Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Dezembro 2005 - Ano X - nº 85


Sumário

Festança
Festa da Conceição
Hermógenes Lima Fonseca

O Natal: festa do povo
Guilherme Santos Neves

Natal no Sul
Augusto Meyer

Cancioneiro
Moda dobrada

Gavião Mouro
Augusto Meyer

A macacaria

Imaginário
João Grilo

Não nascem mulas sem cabeça, mas elas podem aparecer...
Hugo Paulo de Oliveira

Deus é grande, me ajudou a fugir
Ruth Guimarães

Colher de Pau
O folclore da jabuticaba
Maurílio Torres

Depoimento de Renato Almeida sobre doces baianos da época de sua meninice (fim do século XIX)

Espinha de peixe
Osvaldo Orico

Oficina
Os mariscadores
Joaquim Ribeiro

Mulas
Richard Burton

Giolo, caboclão-barbeiro: O Aleijadinho de Taubaté
Luiz Ernesto

Palhoça
Da amizade recíproca dos maranhenses e da recepção que fazem a seus amigos
Claude d'Abbeville

A festa da moça nova
Sebastião A. Pinto

O falar do Ilhéu
A. Seixas Neto

Panacéia
8 de dezembro: Nossa Senhora da Conceição
Mariza Lira

Estrela cadente
Osvaldo Orico

Folclore e alergia
Ernesto Mendes

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

A macacaria

Era um home
Que no sertão habitia
Fazia uma grande roça
Entre a mata e a i[lh]a
Aproveitava toda chuva
Que na mata chovia
Mas nunca pôde ser feliz
Que o legume que plantava
Chegava o macaco e comia:

— Meu Deus, não sei o que é que eu faça
Com tanta macacaria;
Mulé, eu vou lhe dar um conselho
Sendo que você queira tomar
Botemo o cavalo na feira
E vamo s'arremediar

— Marido, eu vou lhe dar um conselho
Sendo que você queira tomar
Botemo o cavalo na feira
E vamo s'arremediar

— Marido, eu vou lhe dar um conselho
Sendo que você queira tomar
Botemo o cavalo na roça
E vamo engordar
Adepois dele gordo
Vendemo e vamo s'arretirar

— Meu cavalo 'tava dormindo
No pino da meio dia
Quando ele s'acordou-se
Foi com ela macacaria
Uns de cóc[or]a e outr'assentado
Perguntando a um a outro:
— Tará morto esse danado?

Tinha uma macaquinha
Que sabia dizer missa:
— Ganhemo todos os mato
Tiremo cipó sem preguiça
Nós não pode comer milho
Com fedor dessa carniça

Tinha outro macaquinho
Por nome de Boaventura:
— Ganhemo todos o mato
Tiremo cipó com fartura
Ajuntemo os camarado
E amarremo na cintura

Quando o meu cavalo se viu
Com tanto macaco amarrado
Ajuntou o pé no mundo...
Pai Jacó arrespondeu:
— Meu cavalo russo pombo,
Russo pombo d'alegria
Te dou três ração de milho
Te lavo três vez o dia...
Quanto mais Jacó falava
Mais o cavalo corria

— Que diabo tem esse cavalo
Que inda agora tava manso
E agora está brabo?
Como eu falo tu não me atende
Corre, cavalo diabo

Tinha um macaquinho
Por nome Félix Gome:
— Eu queria estar na mata
Morrendo de sede e fome
Mas não queria ir
Na casa do home...

Tinha outro macaquinho
Por nome de Félix Tomaz
— Chega,meus camarado
Derriemo o corpo p'atrás
Quem vai na casa do home
Morre e não vem cá mais...

Tinha uma macaquinha
Por nome de Juverni:
— Valei-me, Nossa Senhora
Que a casa do home é 'li...

Tinha outra macaquinha
Por nome de Florisbela
— Tá chegado a 'casião
De nós pagar a tabela...

Tinha outra macaquinha
Por nome de Margarida:
— Valei-me, Nossa Senhora
Nós vamo perder a vida

Adonde tinha um macaquinho
Já vinha se cuncunluindo
Pai Jacó olhou p'atrás:
— Ô miseráve, tu inda vem sorrindo?

Meu cavalo quando avistou a casa,
Deu um rincho d'alegria
Saiu o dono da casa
Com toda sua famia
Meteu o pau nos macaco
Matou macaco três dia:
— Pai Jacó você é o dono da família
Tome sua pancada maior

 

Versão colhida em Aracaju, a 19 de junho de 1973. Informante: Pedro Ricardo de Souza, procedente de Simão Dias.

(Em Lima, Jackson da Silva. O folclore em Sergipe; 1. Romanceiro. Rio de Janeiro, Livraria Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.478-480)

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