Renato Almeida mandou imprimir o desenho de um violão na capa da sua magnífica História da música brasileira. E assim fazendo iniciou o seu livro notável com um símbolo. Um símbolo que diz tanto da música do Brasil como a guitarra da dos portugueses, como a lira é a imagem musical da Grécia antiga, assim como o bezerro rítmico de uma jazz band identifica aos ouvidos do mundo esse barulho organizada que é a civilização da Norte América contemporânea.
O violão tocado ao nosso modo é a bandeira sonora do Brasil.
O som que sai das suas cordas é mesmo verde e amarelo. E tem azul no meio com faixa com estrelas e com tudo. E não vá ninguém pensar que ele é assim porque nasceu e se criou no Brasil. Nasceu e se criou coisa nenhuma. Já ele — com o nome de guitarra — era um grande de Espanha quando as caravelas portuguesa encalharam, casualmente nas praias de Vera Cruz. Trouxeram-no os portugas para cá, se bem que preferissem a sua guitarra nacional seu parente legítimo porém dele bem diferente em construção e sonoridade.
As raças que para aqui vieram se agarraram com ele e nunca mais o largaram. E a proporção que sofriam as influências do sol, do clima, do ambiente e se abrasileiravam, iam-no abrasileirando também. Quando ele estava estava falando direitinho a gíria musical da terra, deram-lhe o apelido safado de "pinho". E, com ele nos braços, saíram, por todas as esquinas de todas as cidades, todos os poetas, todos os trovadores, todos os amorosos, todos os que sofriam de saudades e de amor sem esperanças, a cantar os seus desejos e as suas mágoas, colaborando sem saber na fundação de uma música de uma pátria nascente.
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Não possuímos nenhum elemento seguro pelo qual nos seja lícito indicar a época em que o violão fez a sua aparição aqui pela maloca Tabajara. O que podemos afirmar é que, pelos fins do século XIX e começo do século XX, o "pinho" já tinha pegado bem do Sanhauá às ladeiras da Borborema. Pelo menos nesta cidade da Paraíba começou o bichinho a andar nas mãos dos seresteiros, fazendo gente pacatíssima pular da cama às duas horas da madrugada e pondo fora de compasso as batidas de muitos corações.
Por esse tempo a modinha andava na ponta bancando o lied nacional brasileiro. Viera também da Europa, na bagagem sentimental do luso. Mas aqui ficou bem outra, mudou de feição. Casaram-na com o "pinho" e nunca se viu um casório tão feliz. Parecia que um adivinhava o pensamento do outro.
Com tudo que era gente moça do país inteiro, a mocidade paraibana tomou-se de paixão pela boa carraspana musical, que se integrava na seguinte fórmula: luar, violão, modinha e... um pouco de aguardente para inspirar, espalhar o sangue e evitar os resfriados. Para terminar lá pela madrugada, um bote picado de porco fazia parte obrigatória do programa. Acontece que o lirismo praticado assim a andar pela friagem da noite, dá uma fome de matar... E a gostosa serenata tornou-se uma verdadeira "cachaça" de mais de uma geração. Com tais excessos a praticavam alguns rapazes da época que alguns foram mesmo por ela vitimados. O jornalista Arthur Aquiles perdeu um filho muito moço ainda diz a gente do tempo, em conseqüência das muitos extremadas práticas seresteiras.
Outros moços, porém muitos outros faziam as suas serestas dentro das normas de uma sadia e prudente moderação. Ainda os temos a vários deles entre nós sofrendo tão somente do mal de uma saudade incurável — João de Porciúncula, Manuel Marinho Falcão, José Lisboa, podem dar testemunho bem bom sobre o assunto. Foram esses no esplendor da modinha excelentes violonistas cantores, como ainda hoje demonstram quando casualmente agarram um pinho bem afinado. Não esqueçamos também o Nô Monteiro (Luís das Neves), esse seresteiro teimoso que inda hoje acredita em serenatas. Nem ao Nélson Serrão, um bicho bom nas valsinhas de esquina.
Otávio Sá Leitão e José Firmino já se foram para sempre, levando nas almas simples e boas as canções com que enterneceram tantas noites a cidade.
A modinha — forma de composição — também morreu, por já haver cumprido a sua missão dentro da nossa evolução musical. O que havia nela de verdadeiramente brasileiro — constâncias melódicas harmônicas psicológicas — integrou-se nas novas formas em que se afirma, hoje, a musicalidade brasileira.
O violão ficou, porque tinha capacidade para representar os tempos novos que surgiam. Enviuvando da modinha, parece que ele ainda mais se achegou à alma brasileira.
Na Paraíba, salvou-o da derrocada seresteira um bárbaro com alma de poeta e dedos de clavecinista do século XVIII. Foi Milton Dantas, de quem falaremos breve, mais a vagar.