Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 85
Dezembro de 2005
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Festa da Conceição

Hermógenes Lima Fonseca

Por mais distante que se encontre um barrense nesses primeiros dias de dezembro, tem o seu pensamento voltado para a sua Conceição da Barra, amargando a tristeza de não poder estar presente à festa de sua padroeira e há de exclamar como o gaúcho longe de seus pagos: "Eu antes quero estar morto em Santa Maria da Boca do Monte do que vivo neste diabo de terra".

É quase uma tortura mental, um delírio ante a miragem das ondas ribombando na praia de cor azul celeste do manto de Nossa Senhora, enfeitadas de rendas alvas de espuma que se espraia em leques sobrepostos. Os balsedos que descem o rio, lentos e preguiçosamente. O farfalhar das palmas dos coqueiros à brisa amena das manhãs radiosas e a torre branca da igreja, imponente e soberba, apontando para o céu como o símbolo de fé e esperança, implorando as bênçãos da Virgem Imaculada da Conceição para os piedosos devotos e tantos quantos tiveram plasmados esses sentimentos ao desabrochar da vida nesse magnificente cenário de alegria estonteante, de infância despreocupada correndo na praia, rolando na areia, pescando no rio, apanhando siri, chupando caju, procurando gagirus, tirando pitanga, colhendo cambucás e saboreando mangabas.

Não se encontram dois barrenses que não estalem a língua engolindo seco o sabor das moquecas de robalão, de cangoá dos bagres cheios de ovas na boca. Moqueca de caldo grosso e colorido de urucum com molho de pimenta cheirosa.

E o muchá de dona Mariquinha! Quentinho, saboroso, com amendoim misturado com os primeiros raios de luz daquele sol grande, vermelho com cara de sono que vem surgindo lá nos confins do mar.

8 de dezembro. Não há no mundo repicar de sino mais alegre, nem sacristia mais cheirosa, cheiro de fé, de paramentos engomados e toalhas rendadas, lavadas com patichuli na cacimba do Borges.

O coro de dona Nininha: Dominus... vobiscum... et... cum... spiritu tu... um...

Cânticos de louvores à excelsa padroeira entoam após a eucaristia... há uma santidade nos corações dos fiéis, ninguém é mau, os pensamentos são puros e não abrigam ódios, sentem-se perdoados e por isso perdoam, deslembram-se das rixas, tudo agora é novo, os bálsamos das bênçãos alcançadas nortearão suas vidas, tudo correrá bem, seus desejos serão satisfeitos.

Hosanas. Repicam os sinos, espocam as girândolas...

Agora os batizados, as consagrações, os compadres, as comadres há tanto convidados como prova de afeição para o cumprimento de um dever religioso, um laço de amizade que se firma, de deveres compromissados ante o altar.

Tal é a gente da Barra nesse dia. Assim suspiram tantos barrenses que se encontram distantes, que não puderam ir, que não cumpriram seus planos apesar dos rogos e das promessas. Mas... para o ano, se Nossa Senhora da Conceição nos ajudar...

Consolam-se com esse voto, mas não se esquecem nunca da festa da Conceição em qualquer parte em que se encontre o barrense.

 

(Fonseca, Hermógenes Lima. "Festa da Conceição". A Gazeta. Vitória, 05 de dezembro de 1957)
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