Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 73
Dezembro de 2004
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O Natal no fim do século XIX

Pedro Noslasco Maciel

A grande amizade que o Juquinha e Serafim alimentavam com dona Maria e Zulmira, sua filha, tinha sido adquirida num dia de Natal, no qual encontraram-se em Fernão Velho.

O pitoresco arrabalde regurgitava de povo. Os trens despejavam centenas de pessoas, e outras tantas surgiam a cavalo e a pé.

Os banhos magníficos atraíam a população da capital, que saía daqui estafada dos trabalhos incessantes, fugindo a poeira, ao calor e à monotonia para refocilar-se nos ares campesinos e nas águas sadias das bicas e açudes.

E nada há mais agradável nem mais delicioso na vida do que essa inocente distração, que nos permitimos uma vez por outra.

As pessoas abastadas e de bom gosto possuem no arrabalde o seu chalé, a sua chácara com pomar e grandes acomodações. Outras alugam casas mais ou menos regulares. Este vai para a casa do amigo ou do compadre; aquele reúne a família, toma o trem, sobraçando a mais pequena, o criado com uma grande cesta, onde vão bebidas e manjares, e ali em Fernão Velho, na mata frondosa, ao ar-livre, em plena liberdade, de toilete caseiras, embalando-se em redes armadas ao tronco das árvores passa o dia mais esplêndido que se pode desejar nesse gênero de amáveis diversões.

A vez primeira em que se viram, o Juquinha e Zulmira, foi nesse memorável dia de Natal, em que Fernão Velho disputava aos outros arrabaldes a glória de hospedar o maior número de habitantes da capital, monopolizando para gáudio de suas colinas cobertas de vegetação espontânea, os olhares magnéticos das mais lindas criaturas que enfloram o lar doméstico na sociedade maceioense. O sexo feio também ali estava bem representado e, como o outro, por gente de todas as classes e condições sociais.

O Pedro Soares e o Leôncio, pândegos eternos e inseparáveis, davam a nota das novidades, e tudo se inventava e executava para que as distrações fossem variadas e tivessem preso sempre o espírito dessa grande massa dispersa na vasta avenida.

Houve pastoris, em que a Rosa Amélia como libertina teve presentes de subido valor; o Souto, fazendo de fúrias do Averno, e arrematando cravos e rosas de modo cabalístico para usar de uma linguagem às vezes tão suja, que o Geraldino protestava em nome do clube dos garapeiros honestos; o professor Ursulino dava enormes gargalhadas, estridentes e sublinhadoras e o Yann, pescando corações, escrevia trioletta bregeiros que o Epifânio Canuto recitava trepado aos bancos, fazendo gestos de um baixo-cômico hilariante.

O Bandolim de Fumaça, atraído pela concorrência, levou para ali a sua função, e ele vestido em trajes reais, com calções e manto de sargelim azul e vermelho, todo estrelado de papel de lata, capacete de papelão tricolor, na frente do qual um espelho circular fingia o diadema daquela majestade de caçoada, filamentos de chita preta fingindo por igual uma cabeleira sui-generis, espada em punho, muito compenetrado de sua missão de divino e santo rei, chamando à ordem o seu secretário de sala mais afamado, mandando que pelejasse, declarando guerra em terra e no mar, dando licença para casar mestre Mateus com Catirina sua nega, e que viesse o boi, e o doutor para curá-lo, e mais o guriabá, a burrinha e o mandu...

Naquela ocasião esquecia o Bandolim a nobreza de sua profissão de meirinho, colega de um dos mais ilustrados oficiais de justiça que o Brasil viu nascer e morrer — o Garcia — jurisconsulto modelo, que fez um código criminal especialíssimo, edição hoje raríssima, código que punha o adultério com cinqüenta palmatoradas e a imersão num tanque d'água até o pescoço, devendo tais tanques serem construidos nas esquinas das ruas públicas.

O Bandolim era, porém, mais prático, e preferia o papel de rei de congo, a essa glória efêmera de criminalista a Garcia. Como rei, o Bandolim voltou de Fernão Velho com as aijabas cheias esperou pelo bonde, que tomou no Bebedouro e veio até Maceió a cochilar metido no seu rico traje de sargelim, sem levar em conta o sorriso mofa dos demais passageiros.

