Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Dezembro 2005 - Ano X - nº 85


Sumário

Festança
Festa da Conceição
Hermógenes Lima Fonseca

O Natal: festa do povo
Guilherme Santos Neves

Natal no Sul
Augusto Meyer

Cancioneiro
Moda dobrada

Gavião Mouro
Augusto Meyer

A macacaria

Imaginário
João Grilo

Não nascem mulas sem cabeça, mas elas podem aparecer...
Hugo Paulo de Oliveira

Deus é grande, me ajudou a fugir
Ruth Guimarães

Colher de Pau
O folclore da jabuticaba
Maurílio Torres

Depoimento de Renato Almeida sobre doces baianos da época de sua meninice (fim do século XIX)

Espinha de peixe
Osvaldo Orico

Oficina
Os mariscadores
Joaquim Ribeiro

Mulas
Richard Burton

Giolo, caboclão-barbeiro: O Aleijadinho de Taubaté
Luiz Ernesto

Palhoça
Da amizade recíproca dos maranhenses e da recepção que fazem a seus amigos
Claude d'Abbeville

A festa da moça nova
Sebastião A. Pinto

O falar do Ilhéu
A. Seixas Neto

Panacéia
8 de dezembro: Nossa Senhora da Conceição
Mariza Lira

Estrela cadente
Osvaldo Orico

Folclore e alergia
Ernesto Mendes

Veja o que foi publicado em Palhoça
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

O falar do Ilhéu

A. Seixas Neto

O ilhéu da ilha de Santa Catarina — a "Mei-en-hipe" dos "casos e ocasos raros", e dos "criadores de caso", também — o nativo ilhéu (que hoje, são poucos em relação com a quantidade populacional oriunda de outras partes) fala, sem qualquer dúvida, o português mais perfeito falado no Brasil. O ilhéu tem a velocidade lusitana de flexão capaz de pronunciar cinqüenta palavras, razoavelmente longas, por minuto; tem o "som cantado" português, que sonoriza melodiosamente o vocábulo como no Minho, no Douro, no Trás-os-Montes, e, de modo particular, nos Açores. O nativo ilhéu ainda usa, em pleno curso e em significado original, palavras lusitanas do século dezesseis, que podem, aos de fora, parecer estranho e inusitadas; é inegavelmente, o purismo popular.

É comum ver-se o ilhéu dizer "bonecro", "soidade", "ragalume", "bantesma" ou mesmo "vantesma", "capina" — o não nativo geralmente diz "carpir" por capinar, tirar o capim a enxada; pro ilhéu, "carpir" é chorar — "toicinho", "oiro", e assim por diante; só lhe falta, evidentemente, o sotaque luso, mas isto seria impossível pela latitude da ilha e pelo clima; mas troca, influência da Magna Grécia em Portugal, o "b" pelo "v" e vice-versa: assim diz "bassoira" por vassoura, "barrer" por varrer; e indo por diante. Diz "taimpa" por tampa (verbo tampar — cobrir — que muito boboca, que se diz culto falar "tapar"; "tapar" é dar tapa, com a mão aberta; "doía-te uma tapada nas ventas" é comum no interior ilhéu para significar: Dou-te um tapa na cara; no nariz, mais precisamente) por isto, de modo bastante regular, quem fala com um nativo ilhéu, dos sítios, pouco lhes entende o significado das palavras ou disso se ri, como se o ilhéu fosse "burrinho da silva", mas não, seu falar é seiscentista e é preciso bom conhecimento português para seguir o "fio da conversa".

Depois, há uns usos portugueses das aldeias: Fazer o "serão": serão é trabalho voluntário à noite, gratuito, com "anedoitas" e "causos" para matar o tempo até as "deshoras" (é "deshoras" lusitano mesmo, quero dizer, hora tardia, tarde da noite, e não dez horas). Mas há também, uma intrusão muito interessante: É a do "francesismo", trazido pelos seus maiores desde Portugal como, por exemplo "pra riba", "suspender" (por alevantar), "dejahoje" (por horas atrás), "pro mode" e tantos outros. O ilhéu sente dificuldade em aceitar os "inglesismos" atuais: No futebol por exemplo, o goal é "golo" — que é como dizem em Portugal — "chuto de través" é o corner ou escanteio. E vai por aí fora.

* * *

Que o ilhéu é um purista, não haja dúvida. O diabo, é que na ilha mora gente de toda banda ("banda" pro ilhéu é lado; da "banda de lá", isto é do lado de lá) e o inglês, tão divulgado nos dias modernos por dá cá uma palha, tem ingressado imensidade de vocábulos que não dizem, e isto é verdade, nada em português. Será que não aparece alguém, estudioso de história da língua portuguesa em diversos estados do Brasil, para escrever um estudo demorado sobre o último baluarte da língua lusitana em terra d´Além Mar". Seria bom isto, conservaria um acervo lingüístico, uma tradição e até mesmo elementos para, no futuro, entender o que os lusos disseram e escreveram nos dias dos descobrimentos.

(Seixas Neto, A.. "O falar do ilhéu". O Estado. Florianópolis, 05 de janeiro de 1972)

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