Diálogo em verso entre o Gavião Mouro e o Zorrilho, em que ressurge o velho tema da fábula clássica, a luta entre a força e a astúcia. Foi recolhido em Santa do Livramento pelo senhor Vitorino Soares Pinto e incluído no Cancioneiro gaúcho, de minha autoria.
Transcrevo a seguir o comentário e o texto poético:
"Havia uma seca bárbara. As várzeas tiniam e a bicharada andava louca de fome. O Gavião Mouro rondava o Zorrilho, mas este só saía à noite, hora em que o gavião ia dormir por não poder enxergar. Um dia, porém, o Zorrilho madrugou na saída, ainda a lusco-fusco, e o Gavião interpelou-o, do alto de um galho seco de corticeira:
Gavião:
Onde vai, senhor Zorrilho,
Em tamanha galopada?
Vai buscar água-de-cheiro
Para a sua namorada?
Zorrilho:
Seu moço das calças brancas
Desculpe minha confiança
Me diga todo o seu nome
Que eu quero ter na lembrança
Gavião:
Eu me chamo Gavião Mouro
Morador no Cerro Travessa
Te como a carne por dentro
Te viro o couro às avessas
Zorrilho:
Há muito cuera largado
Que é pura charla nomás
Comer mi'a carne por dentro
Isto sim, não és capaz!
Gavião:
Te quebro a cana do braço
Te chupo todo o tutano
Te deixo a cabeça oca
Te tiro do desengano
Zorrilho:
Eu me chamo Zorrilho Negro
Da serra do Caverá
Te arreio coxilha arriba
Com relho de enchiqueirar!
Gavião:
Eu fui nascido e criado
Bem longe deste rincão
Te manejo das quatro patas
Te risco o couro a facão!
Zorrilho:
Se é pra haver entrevero
Não vou na lei do gaúcho
Não quero tinir dos ferros
Vou logo queimar cartucho!
Mestre Gavião, com o bico como faca, atirou um golpe no focinho do Zorrilho. Este se quadrou e guspiu ele no zóio. O Gavião, vencido, voltou ao galho seco de cortiça e dom Zorrilho voltou ao seu rancho, a galopito nomás. É a velha história do folclore de todos os povos: a astúcia e a inteligência vencendo a força bruta. Em todo o folclore destes pagos, o sorro, o zorrilho e o lagarto levam uma vantagem bárbara sobre o tigre, o corvo e o gavião."
O gavião mouro pertence à mais bela espécie dos nossos gaviões, batizada por Lineu com o nome mitológico de Harpia; segundo notas apenas à comunicação do senhor Vitorino Soares Pinto, tem asas cinzentas e as penas das pernas são completamente brancas. No Rio Grande do Sul, dá-se o nome de zorrilho ao pequeno carnívoro da família Mustellídeos, do mesmo gênero a que pertence o gambá. Forma, portanto, um perfeito contraste com o adversário, inclusive nos meios de combate. "Queimar cartucho", para ele, é expelir o esguicho fétido com que se defende.
Esta fábula, de sentido clássico e sabor tão gauchesco, está ligada evidentemente ao mesmo tema do Zorrilho que aparece no Cancioneiro guasca; coincidem, aliás, os dois primeiros versos, e na versão de Simões Lopes Neto, o Zorrilho também se apresenta como herói ladino, de fácil resposta, a composição igualmente e dialogada.
Parece-me de grande valor esse documento, publicado aqui em primeira mão e a sair no meu Cancioneiro gaúcho; é a única fábula gaúcha menos incompleta e de expressão mais vigorosa. Impregnada de malícia e realismo campeiro, nas suas alusões deixa transparecer muito do ambiente onde nasceu.