Neste mundo a verdade sempre aparece. O Mané Pão Doce, que tinha sumido daqui, há tempos, apareceu num estado que dava dó. Coitado! Só pele e osso. Só não. Pele, osso e pereba. Tinha pereba até na cabeça. Mané Pão Doce morou dos lados do Limoeiro. entre o Limoeiro e Olhos d´Água. Ia de manhã à vila na caçamba, e voltava lá para às dez horas, com duas cestas de pão. O pessoal daqui era todo freguês dele. Pois não é que um dia, o Mané tomou chá de sumiço! "O que será, o que foi feito dele!" "Onde andará!" "Vão ver que foi para casa da Lica. Ela mora com o marido lá para as bandas da Estiva. Mané está lá." Zé da Lucinda pegou o lugar de padeiro e ninguém mais falou nisso. Pois o Mané voltou, contando, cada coisa, que só de lembrar dá arrepio.
Quando soube que andava um homem querendo levar gente daqui para o sertão, até sapateou de raiva.
— Foi um maldito desses que me desgraçou. Eu quero tirar um lanho do couro dele, que é para ensinar esse tipo a desgraçar os outros.
— Mas o que foi!
E ele contou:
— Pois não vê que eu ia indo muito bem no meu ranchinho, do lado do Limoeiro...
— É mesmo; depois sumiu, não! E nós sem saber pra onde.
— Sumi. Pois é. Apareceu um amaldiçoado, de que inferno não sei, e pegou a enfiar na minha cabeça que estavam abrindo estrada no sertão...
— A mesma coisa que esse um está falando...
— ... e que estavam precisando de gente. Que pagavam bem; que a companhia garantia tudo; que não era preciso levar nem esteira; e tantas falou e tanto fez, que eu pensei: "A minha Lica já está amparada, o marido é muito bom para ela, e eu, depois que a minha velha morreu, não conto muito com a vida... arre, que leve o diabo! Eu vou." Falei para ele: Eu vou, moço. Fomos. Ah! Pra que! Eu não contava muito com a vida e me contento com pouca coisa. Mas aquilo lá não é vida, é morte. É até pior do que a morte. É um ermo que espanta. Mato fechado, tudo, tanto que é preciso abrir picada com facão e foice. Arranchamos num claro e ficamos trabalhando. Mosquito, febre, calor, isso nem conto. Em qualquer lugar há isso. O pessoal é que não prestava. O patrão tinha uma ganância! figa, canhoto! nem eu que não tenho nada. Ficava no serviço, vigiando. Não dormia, ninguém via o homem comer. Tinha partes com o diabo, eu acho. E, quando a gente parava um pouco, para limpar o suor, ou para beber um gole d'água, lá vinha ele: "Tenho um contrato assinado por vocês. Quem não quiser trabalhar, vai para a cadeia, como vagabundo." Aquilo doía na alma. Trabalhar até não poder mais, e vir um lá gritar na cara da gente: "Vocês são uns vagabundos! Cambada de vagabundos! Não querem trabalhar, vão para a cadeia, seus vagabundos!" E era assim, dia e noite. As compras eram feitas num armazém, na cidade, a légua e meia de distância. Lá, o arroz quirera era vendido a 3$500 o litro; o feijão a 2$000; toicinho a 6$000; riscado à toa, ordinário, só goma, pela hora da morte. Não havia mistura. Estava dando maleita no pessoal. Mas pior que a maleita era ter que comprar no armazém.
— Porque não compravam em outro lugar!
— Com que dinheiro!
— Eles não pagavam empregado!
— Pagavam em vales. E os vales são aceitos só no armazém lá deles. Uma tramóia desgraçada. O que eles querem é trabalhador para trabalhar de graça. No frigir dos ovos é que a gente vê a gordura que fica. Lá não fica nada. A gente gasta o que tem e o que não tem e ainda fica devendo.
— Por que você não veio embora antes?
— Porque não pude. Como eu ia dizendo, aquilo era um inferno e eu não via hora de vencer meu mês, para dar o fora. Nem bem chegou dia 30, pedi para falar com o chefão.
— O que é! — perguntou de mau modo. Ele bem sabia o que eu estava querendo.
— Vim pedir as minhas contas.
— Um momento.
Chamou o guarda-livros e pegaram a fazer contas. Puseram o preço da viagem, a esteira em que eu dormia, lavagem de roupa, conta do armazém, alojamento, e até um sanduichinho de mortadela que comi no caminho. Contando com tudo, ia meu ordenado e eu ainda ficava devendo dois meses de serviço.
— Mas eu não gastei tudo isso!
— Como é que não! Está aqui.
Olhei e vi meus vales assinados.
O que é que eu podia fazer? Nada.
— Querendo ir, é só pagar o que está devendo. Do contrário, somos obrigados a mandar prender o senhor, como ladrão, se tentar sair daqui.
