Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Engenho de açúcar e abelhas sem ferrão

Thomas Ewbank

A propriedade de nosso hospedeiro é considerada pequena, tendo apenas meia légua quadrada. cercada de montanhas, parte considerável dela consiste em florestas. O gado perfaz trinta e seis muares, quarenta bois e vacas, e setenta escravos, velhos e moços, sendo que uns trinta são fisicamente aptos. Quatro trabalhadores de primeira classe e duas crianças, avaliados em oitocentos dólares, morreram recentemente de febre. Mandioca, café, feijão, além da carne de porco e de carneiro são produzidos em quantidade suficiente para a família e os negros. O artigo principal da fazenda é o açúcar. Não se cultiva nada mais para ser vendido. A colheita deste ano é muito boa, e espera-se que dê quatrocentas medidas de oitenta libras cada uma, o que, a 5 centavos de dólar, perfazem somente 1.600 dólares, quantia miserável para um investimento de tanto capital, o produto do suor e das lágrimas de tantos homens e animais, além do custo de ferramentas; soma esta que, além disso, será diminuída pelo custo das caixas, transporte para o mercado, comissões, impostos etc.

O engenho, acionado por muares, é do século passado — a primeira forma européia do original asiático — e consiste em três cilindros rotativos verticais, de madeira, revestidos de ferro. O caldo espremido passa através de uma calha para a caldeira anexa, onde tem lugar o processo comum de concentração. Entre o engenho e a mansão, acham-se os casebres dos escravos. Presas à parede de um deles havia duas pequenas caixas de charutos, colméias de abelhas juritis. Juriti é um diminutivo indígena. Esses insetos fabricantes de mel são, na cabeça e no corpo, ligeiramente mais grossos que mosquitos, com os quais confundi a princípio. Suas celas em nada se assemelham às de nossas abelhas. O favo é de cor castanho-escuro, e em construção faz lembrar um formigueiro. Extremamente sensíveis às influências atmosféricas, estas abelhinhas cerram todas as frestas de sua moradia e à noite se fecham tão hermeticamente que nem invasores nem a umidade podem penetrar, e a única porta é aberta e fechada tão cuidadosamente quanto os portões de uma cidade fortificada. Nunca a abrem antes que comece a cair o orvalho da noite. Fiz questão de observar, de manhã e ao anoitecer, o trabalho das abelhinhas guardiãs das portas.

Um orifício de um quarto de polegada, que parece feito a verruma, através de um lado da colméia é a única entrada ou saída. Sobre ele os pequenos artistas formam um curto tubo de cera, e curvam-no para cima até que a abertura fique horizontal. Pela manhã, o orifício é aberto e as bordas reviradas para fora; à tarde o material é reunido num bulbo ou abóbada, como a extremidade fechada de um tubo de barômetro. Estas abelhas não têm ferrão, e ainda assim são singularmente corajosas, pois de sua vizinhança expulsam a abelha comum.

[1848]

 

(Ewbank, Thomas. A vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte, Editora Itatiaia / São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1976. Reconquista do Brasil, 26)
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