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Estrela cadente

Osvaldo Orico

Esta é uma das mais famosas abusões correntes na Amazônia e espalhadas por todo o Brasil. Acredita-se que, quando uma estrela risca a noite e cai no espaço, descrevendo uma curva luminosa, que Neuwcoun calcula que se reproduz mais de 146 bilhões de vezes por ano, é permitido àquele que vê o fenômeno solicitar uma graça. Isso, porém, deve ser rápido, paralelo com a trajetória do corpo cuja origem se afirma ser igual à dos bólides. Se a estrela cadente já houver desaparecido, não adianta pedir a graça. Se, entretanto, a invocação se fizer no instante em que ela penetra na atmosfera, o espectador tem o direito de esperar que se realize o desejo que fixou na imaginação.

É uma crendice universal, que encontra na tradição de vários povos. Guy de Portalés, escrevendo a biografia de Listz, conta que Ana Listz, quando gerava aquele que devia ser o mestre das Rapsódias húngaras, viu, certa noite, um cometa.

Ao longo da órbita, desagregando-se do enxano meteórico, surgiu no céu uma estrela cadente isolada.

E Ana Listz, segundo a versão popular, teria solicitado, nesse minuto, que fosse concedido ao filho o som da música.

Sob o signo do cometa, realizou-se o milagre. A estrela cadente fez com que, aos quatorze anos, o menino escrevesse para a ópera Dom Sancho ou castelo de amor e, aos setenta, houvesse aumentado a sinfonia do mundo com seu gênio.

 

(Orico, Osvaldo. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Rio de Janeiro, Civilização / Brasília, INL, 1975. Retratos do Brasil, 93, p.179-180)
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