O Garcia, apesar da sua glória e da sua competência levou a vida a carregar autos, a agüentar desaforos de juízes, escrivães, zangões e de toda a gente de foro e morreu esquecido sem que até hoje houvesse quem se lembrasse de erigir uma estátua a esse lafaiete alagoano.

No dia em que se encontraram em Fernão Velho, Zulmira e Juquinha dançaram muito, graças a um pomposo divertimento promovido pelo Hermógenes, que depois foi fiscal geral.

Foi ao som das valsas que o Moreira interpretava voluptuosamente no seu clarinete mágico, que nasceu esse namorico, traição ao pobre Manuel, que tinha o casório contratado.

A música e as valsas tem isso de perigoso: convidam muito, levam os indivíduos insensivelmente às paixões indiscretas.

Após o baile do Hermógenes, Juquinha e Zulmira tornaram-se inseparáveis identificaram-se. O Pedro Soares e o Leôncio perderam esse companheiro para banhos de bica, para as cajuadas tonificantes e as conquistas fáceis...

Dias depois os novos namorados atravessaram para Santa Luzia do Norte, para onde os levou o espírito de curiosade de dona Maria, que queria ver os milagres que ali apareceram. Chegaram às 5 da tarde e desembarcaram no porto de sururá. Subiram a longa e enfadonha ladeira que leva à aquela velha e decaída vila.

Entraram pelo lado sul da igreja do Rosário que estava em festas, penetraram no templo: quem quis, fez a sua oração sincera ou hipocritamente. Ao sair do templo foram assaltados por inúmeros sujeitos uns vestidos de penas e untados de oca, lembrando os primitivos habitantes do Brasil, outros enlameados de preto. Era aquilo um brinquedo tradicional, que renovava os quilombos da serra dos Palmares, célebre república organizada por africanos escravizados em número superior a três mil e que se refugiaram na serra do Barriga, neste estado, onde viveram mais de meio século.

Os caboclos traziam os negros amarrados oferecendo à venda. Juquinha abriu a carteira e deu uma gratificação ao caboclo, agradecendo a mercadoria. Tendo sido abolicionista de coração não queria nem por graça comprar escravizados.

O negro ajoelhando nos pés de seu benfeitor agradeceu e fugiu. Perseguido, foi de novo preso e seu pretenso senhor continuou a oferecê-lo à venda.

Mas os caboclos nesse brinquedo prestam um serviço importantíssimo, porque os negros são ladrões e carregam tudo o que se encontram para o seu mucambo, e os donos, para reavê-los, quer seja móveis, quer sejam animais, tem de pagar caro.

E vivem num eterno batuque, a que chamam de maracatu, soprando em búzios, batendo em cabeças e em couro: espichados. E os caboclos de arco e flecha, a fazerem exercícios os bélicos dentro de seus arraiais limitados por estaca, em cujas pontas alvejam os ossos dos inimigos passados pelas armas e comidos, como troféus da valentia e vitória da tribo.

Os visitantes preferiram seguir imediatamente para o lugar do milagre. Rodearam a igreja e se internaram por um caminho ladeiroso, e em pouco instantes estavam no local procurado.

Era considerável a multidão. Uma jaqueira secular atravessava o caminho com uma de suas grossas raízes. Alguém que teve necessidade de tornar o caminho livre daquele entrave, cortou a raiz e nivelou o terreno. A parte da raiz cortada que ficou do lado oposto à jaqueira, numa ribanceira de cerca de um meio metro de altura, chamou a atenção por verter água. Foi o bastante para que tomasse o povo por milagre esse natural acontecimento, que nada tem de admirável num terreno inteiramente pantanoso como o de que se trata.

O resultado foi que nem Zulmira nem dona Maria conseguiram uma gota do milagre e somente por grande esforço aproximaram-se da raiz.

Não perderam, porém, o tempo. Voltaram à festa, aos quilombos, ao passeio na vasta praça.

O Novaes deu-lhe cômodos, sentaram-se. Tomaram superior gengibirra aqui fabricada e para ali remetida pelo Pedro Veneno, a melhor e verdadeira cerveja nacional. Mais tarde, três pancadas.

No leilão arremataram frutas e frigideiras. Encontraram o Cajazeira, porteiro dos auditórios, gaguejando muito, amável serviçal, providenciando ele e mais o Teixeira Pinto para fazerem a digestão de uma buxada colossal que tinha filado ao Novaes.

