Boas notícias nos esperavam em Barbacena. Mr J. N. Gordon, superintendente-chefe da grande mina inglesa de Morro Velho, tivera a amabilidade de nos mandar algumas mulas, para Juiz de Fora; nossa demora levara a tropa a dirigir-se para o norte, e estávamos com muito medo de perdê-la. Paga-se aqui, por animal, 5$000 por dia, para cada um, incluindo o guia montado. Esses animais, contudo, raramente são bons, jamais seguros, especialmente para quem não tem muita prática de viagem a cavalo; e a comodidade das viagens no Brasil depende, primordialmente, do animal e da sela. Nossa satisfação, portanto, não foi pequena, quando encontramos dez boas bestas, sob os cuidados de Mr Fitzpatrick, cuja única obrigação consistia em cuidar dos animais e dos seus arreios. Na Pérsia, chamaríamos esse dono dos cavalos de Morro Velho de Mirakhor, chefe das estrebarias; aqui ele é um escoteiro ou escudeiro — e posso dizer a seu respeito que não permitiu que seus homens bebessem, e que tudo ocorreu para nós da maneira mais confortável.
Não há viajante que não se queixe da teimosia e rabugice das mulas; não há viajante que não alugue mulas, um mal necessário, pois os cavalos não agüentam fazer longas viagens, nesta parte do Brasil. A besta deve ser compreendida estudando-se o mulato e o eunuco; como esses dois monstros amáveis, ela parece encarar toda a criação com um mesmo e indistinto ódio. A mula não toma afeição ao dono, por melhor que ele a trate; o cavaleiro jamais pode confiar nela, e, de todos os animais, é o mais afetado pelo medo. Seus truques são inúmeros, e a mula parece ter consciência de que sua traição pode sempre levar a melhor em uma luta; os velhos, portanto, preferem os cavalos às mulas. É um engano acreditar-se na resistências desses animais; aqui, pelo menos, cheguei à conclusão de que o sol cedo os cansa e que eles exigem muito alimento, muita água e muito descanso. Durante minhas viagens pelo Brasil, uma mula caiu comigo ao atravessar uma ponte, a despeito da tão proclamada sagacidade muar; outra caiu de lado, prancheou-se, como dizem os brasileiros; uma terceira, aliás, um macho muito perverso, deu um tal pulo, quando me encontrava tranqüilo depois e descuidadamente sentado na sela, que uma hora depois eu ainda estava tonto. E, em resumo, não andei 100 milhas sem que minha cavalgadura beijasse o chão, uma, duas, três vezes. Em um ponto, contudo, aquele quadrúpede ultrapassa o bípede. Olha para o que é mais importante, e acompanha os passos de um irmão bastardo, enquanto o bípede aprende — e, o que é mais curioso, o pai de família lhe ensina tal lição — a fazer o contrário.
Nossa pequena caravana consistia de dois tropeiros, os almocreves de Portugal, os arreeiros da Espanha. Miguel era o tocador e Antônio o guia. Havia três mulas bagageiras, inclusive Fabboux, o bode expiatório, e Estrela, encarnação do mal, sempre disposta a escoicear a mão que a alimentava. Esses animais traziam as velhas cangalhas descritas, pormenorizadamente, por Mr Luccock e pelo príncipe Max, arrumadas por mãos hábeis, de modo que o montão de bagagens heterogêneas estava firme como se tivesse sido cimentado. As cavalgaduras eram Ruão, um burro castanho, Machinho, um burro pardo, Estrela nº 2, uma boa mula branca, e Camundongo, robusto e dócil, já velho e, portanto, toleravelmente seguro. Cada animal tinha uma remonta; nada como as mudanças de montaria, depois de algumas horas sob um sol causticante. Havia três cavalos: Castanho, Alazão e uma velha madrinha chamada Prodígio, sendo sua idade o único prodígio. Todos os animais estavam em boas condições, com bons olhos e bons dentes, mordendo os freios e pondo espuma pela boca, para mostrar sua disposição. Não havia bicos-de-papagaio e poucas pisaduras nas costas. "Lombo limpo, bom arreeiro" — diz o provérbio.
[1867]