"O barro, em arte, é igual ao ouro" — com esta curiosa (e autêntica) frase recebe o repórter em Taubaté, um estranho homem. É baixinho, de bigodinho e extremamente falante. Seu nome Pedro Giolo, é barbeiro (12 anos) e às vezes jornalista. Tem sensibilidade "pras" coisas do folclore. E de uns dois anos para cá deu para fazer (montar, cinzelar, compor, formar) bonecos e calungas — de grande valor.
São eles centenas de peças de barro, madeira, vidro e trapos — "perfumaria" esquisita do seu salãozinho de barbeiro. As peças, duma força terrível, desfilam mudas: santos místicos, diabos, figuras populares e de lenda, caricaturas, animaizinhos e máscaras mundanas e sórdidas.
Ante o seu mundo apocalíptico, só Giolo é quem fala mesmo.
— O artista não precisa de material pra se exprimir. Qualquer um, serve. É o "tutano" da cabeça!
Giolo é antes de tudo um artesão medieval e habilíssimo. Nos seus calungas ele emprega até casca de ovo, tricô desfiado, pedaços de fósforos ou cabelo humano!
— Meus calungas e bonecos são imagens da vida que passam e se perdem por aí — diz ele. O imenso laboratório (humano) para suas pesquisas é mesmo a barbearia. Cada freguês é um tipo.
De repente, Giolo pára de falar. Cata um punhado de materiais os mais diversos. Arruma tudo, com cola. Num instante, ele fez uma magnífica "quarentona" — de lábios muitos pintados, óculos "ray-ban" e enfeites exagerados.
É preciso registrar a obra curiosíssima: A cabeça é um pião invertido; a base é uma caixinha de fósforo; os lábios: um pedaço de pano, bem vermelho; cigarro: um nada de papel; nariz: canto de rolha; óculos: fechinho de lata; orelhas: nesga de borracha; cabelos: cabelo louro, mesmo.
No nome, que escreve a tinta, num lado da caixa de fósforo, faz a crítica social: "Ruína".
Vida e paixão
Giolo nasceu em Taubaté (terra de Monteiro Lobato) há 43 anos. No dia de São Pedro. Pai e mãe italianos "da leva de 1895". Ambos lavradores.
A mãe ainda é viva e mora com ele. Com 85 anos faz meia de lã ou algodão sem olhar as agulhas. É o modelo noturno para o artista.
O menino Pedro foi moleque dos bons. Divertido, impaciente, temperamental, irrequieto. Aos 12 anos, fez cabeças para o Teatro João Minhoca. Quando os donos do teatro (Julião e Mendonça) faliram e venderam o acervo, quase enlouqueceu. Tudo (sessenta cabeças e vinte cenários) foi vendido por 60 mil réis. O moleque não tinha o dinheiro para comprar.
Seresteiro, fez inclusive músicas "que andam por aí". Mas não soube passá-las no papel. Especialidades: bandolim, cavaquinho e violão.
Só tem instrução, até o terceiro ano do grupo.
Tentou o trabalho em seis fábricas de tecidos e, durante quatro anos, na Companhia Telefônica. Há doze, é barbeiro.
— Considero a cadeira de barbeiro como um pelourinho. Ainda vou escrever um livro: O acanhado mundo do barbeiro. O que apenas vale é o estudo das fisionomias e das almas de cada freguês! — diz Giolo, reclamando e definindo-se.
Desde 1947, faz uns trabalhos para a imprensa taubateana. Tem amigos em cada jornal.
O diretor de A Voz do Vale do Paraíba, jornalista Valdemar Duarte, costuma dizer:
— Do Pedro Giolo sai o que ele trouxer!
Ele traz artigos sobre a história de Taubaté; sobre a imprensa (jornalistas antigos) local; e umas curiosíssimas lendas e contos folclóricos, reunidos sob o título As histórias do padre Fogaça.
Foi em 1955. O barbeiro conhecido relembrava os tempos da molecagem boa, do Teatro João Minhoca. Pegou uns cabelos e uns papéis e fez uma máscara. O "sonhador". Depois, não deu conta mais. A molecada do bairro gostou. E era um trazer de rolhas, lâmpadas, trapos, fibras, velas, arame e caixinhas que não parava!
— Meus primeiros críticos foram e são sempre as crianças, — diz Giolo, recordando.
— Inocentes, sem preconceitos, elas é que me dizem se os bonecos são ruins.
Quando chegou a uns duzentos convidou os amigos Cesidio Imbrogi, Felix Guisard Filho (prefeito) e Gentil de Camarga para ver. A trinca gostou. Os jornais deram uma nota.
De lá para cá, calcula fez cerca de 400 bonecos em argila, uns 70 em madeira e uns 200 calungas. Expôs em Taubaté (1955) e Pindamonhangaba (1955).
Agora sua exposição em São Paulo, no Clubinho dos Artistas, promovida pelo repórter, atrai enorme quantidade de curiosos e críticos. Diariamente.
Um crítico, vendo alguns de seus bonecos místicos, em argila, fez uma leve comparação com o Aleijadinho. Giolo usa a argila crua para algumas figuras de belíssimo porte. Outras vezes queima a terra ou a pinta e enverniza.
— A arte é uma fuga. Qual o artista que está satisfeito em seu meio.
— A técnica e o material são o de menos em arte.
— Dos artistas brasileiros, Portinari, Pancetti e o Silva (José Antonio Silva) é que puxam o cabeçalho. Mas nunca entrei numa exposição.
— Nunca farei reprodução. A vida é sempre a mesma, como dizia Salomão. Mas cada um pode ver cada coisa de maneira diferente.
— Calungas são divindades grosseiras. Por isso, os meus não. Procurei identificar um calunga meu com a figura "babá", protetora das crianças.
Sobre a comparação com Aleijadinho:
— É, mas eu prefiro ser um mosquito vivo, a um elefante morto!
É um barbeiro que não gosta de ser barbeiro: "A profissão judia muito!"
Gosta é de povo, de folclore, dos bonecos e dos calungas. Junto do grupo do Ali Babá (40 figuras, em rolha e vidro), ou da Congada (18 figuras em argila crua), resplandece.
Ou então contando lendas (para a criançada) de cada um dos bonecos: curupira, saci, mula-sem-cabeça, porca dos setes leitões, mão-de-cabelo, caipora, pesadelo e lobisomem.
Um caboclão.