De volta a Fernão Velho, Juquinha e Zulmira e dona Maria tomaram o trem para a capital, e vieram proseando durante a viagem. Os carros de primeira classe vieram cheios, abarrotados.

Saltaram em Bebedouro e esperaram pelo bonde em casa do Machado, na Mascote, onde tomaram sorvetes em companhia de caixeiros e estudantes que batiam com as bengalas nas mesas, pedindo conhaque, vinho, ginger álcool e cerveja Pá.

O trajeto de Bebedouro a Maceió foi muito agradável e divertido. Discutia-se em altas vozes sobre todos os assuntos.

No Mutange o Afonso Gonçalves estava com o sítio embandeirado e iluminado a giorno, atacando foguetes.

À mesa sob as mangueiras frondosas do jardim, havia lugares para mais de quarenta pessoas. O Timóteo Machado dançava quadrilha e valsas ao som de uma orquestra pamparra, sendo do Fulco o marcante.

Mais tarde tinha de vir todos com o Macedo para Maceió no bonde caradura, enfeitado de folhas de pitangueira e canela, coisas de festa e de quem tem bom gosto e dinheiro.

Ao chegar nos Martírios o bonde em que vinham Juquinha, Zulmira e dona Maria foi interrompido pela polícia que obrigou alguns passageiros a portar-se bem, pois vinham batendo no lastro do bonde com bengalas e cacete, e cantando cocos e lundus. Uma súcia de bilontras, que vinha cantando o manásumsum ao som de uma harmônica, saltou imediatamente, passou para o outro bonde, voltando assim ao Bebedouro em busca da liberdade que a polícia lhe tolhia na cidade.

A polícia entretanto cumpria o seu dever, porque nada é mais incômodo e vexatório do que aturar-se a malandrice ousada de certos indivíduos sem educação, que nos veículos públicos abusam da tolerância policial e azucrinam os outros passageiros com toda a sorte de deboches e lincenciosas pilhérias.

O Farofa não concordou, porém, com aquela medida, e principiou a censurar a polícia de modo desabrido, como se tivesse ela cometido alguma arbitrariedade.

A questão do Miranda era entretanto por que estava no poder o partido conservador e ele, liberal exaltado, achava mal tudo quanto pertencia ao tal partido, ainda mesmo que fosse uma tão útil e aplaudida medida de ordem pública.

Termina o incidente dos Martírios, o bonde seguiu, o Juquinha e Zulmira saltaram no Livramento, dona Maria e Serafim fizeram o mesmo. Mas em vez de seguirem para casa foram ver o presépio do Barros Lins e do Pedro Maceió, à rua do Comércio, na casa em que o Tertuliano de Menezes tem hoje a sua oficina tipográfica.

Dava-se vivas a mestra, à libertina, ao cordão azul e ao cordão encarnado.

As bancadas eram organizadas como se fossem um circo de cavalinhos.

Havia um berreiro dos diabos. O Tiririca funileiro, o Joventino alfaiate, o Júlio Camaleão, o Joaquim Bringuel e outros batiam nas tábuas e gritavam como desesperados.

O Sampaio Miranda, o João Caetano, o Jacinto Pestisco e o José Leocádio discutiam em altas vozes sobre o drama que a sociedade Pantheon-Alagoana devia levar à cena no próximo sábado e em que o professor Bodá ia fazer uma figura interessante de baixo-cômico de parceria com o Rafael Antunes, que estava prevenido para promover-lhe uma vaia.

Nesse particular estaria ele mal colocado se o professor tomasse o exemplo de Clodoaldo Jove, em Alagoas, o qual disse gagueijando que não admitia vaias, porque aquilo era uma sociedade particular e acompanhou esta frase com um cumprimento de mão fechada e saudação aos presentes com endereço aos seus maiores, isto é, aos que o vaiaram.

No presépio, logo que tomou assento no recinto destinado ao belo sexo, Zulmira chamou a atenção dos espectadores. O Sizenando Pita a quem a velha do presépio, que por sinal era uma menina picante, oferecera um lindo bouquet de flores naturais, retribuíra com uma pelega de cinco mil réis e mandara oferecê-la a Zulmira.

