Pereira da Costa, Texto publicado em Vocabulário pernambucano
Espécie de balsa de 7 a 8 metros de comprimento sobre 2,60 de largura, feita de 6 paus de uma certa madeira mui leve, ligados entre si por meio de cavilhas de madeira rija. A jangada é principalmente destinada à pesca, desde o norte da Bahia até o Ceará. Também a emprega como meio de transporte de passageiros e, neste caso, são guarnecidas de um toldo e dão-lhe o nome de paquete. Os dois paus do centro são os meios; os dois imediatos, os bordos; e os dois últimos, as membiras.
Segundo Juvenal Galeno, de proa a popa, as suas partes acessórias são:
1. Banco de vela, que serve para sustentar o mastro;
2. Carlinga, tabuleta com furos embaixo do banco de vela e em que se prende o pé do mastro, mudando-o de um furo para outro, conforme a conveniência da ocasião;
3. Bolina, tábua que, entre os dois meios e junto ao banco de vela, serve para cortar as águas e evitar que a jangada descaia para sotavento;
4. Vela, uma grande e única vela cosida em uma corda junto ao mastro, o que se chama palombar a vela;
5. Ligeira corda presa à ponta do mastro e nos espeques para segurar aquela;
6. Retranca, vara que abre a vela;
7. Escota, corda amarrada na ponta da retranca e nos caçadores. Para encher a vela de vento, puxa-se a escota;
8. Caçadores, dois tornos pequenos da proa;
9. Espeques, dois tornos de 0,22 com uma travessa e no meio uma forquilha. Na forquilha cada pescador amarra uma corda e, quando é preciso, nela segura-se derreando o corpo para o mar e assim "agüentando a queda da jangada". Nos espeques e forquilha colocam-se o barril d'água, o tauaçu, a quimanga, a cuia de vela, a tapinambaba, o samburá e a bicheira;
10. Tauaçu, pedra furada, presa a uma corda e serve de âncora;
11. Quimanga, cabaça que guarda comida;
12. Cuia de vela, concha de pau com que se molha a vela;
13. Tapinambada, maçame de linhas com anzóis;
14. Samburá, cesto de boca apertada em que se guarda o peixe;
15. Bicheira, grande anzol preso a um cacete, com que se puxa o peixe pesado para cima da jangada, a fim de não quebrar a linha;
16. Banco do governo, banco à popa em que se assenta o mestre;
17. Enfim, machado e fêmea, dois calços à popa, onde se mete o remo, servindo este de leme;
Etim. É termo usual em Portugal, bem que a jangada de lá não tenha a aplicação que lhe dão no Brasil. Parece que este vocábulo é relativamente moderno na língua portuguesa. É certo que em 1587 já dele se serve Gabriel Soares; mas anteriormente, em 1500, Vaz de Caminha, descrevendo a jangada que vira em Porto Seguro, dá-lhe o nome de almadria. Em tupi tem a jangada o nome de igapeba, que se traduz em canoa chata.