Todo caboclo é mariscador, isto é, dedica-se à caça e à pesca, pois estas constituem a base de sua alimentação.
Cada mariscador, todavia, possui as suas embiaras.
Embiara é a caça predileta do caçador. Desta sorte há mariscadores de tartaruga, de veado, de pirarucu etc.
A verdade, porém, é que os caboclos, de regra, possuem mais de uma embiara e são exímios nos segredos cinegéticos. Vivendo à beira do rio e da floresta, conhecem os hábitos dos animais. E sabem a hora propícia para capturá-los. Nunca se apressam porque estão cientes do momento, para eles, mais oportuno.
A caça da tartaruga, a mais fácil de todas, é a viração e faz-se nas praias.
Escondidos na mata, espreitam os caboclos a hora em que as tartarugas saem d'água para desovar na praia. Vêm sempre muitas tartarugas. Correm, então, os caboclos do esconderijo e vão virando-as de barriga para cima. Depois da viração recolhem-nas vivas. É uma prática fácil, sem dúvida, mas prejudicial à procriação da espécie.
Há certas tartaruguinhas terrestres chamadas aperemas; caçam-na com fogo.
Processo igualmente condenável é a pesca por ocasião da piracema. O caboclo não o abandona devido à facilidade.
Piracema é a subida anual de cardumes para a desova. Geralmente a piracema coincide com a época da cheia.
O caboclo apenas com um paneiro ou o matapi, cesto cônico de talas de palmeira, apanha peixe em profusão.
Sem embargo desses recursos fáceis, o mariscador dispõe, entretanto, de técnicas especiais.
Arma, às vezes, um palanque no tronco das árvores, o mutá, e fica à espera da caça ou do peixe. A sua arma é o jaticá, um arpão que serve para fisgar peixes grandes. É usado no arpoamento do pirarucu e do peixe-boi, o cetáceo da Amazônia, donde tiram boa manteiga.
Constroem, para a pesca de peixes menores, os jequis, curiosas armadilhas em forma de funil.
Revelam grande habilidade na feitura das arapucas que elaboram de várias formas: ora como paneiros, ora como gaiolas, ora como cestos, o caminho das águas, o rio, o igarapé e o lago.
O seu cavalo é a canoa, que aí é sugestivamente denominada montaria.
As suas canoas, apresentam vários tipos: a ubá, a igara e a igarité.
Ao remo que serve de leme chamam jacumã e ao remeiro, que o manobra, jacumaúba.
É raro no igapó o carro. O transporte de madeira, às vezes, é feito mediante um triângulo de troncos, a que se dá o nome de jacaré, puxados por bois.
Geralmente os mariscadores trabalham individualmente.
É certo que, segundo nos informaram, ainda persiste o velho costume do putirum, adjutório que revela o espírito de solidariedade dessa população ribeirinha, tão esparsa. Quase sempre faz-se o putirum por ocasião das derrubas, que exigem trabalho coletivo. O caboclo convoca os vizinhos para a ajuda, e efetivado o trabalho, oferece uma festança, com ladainhas, danças e comezainas.
A caça e pesca, tão abundante, não favoreceram o desenvolvimento da agricultura. Costumam plantar feijão nas margens do rio. Quando a cheia é inesperada chamam-na de mata-feijão. Dão também a essas cheias o nome de repiquetes. A pequena lavoura da mandioca está sempre nas imediações da casa. Ao lado dela, o milharal e touceiras de cana. As plantas nativas dispensam maiores atenções para a atividade agrícola, que é incipiente e insignificante.
O caboclo não é lavrador. A sua tarefa típica é a de mariscador.
A terra e as águas dão demais para a manutenção da família.