal de um homem bom.