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Ano VIII - Edição 85
Dezembro de 2005
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O Natal: festa do povo

Guilherme Santos Neves

De todas as festas da cristandade, é o Natal, sem ponta de dúvida, aquela que, através dos tempos, tem concorrido para que se mantenha e propague vultoso contingente de fatos folclóricos.

Não fora a "Noite Feliz" e, por certo, uma série enorme de costumes, folguedos e dramatizações populares já, de há muito, estariam esquecidos e extintos.

Com o Natal, abre-se um ciclo folclórico que se espraia até 20 de janeiro (dia consagrado a São Sebastião) ou, por vezes, até 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias.

Dentro desse ciclo natalino, repetem-se atos e rituais que. por toda a parte, ajudam a conservar as velhas tradições, em todos os recantos do mundo cristão: os presépios, armados desde séculos; as consoadas portuguesas; as ceias, com o indefectível peru de Natal; os sapatos expostos à janela, sob as camas, nas lareiras ou chaminés, à espera dos presentes de Papai Noel, do Père Nicolas francês!, do Saint Nicholas norte-americano; as árvores enfeitadas com bolas, estrelas, luzes coloridas.

Mas lado a lado com esses costumes tradicionais, na época do Natal, ou tomando por ponto de referência o santo acontecimento, no Brasil pululam folguedos, festas e dramatizações várias. São os ternos ou bandeiras de Reis, as folias de Reis, os pastoris, pastorinhas, reisados e lapinhas; são as marujadas, barcas e fandangos; os cucumbis, bailes de congos e ticumbis; o alardo, as cavalhadas, os bumba-meu-boi e tantos outros grupos folclóricos, todos eles com movimentação e vida ativa no ciclo do Natal.

Quando estive em Macei[o (janeiro de 1952), por ocasião da IV Semana Nacional de Folclore, mal tive olhos e ouvidos para ver e ouvir, no Bebedouro e noutros bairros da capital alagoana, a exibição ao mesmo tempo do reisado, do fandango, dos guerreiros, das baianas, dos quilombos, de uma cavalhada. E ainda houve a dramatização dos cabocolinhos e das taieiras — todas comuns ao ciclo natalino do Nordeste. E vi também o entusiasmo e interesse popular, participando e vivendo aquelas belas e tradicionais demonstrações folclóricas.

Acrescente-se a esse impressionante cortejo de manifestações de folclore nacional, aquilo que ocorre aqui no Espírito Santo: as famosas festas dedicadas a São Benedito, com a mais típica e mais popular folgança capixaba (e só capixaba!): a cortada, puxada e fincada do mastro de Bino Santo (ou de São Sebastião), festa pitoresca e bulhenta, sonorizada pelo contagiante baticum das nossas bandas de congos.

Malgrado o desinteresse, o desamparo e — mais do que isso — a má vontade dos poderes públicos, alheios, no Espírito Santo, a essas demonstrações autênticas do nosso povo — má vontade e indiferença que, por vezes, contaminam até o clero — a verdade é que as festas e folguedos folclóricos do ciclo natalino, entre nós (marujada, alardo, bailes de congos, ternos ou bandeiras de Reis, Reis-de-boi, festas do mastro etc.) ainda se mantêm aqui e ali, graças è generosidade do nosso povo simples e da mesma forma, graças ao suave e vivificante espírito do Natal.

Mas é preciso que as autoridades responsáveis pela coletividade capixaba se capacitem de que o Natal deve ser mais festa do pobre que do rico. Não basta iluminar as ruas com guirlandas de lâmpadas coloridas, enfeitar os logradouros públicos, armar presépios nas praças, fazer entoar, até à exaustão, pelos quatro cantos da cidade, os acordes da Noite feliz, do Jingle bells e outras músicas do Natal.

Melhor seria — mil vezes melhor — que se desse apoio aos conjuntos folclóricos do nosso estado, que se incentivassem as suas representações, estendendo assim, à gente humilde das cidades e das vilas, as benesses e as alegrias do Natal. Só assim o Natal seria, realmente, também festa do pobre.

 

(Neves, Guilherme Santos. "O Natal: festa do povo". A Gazeta. Vitória, 25 de dezembro de 1965, suplemento literário, p.1)
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