— Eu nem vi mais nada. Tudo rodou em volta de mim. Ladrão! (Fiquei louco de raiva). Ladrão é o senhor. Tudo isso é uma ladroeira. Desgraçada gente!... Estava fora de mim e nem via mais nada. Isto é, via tudo turvo. Sei que me puseram para fora, a pontapés. Acordei, altas horas, com tudo quieto. Mas, quando me mexi, vi o guarda andando na minha direção.
— Vá dormir na sua barraca. O patrão não quer saber de pau-d'água aqui.
— Pau d'água é a mãe dele. Desde essa hora, fiquei vigiado. Um passo que dava para qualquer direção era controlado. Quando falava com algum companheiro, vinha o mestre, ou um engenheiro:
— Não é hora de falar. É hora de trabalhar.
— Cheguei a chorar de tanta humilhação e de tanta raiva. Falava sozinho, resmungando, feito negro velho: "Mané, você é bananeira que já deu cacho. Se você ainda prestasse, metia uma jabuticaba no meio dos olhos desses tipos..." E tocava a picareta no chão. Pudesse eu bater com a picareta na cabeça deles! De noite, rolando na esteira, sem poder dormir, mordia o lençol, mordia a tábua da esteira, mordia meus braços, eu me mordia, que nem cachorro danado. Morresse naquela hora acho que meu lugar era no inferno, de tanta ira que sentia no coração. Mas Deus é grande e me ajudou a fugir. Começaram a aparecer mais descontentes. Uns queriam matar o patrão a foiçada, qualquer dia, no serviço mesmo.
— Não vale a pena. A gente mata, depois ainda tem que ficar na cadeia, por causa dum desgraçado que não vale nada.
— Afinal, um mais esquentado do que os outros, de tanta ojeriza, um dia no serviço lascou a foice no chefe da turma. Foi um corre-corre, um estrupício que só vendo. Levaram o homem preso. No dia do júri, ficou pouca gente no destacamento. Eles chamavam destacamento aquele grupo de gente, acampado para trabalhar. Então resolvemos fugir. Quando já estava tudo sossego, noite alta, pegamos a cochilar, andando de gatinha, de uma esteira para outra.
— O João e o Martins pegam o grandalhão, que ficou naquele canto.
— Hum! (Só um resmungo em resposta).
— O Tião sozinho dá conta do polaco. (Outro resmungo veio da esteira do Tião).
— Sem barulho.
— De certo.
— Saímos como sombras. O coração dava cada pinote! Os guardas eram só dois, é verdade. Os outros, estavam na cidade por causa do júri. Qualquer barulho, vinham os engenheiros e os ajudantes, com armas de fogo. E que eles atiravam, sem dó, qualquer um sabia. Já tinha acontecido uma turma querer fugir, eles balearam uns quatro e ainda mandaram prender os outros. Fomos atacados — declaram na polícia. Tivemos que atirar em defesa. E os coitados que foram presos, presos ficaram. E nós agachados, esperando uma oportunidade. O vigia que tocava ao João e ao Martins sentou numa pedra e acendeu o cigarro. A brasinha guiou os dois. Foram devagarinho, com andar macio de onça, pelo mato. Na última hora, o vigia percebeu qualquer coisa. Levantou alarmado. Antes de puxar o revólver, antes de ficar de pé, já tinha levado uma cacetada no alto da cabeça. Caiu sem nem gemer. Quando olhei (aquilo nunca mais me sai da lembrança, enquanto eu viver), os homens engalfinhados pareciam sombras vivas. Não havia nem grito, nem praga, nem xingo, nem barulho de jeito nenhum, nada. Só gente lutando, como feras. E era uma luta de vida ou de morte. Daí a pouco ouvi alguma coisa e respirei: pegaram a resfolegar como foles, de cansados. Mas os vigias estavam amordaçados e seguros por vinte braços, no chão. Corri para fazer a minha parte. Levei cipó e arame fino e amarrei os vigias, com tanta força que a carne ficou marcada. Não tínhamos outro remédio. Fugimos. No mato, a turma se dispersou. Cada um tomou uma direção. Assim, se dessem com algum rastro, pegariam um ou dois, quando muito. Fiquei devendo os cabelos à companhia. Se eles me pegassem, a estas horas, ó eu na cadeia, por causa de dívida."
— Que venham! Nós liquidamos com os que vierem.
— Aqui eles não virão. Não vê que eles são bobos! Então não hão de calcular que, se vim para cá, já dei o alarme!
Mostrou os braços e as pernas.
— Olhem como estou. Só pereba. Comprar remédios na farmácia deles, era me enterrar mais. Vim por aí, escondido pelos matos. Roupa não tenho. Comida não trouxe. Comi mel, orelha de pau, raiz e fruta, pelo caminho. Do dinheirão que ganhei, nem sombra.
Suspirou.
— Há bem tempo não sei o que é "desdão" para comprar uma pinga. Isso é vida! Vocês não sejam bobos de acompanhar o terço desse homem! Não vão atrás de conversa! Não vão...
(Do romance Água viva)