Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

O folclore da jabuticaba

Maurílio Torres

Jabuticaba em Minas, só não virou coisa histórica porque está ficando burguesa (apesar da pretura e da pequenez). Pois não é que a jabuticaba, como se fora reles melancia, virou objeto de comércio no asfalto, vendidas pelos "camelôs fruteiros" em carrocinhas cobertas de lona, no bulício florido das avenidas de Belo Horizonte.

Em contraposição, comprar jabuticaba numa cidade do interior mineiro, vale por um romance. Quando surgem as primeiras, todo mundo foge delas como o diabo foge da cruz: quem é que não sabe que jabuticaba fora de época é mais perigoso do que folha de comigo-ninguém-pode. Em vão os burricos e muares, para tristeza dos respectivos lombos e desaponto dos vendedores, sobem e descem as ladeiras calçadas a pé-de-moleque; ninguém quer saber de jabuticaba, enquanto não chover pesado. Depois, é um Deus nos acuda. Com as primeiras chuvas, as jabuticabeiras, umas árvores pesadonas com aqueles ares sombrios de coisa do século passado, ficam carregadas de bolinhas pretas, tentadoras como a maçã do Paraíso.

O vendedor de jabuticabas, geralmente, sai com o burrico carregado dos dois proverbiais balaiões de vara de bambu, presos cada um num lado da barriga. Por cima, um ramo de jabuticabeira ondulando, uma jabuticaba bem grande espetada...

— Ó moço, tem jaboticaba!

(Ninguém pronuncia "jabu", mas "jabo" mesmo: jaboticaba).

— É de Casa Branca dona.

Uns diálogos assim ficam guardados na lembrança vindo, desde a época da meninice vivida no interior, com toda a mágica influência que exerciam. Jabuticaba de Casa Branca! As jabuticabas daquele lugarejo perdido entre as montanhas de Minas tinham (devem ter ainda) um que todo especial, até um cheiro diferente, que fazia lembrar o cheiro dos pomares bem sortidos, da terra fértil, das fazendas fartas, cheias de sinhá-meninas e gordas pretas-quituteiras.

Além de burricos e balaios, o vendedor de jabuticabas tem uma coisa completamente surrealista: o litro. Jabuticaba não pesa nada, não pode ser vendida aos quilos. É pequena e varia no tamanho para ser vendida por tostão cada. Vendem-na portanto aos litros. Que litros são esses, ninguém sabe. Em geral, é usada uma lata vazia de compota de pêssego, cheia até a boca de jabuticaba, que o dono dos cargueiros retira dos balaios impedindo que uma o outra caia, com os seus dedões compridos e calejados, enquanto o caldo vermelho de azinhavre, que a fruta expele, escorre. Um litro, dois... Com cinco, enche-se um balaio e dá para toda família. A gente espera que, nesta época de inflação, nem a jabuticaba tenha escapado e se assusta quando cobram uns modestos vinte mil réis por um balaio cheio. Isto, no interior, bem entendido. E se, então, se aluga um pé! Sim, senhores, porque jabuticabeira em Minas também é para ser alugada: por cinco ou dez cruzeiros o "inquilino" tem o direito de passar o dia inteiro encarapitado na árvore, e comer até agüentar andar direito. E mesmo aí as frutinhas exercem influência tão diabólica na gulodice do fulano, que ele precisa ser arrastado, senão arrebenta...

Os estudantes da velha Ouro Preto, para dar um exemplo mais corriqueiro, cônscios do sabor diferente do fruto proibido, palmilham (clandestinamente) quintais e hortas da antiga capital de Minas, na época das jabuticabas. Jabuticaba, aí tem um sabor de aventura. Por muitos minutos só se ouve o "toc" da casca grossa furada entre os dentes e a cuspidela do caroço para um lado. Infalível é descoberta da "mamata" pelo dono da casa, que espanta a turma com uns tirozinhos para o ar (jabuticaba, no fim, dá e sobra, de modo que não importa muito) e corridas desembaladas ladeiras abaixo. Amanhã, uma aventura a mais para se comentada na república...

 

[1960]

(Torres, Maurílio. "O folclore da jabuticaba")
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