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O falar do Ilhéu

A. Seixas Neto

O ilhéu da ilha de Santa Catarina — a "Mei-en-hipe" dos "casos e ocasos raros", e dos "criadores de caso", também — o nativo ilhéu (que hoje, são poucos em relação com a quantidade populacional oriunda de outras partes) fala, sem qualquer dúvida, o português mais perfeito falado no Brasil. O ilhéu tem a velocidade lusitana de flexão capaz de pronunciar cinqüenta palavras, razoavelmente longas, por minuto; tem o "som cantado" português, que sonoriza melodiosamente o vocábulo como no Minho, no Douro, no Trás-os-Montes, e, de modo particular, nos Açores. O nativo ilhéu ainda usa, em pleno curso e em significado original, palavras lusitanas do século dezesseis, que podem, aos de fora, parecer estranho e inusitadas; é inegavelmente, o purismo popular.

É comum ver-se o ilhéu dizer "bonecro", "soidade", "ragalume", "bantesma" ou mesmo "vantesma", "capina" — o não nativo geralmente diz "carpir" por capinar, tirar o capim a enxada; pro ilhéu, "carpir" é chorar — "toicinho", "oiro", e assim por diante; só lhe falta, evidentemente, o sotaque luso, mas isto seria impossível pela latitude da ilha e pelo clima; mas troca, influência da Magna Grécia em Portugal, o "b" pelo "v" e vice-versa: assim diz "bassoira" por vassoura, "barrer" por varrer; e indo por diante. Diz "taimpa" por tampa (verbo tampar — cobrir — que muito boboca, que se diz culto falar "tapar"; "tapar" é dar tapa, com a mão aberta; "doía-te uma tapada nas ventas" é comum no interior ilhéu para significar: Dou-te um tapa na cara; no nariz, mais precisamente) por isto, de modo bastante regular, quem fala com um nativo ilhéu, dos sítios, pouco lhes entende o significado das palavras ou disso se ri, como se o ilhéu fosse "burrinho da silva", mas não, seu falar é seiscentista e é preciso bom conhecimento português para seguir o "fio da conversa".

Depois, há uns usos portugueses das aldeias: Fazer o "serão": serão é trabalho voluntário à noite, gratuito, com "anedoitas" e "causos" para matar o tempo até as "deshoras" (é "deshoras" lusitano mesmo, quero dizer, hora tardia, tarde da noite, e não dez horas). Mas há também, uma intrusão muito interessante: É a do "francesismo", trazido pelos seus maiores desde Portugal como, por exemplo "pra riba", "suspender" (por alevantar), "dejahoje" (por horas atrás), "pro mode" e tantos outros. O ilhéu sente dificuldade em aceitar os "inglesismos" atuais: No futebol por exemplo, o goal é "golo" — que é como dizem em Portugal — "chuto de través" é o corner ou escanteio. E vai por aí fora.

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Que o ilhéu é um purista, não haja dúvida. O diabo, é que na ilha mora gente de toda banda ("banda" pro ilhéu é lado; da "banda de lá", isto é do lado de lá) e o inglês, tão divulgado nos dias modernos por dá cá uma palha, tem ingressado imensidade de vocábulos que não dizem, e isto é verdade, nada em português. Será que não aparece alguém, estudioso de história da língua portuguesa em diversos estados do Brasil, para escrever um estudo demorado sobre o último baluarte da língua lusitana em terra d´Além Mar". Seria bom isto, conservaria um acervo lingüístico, uma tradição e até mesmo elementos para, no futuro, entender o que os lusos disseram e escreveram nos dias dos descobrimentos.

 

(Seixas Neto, A.. "O falar do ilhéu". O Estado. Florianópolis, 05 de janeiro de 1972)
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