O Chico Teles, o Miguel Taveiros, o Antonio Gil, e outros tendo como orador o Carlos Zanoti, ofereceram à mestra uma larga fita azul celeste com uma dourada inscrição: Honra ao mérito. Após erguerem vivas, a orquestra composta do Tibúrcio Brasil, do João Trajano, do Pedro Advincula e do Pedro Maceió, tocou o hino nacional. Depois tocou polka — Que é a chave? muito em voga neste e saíram as meninas a dançar, cada uma com o seu bouquet. Nessa ocasião o Barros Lins fechou a porta, porque a rapaziada fanhosa, costumava azular para não cair com a changa.

Os entusiastas davam repetidos vivas, cada partido mais cioso das glórias do seu cordão.

O Antônio Luiz, que fazia de filho pródigo, recitou uma poesia de Carlos Rodrigues, publicada no Papagaio e oferecida à menina que simbolizava a América no baile intitulado As quatro partes do mundo.

E assim terminou naquela noite de ano bom e festa presepial.

Nas ruas, porém, havia grande animação, pois a noite enluarada convidava o povo à folia.

O Isaac Balsanufo, redator proprietário da Carapuça, periódico livre que fazia cócegas ao governo e às autoridades, organizou uma cobra. Era um grupo de rapazes andando, um após outro, sempre na mesma direção. A este grupo foram se juntando outros; de sorte que já haviam uns duzentos, formando uma cobra colossal, e pelas voltas e revoltas que davam percorrendo as ruas e virando os becos parecia mesmo uma enorme serpente a estorcer-se no auge do furor.

Tanto bastou para que, no dia seguinte, o chefe da polícia e o delegado, apoiados pelo presidente da província e por outros figurões zurzidos desapiedamente pela Carapuça, inventasse um crime de sedição, dando-lhe a feição geral das condições então reinantes no país com o título de quebra-quilos, manifestação devida à ignorância do povo que opunha-se a execução da lei introdutora do sistema métrico decimal no país.

Abriu-se uma devassa e as prisões realizaram-se em grande escala. Muitos rapazes omitiram-se durante algum tempo e retiraram-se da província, outros não tiveram tempo para tanto, e foram ao xilindró. Destes nada sofreram, além do incômodo e do susto, o Leonardo Novaes, o José Lins e Gogoy. Mas o Isaac passou da cadeia para o quartel da companhia fixa da guarnição, às ordens do capitão Longuinho, comandante, que mandou o Nascimento corneta-mor, cortar-lhe a longa cabelereira preta, que usava inteira, e verificar praça como recruta. E se outros castigos não sofreu, deveu apenas ao direito que lhe assistia de soldado privilegiado, como cadete de 2ª classe, embarcado para o Rio de Janeiro forçadamente.

Foi este o resultado de uma brincadeira simples de rapazes galantes, alheios entanto a qualquer idéia de perturbação de ordem, porém perseguidos pelo ódio dos manda-chuvas da epóca.

As férias de Natal para os rapazes trocistas que não puderam ir ao campo gozar as delícias que ele oferece, foram dedicadas às noites esquentantes do presépio de dona Maria, onde Zulmira não brilhava mais como a madamoiselle travessa de outrora, mas flutuava com mais liberdade como a recatada madame atual.

O presépio de dona Maria ou baile pastoril, como chamam modernamente a esse gênero de diversão, atravessou o mês de janeiro e entrou pelo de fevereiro já próximo ao carnaval. Não havia mais queima de lapinhas, isto fora do tempo do Pestana e do Inácio Mata Verde, quando as meninas choravam, abraçadas na noite de Reis em volta da fogueira em que ardiam as palhas com as quais se armara a lapinha.

Nessa época o presépio rememorava todas as passagens imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento de Jesus. Hoje é apenas uma folia, uma pagodeira, uma especulação. O Dão leva o ano inteiro, aqui em Pernambuco, nas capitais e no centro, a exibir as pernas, as formas apetitosas de uma dúzia de meninas bonitas, à custa das quais ganha aquilo com que se compra os melões.

(Extraído de um romance Traços e trocas, de Pedro Nolasco Maciel, editado em Maceió em 1899)

(Maciel, Pedro Noslasco. "O Natal no fim do século passado". Gazeta de Alagoas. Maceió, 25 de dezembro de 1949)
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