Cada vez que vejo pernas por fora das mini-saias, lembro-me das saias nordestinas. Estas ainda serão capítulos de estudiosos como Edison Carneiro, Renato Almeida, Luís da Câmara Cascudo, José Alípio Goulart e outros — capítulos de sociologia, porque pertencem ao folclore, são páginas de nossos costumes, ajudaram a produtividade da mulher das caatingas.
As saias foram subindo e dimuindo à medida que foi baixando o recato feminino o que foi alimentando o direito de a mulher mostrar-se.
No interior, todavia, a emancipação dessa espécie humana ainda não chegou a tanto. As donas usam a saia externa e anáguas. Estas têm bolsos, com a boca presa por alfinetes de fralda. Neles as mulheres carregam dinheiro, documentos, o retrato do santo favorito, bentinhos contra o mau-olhado, rezas para espinhela caída. E, como se não bastasse, os alfinetes também sustentam medalhinhas com as efígies dos protetores.
As saias de dona Fortunata, lá de Vitória de Santo Antão, foram as mais importantes que conheci em toda a minha vida. Valiam milhões. Suas anáguas se tornaram famosas pelo excesso de bolsos. Mulher rica, proprietária de muitas terras, afrontava qualquer um com seu dinheiro, quando levantava a saia. E jamais levantou a saia para não fazer bom negócio...
Assiti a um encontro de dona Fortunata com o coronel Alípio, na farmácia de meu avô. O coronel possuía propriedade que interessava à fazendeira. E esta, assim que o viu, levantou a saia e mostrou um bolso da anágua:
— Eu lhe dou o que tenho aqui...
— Não quero. Você sabe que as terras valem mais do que isso!
O coronel, cheirando o seu rapé e valorizando as próprias terras, aconselhou:
— Baixe a saia, dona Fortunata.
Mas o filho do coronel, que estava perto, achava que o pai devia se desfazer das terras em questão:
— Levante a saia, dona Fortunata, e mostre o que dá pelas terras...
As saias das lavadeiras de beira de rio, cobrindo a posição incômoda em que elas trabalham, são quase que complementos das paisagens ribeirinhas. E é na barra da saia que as lavadeiras acomodam o sabão.
A mulher sertaneja não saberia viver de mini-saia. Precisam das longas para tudo. Suas saias servem para limpar o nariz do filho resfriado, para enxugar as mãos, para cobrir a cabeça de menino quandoo sol está quente demais, servem para aparar casca de vagem, de batata, de cebola, para recolher caroços de milho quando ela prepara comida, servem atpe para abanar fogareiro. E são muito úteis para colher frutas no pomar.
A rendeira acocora-se junto à almofada, movimenta os bilros e prende a ponta da linha na barra da saia.
Nas feiras do Nordeste, muitas vezes, vi senhoras fazendo compras, nas saias.
— Bota aqui uma dúzia de tomates.
Se são famosas as saias espanholas, russas, holandesas, com suas danças típicas, as brasileiras nada lhes ficam a dever. Elas participam dos cocos, dos xotes, baiões, xaxados. Não há forró sem as saias enchendo os terreiros, compondo a coreografia.
Enfim, nem sei se me esqueci de citar alguma outra utilidade que as saias têm...