Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Dezembro 2005 - Ano X - nº 85


Sumário

Festança
Festa da Conceição
Hermógenes Lima Fonseca

O Natal: festa do povo
Guilherme Santos Neves

Natal no Sul
Augusto Meyer

Cancioneiro
Moda dobrada

Gavião Mouro
Augusto Meyer

A macacaria

Imaginário
João Grilo

Não nascem mulas sem cabeça, mas elas podem aparecer...
Hugo Paulo de Oliveira

Deus é grande, me ajudou a fugir
Ruth Guimarães

Colher de Pau
O folclore da jabuticaba
Maurílio Torres

Depoimento de Renato Almeida sobre doces baianos da época de sua meninice (fim do século XIX)

Espinha de peixe
Osvaldo Orico

Oficina
Os mariscadores
Joaquim Ribeiro

Mulas
Richard Burton

Giolo, caboclão-barbeiro: O Aleijadinho de Taubaté
Luiz Ernesto

Palhoça
Da amizade recíproca dos maranhenses e da recepção que fazem a seus amigos
Claude d'Abbeville

A festa da moça nova
Sebastião A. Pinto

O falar do Ilhéu
A. Seixas Neto

Panacéia
8 de dezembro: Nossa Senhora da Conceição
Mariza Lira

Estrela cadente
Osvaldo Orico

Folclore e alergia
Ernesto Mendes

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

8 de dezembro: Nossa Senhora da Conceição

Mariza Lira

Maria, a donzela que nasceu em Nazaré, segundo os textos evangélicos, foi, por vontade do Senhor, desde o primeiro instante da sua concepção no seio de Santana, isenta da mancha do pecado original, imposta à humanidade pela falta de Adão e Eva.

E por que tão excepcional privilégio?

Ensina-nos a religião que para evitar fosse a mãe de Jesus, o deus-homem, manchada por um só pecado mesmo involuntário. E ainda mais, querem outros que Maria, que foi a personagem maior no mistério da redenção, gozasse antes de ninguém a graça de ser redimida.

Essas duas passagens de caráter divino, que tanto ultrapassam o humano, vêm explícitas no texto do Gênese (III, 15), onde aparece a mulher criadora, a mulher pureza original esmagando a cabeça da serpente, aí a concupiscência, a tentação, o satanás.

A outra refere-se (Luc., I, 28) às palavras de Deus, — o anjo Gabriel, ao anunciar a Maria a graça divina de ser a mãe do filho de Deus: "Ave Maria, plena de graça!"

Esta crença, tão antiga quanto a igreja, embora combatida pelos dominicanos, defendida depois pela escola de Scot, pelos jesuítas e mesmo pela Sorbonne, foi rejeitada por várias opiniões, inclusive por Alexandre Herculano, mas, por solicitação entusiástica dos fiéis de Maria, transformada em dogma.

Coube ao papa Pio IX confirmar esse dogma na bula Inefabilis, de 8 de dezembro de 1854, nestes termos: "Nós declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi, no primeiro momento de sua concepção, por uma graça e privilégio singular de Deus Todo Poderoso e em vida dos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero original, é revelada de Deus e que, por conseqüência, deve ser acreditada firmemente e constantemente por todos os fiéis".

E o dogma foi logo expresso pela arte, simbolizado por uma mulher esmagando com o pé a cabeça da serpente, em múltiplas telas e esculturas.

Até a rima popular cantou-o lindamente:

Ó ave Maria
Que o Senhor escolheu
Para ela ser mais sua
Por ela nasceu
Meu doce Jesus
Salvador do mundo
Espelho de luz

E assim tão casta, tendo merecido a graça divina de ser pura, para ser mãe de Jesus, Maria, que ficou sempre virgem, possui em si duas naturezas: a divina e a humana.

Daí a adoração da humanidade, as homenagens de fé e confiança que lhe tributam em todas as pátrias.

E como não há de ser assim, se é a voz do povo, que equivale à voz de Deus, que proclama —

Maria, nome tão doce
Todo ele é uma doçura
Como não há de ser doce
O nome da Virgem pura

Mas não há louvor mais belo que este que toda a gente repete:

Como o sol, pela vidraça
Entra e sai sem tocar nela
Assim a Virgem Maria
Pariu e ficou donzela

Essa é a mais difundida forma no interior do Brasil, mas há variantes mais belas:

No ventre da Virgem Santa
Encarnou divina graça
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça

A pureza aliou-se à magnanimidade de Maria, que, como criadora, é considerada a mãe dos homens, a que guia, a que ampara, a que perdoa.

A Concepção, a Conceição de Maria, que todos os católicos festejam a 8 de dezembro, é a data máxima, o ponto de partida da sua santificação por Deus.

E o povo católico, genuflexo e confiante, ora nesse dia:

Virgem Mãe, minha senhora
Cobri-me com vosso manto
E, se eu bem coberto for
Não terei medo nem pavor
Nem à hora do meio-dia
Nem de noite, nem de dia
Se eu morrer, alumiai-me
Se eu dormir, acordai-me
Com as três candeias bentas
Da Santíssima Trindade

Nessa oração ingênua, o povo simbolizava o manto como proteção, porque sabe que, se for "bem coberto com o Divino Manto de Nossa Senhora", estará livre de todos os males.

orando com fé à Virgem, nós temos certeza de adquirirmos energia, que nos alentará a alma e revigorará o corpo para as lutas, quando, graças à proteção de Maria, nos advirá a vitória.

Desde 1º de dezembro que se movimentam os católicos de todo o mundo, em preces e novenas, louvando a Conceição.

E as trovas tradicionais também exaltam gloriosamente Maria:

Senhora da Conceição
Minha mãe, minha madrinha
Lançai-me vossa bênção
Que, bem vê, sou pequenina

Virgem Maria bendita
Senhora da Conceição
Tende de mim compaixão
Deitai-me a vossa bênção

Senhora da Conceição
Como guardaste o menino
Nos teus braços, no teu colo
Resguarda o nosso destino

E, para terminar, nestes dias de glória e de novenas à Conceição de Maria, parodiemos, com a devida vênia, o poeta português, nesta quadrinha que, do fundo da alma e em perfeita contrição, devemos repetir:

Olha o mundo redondinho
Que o menino tem na mão
— Faze o mesmo ao Brasil
Senhora da Conceição

(Lira, Mariza. Calendário folclórico do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Prefeitura do Distrito Federal / Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1956. Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 2, p.395-398)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso