Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 97
Dezembro de 2006
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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Torém

Florival Seraine

Dança imitativa, pantomímica, com todos os indícios da procedência indígena, nas apresentações a que assistimos já denota interferências da cultura folk (popular, rural), não só através de "louvações", que evidentemente, nada têm a ver com a estrutura poética original, como na própria movimentação coreográfica, que já recebe influências do samba rural da zona. Além disso, o texto poético, ao lado de várias palavras reconhecidamente tupis, e de algumas outras indígenas, sem dúvida, mas de outro ramo lingüístico, tremembé, acusa até vocábulos portugueses. Salvo, quando atendem a solicitações de pessoas interessadas, os caboclos de Lagoa Seca — núcleo de palhoças no distrito de Itarema — preferem dançar o torém nos meses componentes do período de setembro a dezembro, na época do mocororó (suco de caju fermentado). Fizemos três visitas a Almofala, tendo sido a última em fevereiro de 1977. Da primeira vez, em 1949, ainda encontramos o caboclo José Miguel, descendente direto dos silvícolas da região.

O torém é dança de terreiro, que exige espaço para a movimentação dos participantes. Uma roda é formada pelos dançadores, cerca de vinte pessoas, em geral mestiços xantodermas, homens e mulheres, sem distinção de idade, os quais se dão as mãos, enquanto o dançarino principal, no interior do círculo, agita o aguaim (espécie de maracá) e põe-se a executar os movimentos da dança e a entoar um canto do qual a melodia e o texto parecem de origem ameríndia. Os dançarinos, orientados pela irmã do dançarino central, que, além dele, era a única autêntica conhecedora dos segredos do torém, buscavam acompanhar o "chefe", cantando em coro e esforçando-se por imitar as suas evoluções coreográficas. O canto não é, certamente improvisado, porquanto os textos-melodias, apesar do arrevesado das palavras que os integram, vão repetidos sem alteração pela irmã do velho cantor, que, sem dúvida, os traz, como ele, decorados.

Ao som do maracá, e sempre cantando, o dançarino principal executa movimentos com o corpo que, às vezes, sugerem um quê de lascívia, requebra-se todo, mexe com os quadris, bate como os pés ao solo ritmadamente; recua um dos pés, enquanto avança com o outro, que efetua movimento de reptação análogo ao de uma serpente; pula com uma só das pernas; marcha na ponta dos pés em rápidos e curtos passos, simulando o andar de certo plantígrado regional; tudo isso com admirável destreza e plasticidade. O mocororó é distribuído largamente no curso das danças e, em sua falta, aguardente de cana-de-açúcar.

Quase um recitativo, com poucas variações melódicas, sobe no ar o canto da tapuia, enquanto servem o suco fermentado entre os dançadores:

Nagúra, nagúra
Guainxê
Nagúra, nagúra
Guainxê
Vamo pro Cuiabá
Ariguê
.

E o coro repete:

Vamo pro Cuiabá
Ariguê.

O torém ainda é exibido, mesmo após a morte de José Miguel e irmã.

(Seraine, Florival. Folclore brasileiro: Ceará. Rio de Janeiro, Funarte, 1978)
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