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Tirar o pulso

Antônio Osmar Gomes

O sentido literal da frase "tomar o pulso" se encontra em uma velha prática doméstica, que é a dos médicos, diante de um enfermo que recorre a sua ciência, antes de mais nada lhe "aplicarem o dedo no ponto em que uma artéria assenta sobre um plano ósseo (geralmente escondem a artéria radial) para, pela contagem e exame das pulsações reconhecerem se há febre mais ou menos intensas" (Aulete).

É o sentido exato em que a empregou José de Alencar, no romance Senhora, quando Aurélia, tendo sofrido um acidente de ligeira síncope disse às pessoas que se apinhavam ao sofá, que não era nada, apenas uma tonteira e "o médico que tomava-lhe o pulso", confirmou limitando-se a recomendar além do repouso, o desafogo do vestido.

Em sentido figurado, porém, a expressão tem outros significados, como a de "experimentar, tentar, sondar o ânimo" que o dicionário de Moraes, edição de 1813, registra, abandonando-se neste exemplo: "Tinha Jó tomado a pulso a tudo o que é dor" (Vieira); e nesta outra citação do Castrioto lusitano, de Rafael de Jesus: "tomando os pulsos à inspiração".

No verbete "pulso", Caldas Aulete, edição de 1925, consigna a locução com as acima referidas acepções e mais a de: "investigar as disposições ou do estado de alguém ou de alguma coisa"; e assim também encontramos no dicionário de Laudelino Freire, abonada em Camilo Castelo Branco: "O ser muito namorado não implicava com as demasias da severidade logo que tomou o pulso dos homens e das coisas".

Também com esta significação de "sondar o ânimo ou as disposições de alguém a empregou dom Francisco Manuel de Mello, no Apólogo dialogal quarto", no ano de 1657, intitulado Hospital das letras naquele passo do diálogo entre Bocalino Lipsio e outros, onde este diz aquele: "Hora cure-se desse mal e quando viermos a ver os gregos e latinos lhe tomaremos o pulso. E então segundo virmos, assim faremos".

Emprego idêntico lhe deu José Maria da Silva Paranhos, o visconde do Rio Branco, em sua vigésima terceira carta "Ao amigo ausente", datada da Corte, 17 de maio de 1851 (edição do Instituto Rio Branco, 1953), no trecho em que ele diz: "Pode ser que me engane; porque além do mais falta-me a previsão de um homem assaz experimentado em "tomar o pulso" aos deputados em descobrir nas suas fisionomias gesto e palavras recônditos sentimentos por que, enfim, falta-me o decano os taquígrafos, o estimável Camilo do Rosário Guedes, vítima do flagelo de 1850."

E dando-lhe também o mesmo sentido, dela se serviu no romance Dois metros e cinco, J. M. Cardoso de Oliveira, nesta exclamação de seu impagável herói Marcos Parreira: "Já te tomei o pulso, e agora vou serrar de cima!"

Em A barca de Gleyre, Monteiro Lobato usou da expressão figuradamente como "experimentar, sondar", na carta dirigida da fazenda, 10 de março de 1916, ao seu amigo Rangel, na passagem em que, referindo-se ao vício do cigarro, diz assim: "Tenho cá o Payot — Mas não largo o cigarro. Há tão poucos vícios no mundo — e na roça, então! É quase único. A mim não me faz mal; quando fizer conversaremos. Já uma vez passei dois anos sem fumar, só por capricho — para tomar o pulso à força de vontade".

Maciel Pinheiro tomou-a como frase feita do Linguajar nordestino e assim é que no verbete "pulso" assinala que tomar o pulso é a mesma coisa que "sondar, apalpar o terreno, agir manhosamente, e diz mais que a locução "já lhe tomou o pulso" deve ser entendida como "fez obedecer sem relutância".

Será este último talvez o sentido que a locução tenha também na província da Beira Alta em Portugal, louvando-nos nesta citação de José da Fonseca Lebre: "E o rapaz, já há uns dias, tomou-lhe o pulso, percebem! — a ver se a 'futura' faria vista grossa. E a resposta sei eu que foi pouco satisfatória".

Quanto à citada acepção de "apalpar o terreno" que Maciel Pinheiro empresta à frase em apreço, na língua francesa, quando empregada em sentido figurado, o verbo usado é justamente tater, isto é, "apalpar".

O Dicionário de galicismos do El Pradez registra "tater le pouls", explicação que significa "procurar descobrir de modo indireto os sentimentos, as intenções de alguém", e ilustra a explicação com este exemplo: "Avant de faire la cour á cette feune fille, vous feries bien de tater le pouls á ses parents".

No Larousse do século XX, embora se achem "prendre le pouls" e "tater le pouls" como sendo locuções que têm a significação comum de "complet le nombre de pulsations par minute", todavia, no sentido figurado, está consignada apenas "tater le pouls", significando sondar as intenções, ou "se tater le pouls" o mesmo que "sondar-se a si mesmo, consultar suas forças antes de agir", abonando-se neste verso de Régnier: "Je sonde ma portee et me tate le pouls".

Com igual acepção a encontramos em castelhano no Dicionário de refranes, de Sbarbi, onde está que "tomar-se el pulso a si mesmo" quer dizer "alguém consultar suas próprias forças para ver se pode levar a efeito o que intenta". Também assinala que a expressão "tomar-le el pulso a un negocia" equivale a "tatear e examinar os estado ou disposição em que se encontra, ou as circunstâncias que o caracterizam para saber antecipadamente o plano de conduta a que alguém deve-se ater-se".

Finalmente, no Lexico del lenguage figurado, de Donny, a expressão se acha consignada como sinônimo de "apalpar o terreno", equivalendo na língua inglesa a "to see how the land lies".

 

(Gomes, Antônio Osmar. "Tirar o pulso". O Estado de Minas. Belo Horizonte, 21 de setembro de 1958)
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