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Conversando com padre Estélio, das missões salesianas no alto rio Negro, ouvi coisas interessantes sobre o viver de muitas tribos. Soube de costumes curiosos, usanças exóticas e práticas só mesmo cabíveis num meio selvagem. Excursionando pela vasta mesopotâmia, há alguns anos atrás travei conhecimento com o oficial do Exército Nacional, então capitão Omar Chaves, antigo membro da Comissão de Limites com a Colômbia, grande conhecedor da Amazônia, de onde é filho. Desse distinto militar, ouvi a confirmação do relato do padre salesiano. E ouvi ainda mais alguns fatos interessantíssimos, entres os quais a história da festa da moça nova, que abaixo relato:
"Na margem esquerda do rio Solimões, cerca de 120 quilômetros abaixo de Tabatinga, desembocam o rio Tocaná e o Igarapé do Belém. Na vasta região compreendida entre esses dois curso de água, habita a tribo dos ticuna. São quase dois mil índios. Que vivem primitivismo interessante, com hábitos os mais estranhos. Esses aborígenes adotam a monogamia. Mas os chefes são polígamos, obrigatoriamente, sendo tolerada a bigamia dos guerreiros.
Os ticuna conservam entre os usos e costumes exóticos, alguns ritos religiosos dignos de nota. Na festa da moça nova, o ritual tem que ser cegamente observado, sob pena de morte.
Quando a mocinha, a cunhantã atinge a puberdade, esse fenômeno biológico tem que ser celebrado com estranhas práticas. Assim recolhem a indiazinha numa cabana isolada, redonda, feita de ripas de palmeira, coberta de palmas. Segredada do convívio de todos, por longos dias, a donzela aguarda as festas do ritual, cujos preparativos se fazem intensamente. O pajé, o maior poder da tribo, orienta a aprontação.
Depois de concluídos os preparativos da cerimônia, feitos pelos parentes da mocinha, marca-se a data das festividades. E sai um membro da família a fazer os convites. Curiosa é a maneira de convidar. O índio, pilotando a sua "montaria", vai de igarapé em igarapé, corre de maloca em maloca, munido de um instrumento rústico, feito de bambu silvestre e a que dão o nome de "aricanha". Ao atingir o porto da residência do indivíduo a ser convidado, o emissário modula alguns sons da aricanha. E segue viagem sem nada mais fazer. Pela modulação, o convidado fica sabendo o dia, o lugar e a hora da festa e mais ainda, quem é o festeiro.
Chega o grande dia. Começa a festança. Esta tem início pela recepção dos convidados. Há larga distribuição de "caxiri" e de "caiçuma", bebidas fermentadas. A embriaguez coletiva dura três dias. E há música bárbara. E há danças típicas. Aos sons das aricanhas, tantans, japurutus e outros instrumentos primitivos, toda uma estranha coreografia é exibida e aplaudida pelos bugres. Enquanto dançam, algumas mulheres velhas, experientes, iniciam a donzela, reclusa nos segredos da vida adulta. Ensinam-lhe coisas do amor. E dão-lhe instruções sobre as obrigações da mulher, tais como atividades domésticas, saber fazer bebidas, trançar a rede para o marido, acostumar-se ao sofrimento, obedecer cegamente ao seu homem e outras coisas mais. Depois submetem-na às provas da tentação e curiosidade. Pratica-se então, a cena do Pai de Vento, feita por mascarados vestidos grotescamente. E tudo termina com um bailado selvagem e violento representando lutas e morte.
Então terminadas as provas, vem o fecho da festa. Num ambiente de embriaguez completa, ultima-se a função. A iniciada é transportada para o terreiro da aldeia. A um sinal do chefe da tribo, algumas megeras, atiram-se sobre a mocinha. E entram a arrancar-lhes os cabelos, que tinham sido previamente pintados com pasta de jenipapo. Com uma rapidez incrível, vão arrancando os cabelos da donzela ticuna.
Coberta de sangue, descabelada, ferida, a iniciada não grita, nem geme. Num dado momento, o pai, o dono da festa, chama um guerreiro de sua simpatia e doa-lhe a filha. Para que dela faça sua esposa. Não importa que o guerreiro já seja casado. O marido escolhido, toma-a nos braços, conduzindo-a para sua maloca, onde ela vai ser a "tucunuá". E consuma-se a noite de núpcias, bárbara e original, sob a ação da "caiçuma" e debaixo do estrondar dos tantans.
E a selva continua a viver em pleno regime de pajelança.