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Tipos populares: Anastácio

Sérgio Milliet

O homenzinho meio encardido entrou no café. Eram 19 horas e copos multicores enchiam as mesas. O homenzinho apregoou seus jornais, vendeu um bilhete de loteria, cumprimentou um freguês, sentou-se e pediu "fine à l'eau!" Olhou as redondezas à procura de uma simpatia e, como eu o observasse sorrindo, entabulou a conversa: "ando com a vida muito entulhada". — É, respondi, a vida é sempre uma complicação. — "Nem tanto, explicou-me o vendedor de jornais, nem tanto. Entulhada, isso sim. Por exemplo, a gente vende revistas, são dezenas de revistas, com isso encho a sacola e, como me canso, em cada café preciso espairecer um pouco. E, você compreende, lá se vai todo o lucro. Fica o entulho. Mas um dia desses eu desentulho a vida".

Não desentulha nem se vai o lucro, pois Anastácio (digamos que assim se chame) não paga coisa alguma. É um tipo popular nos meios intelectuais da cidade pequena, diz "você" aos poetas e a todos conhece intimamente.

Anastácio vende jornais porque perdeu um braço na guerra, nessa Legião Estrangeira que a Suíça aborrece por uma razão muito simples: a Legião lhe arranca anualmente centenas de rapazes ao exército nacional. O suíço é soldado por gosto e tradição e a pátria neutra não lhe exige senão 15 dias por ano de serviço militar. Então ele assenta praça no estrangeiro. Por isso, Anastácio conhece os desertos da África e as capoeiras pérfidas da Indochina. Aos domingos, junta-se a velhos companheiros de memoráveis campanhas e se exercita no clarim. A marcha dos legionários vale, para ele, todas as músicas do mundo. "É do barulho!", proclama orgulhoso. E é mesmo.

Anastácio fala uma língua entremeada de palavras árabes, que ele pronuncia à francesa, e de expressões de gíria militar, que não se entendem facilmente, mas Anastácio tem sua leitura: poetas românticos e novelas policiais. Também já leu Flaubert, que acha chato, e Balzac, um bicho! Gosta de pintura, vai aos museus, porém o que lhe apetece de verdade é a beleza feminina. É de ver-se com que volúpia descreve as beldades encontradas nas ruas e nos cafés, desde as grã-finas até as garçonetes. Não há malícia no que diz, nem grosseria. Nessas alturas o gesto se faz medido e delicado, e tão natural o vocabulário que a mais pudica donzela o ouviria sem corar.

Anastácio sabe agradar sem adulação e não sente o menor embaraço no exercício de sua ingrata tarefa.

A par dos acontecimentos do exterior e das notícias locais, é com ceticismo e bem humorado bom senso que comenta as manchetes escandalosas. "Quem compra peixe do Japão, já vem atomizado..." dirá a propósito da bomba H. Ou, referindo-se à envenenadora de Laudun (quinze pessoas em poucos meses): "Aproveitem a inflação, apliquem em arsênico seus capitais". Por vezes ele me lembra aquele jornaleiro de São Paulo que grutava: "a mulher que vendeu o marido em prestações". Anastácio é, porém, menos vulgar, mesmo porque só freqüenta intelectuais.

Não se faria dele uma caricatura, seria necessário pintá-lo com sutilezas e matizes e, no entanto, à maneira decidida e penetrante de um Lautrec. Ele faz parte do café como o cinzeiro ou o banquinho do bar, como o garçom ou o escritor cabeludo, de cachimbo e foulard. Figura nas crônicas literárias e será célebre um dia, quando se reconstituir para o cinema a vida de algum desses seus amigos atuais.

Anastácio não aceita gorjetas. Prefere um ovo quente, um sanduíche, uma fatia de presunto "para dormir de estômago forrado". Na rua, ignora com a máxima discrição seus companheiros de aperitivo. Não faz piada nem praça de suas intimidades. Sabe colocar-se no seu lugar: "há uma hierarquia social, que diabo".

Esquecia-me de contar que, enquanto se deleita no botequim, Anastácio larga sobre a calçada um pacote de jornais e uma caixinha ao lado. Ao voltar não encontra mais os jornais, porém a caixinha se encheu de níqueis de 20 centavos. "E nunca perdeu dinheiro, Anastácio?" — Oh, não. Às vezes tem selos em vez de níqueis, ou botões. Tudo perfeitamente aproveitável".

(Milliet, Sérgio. "Tipos populares". O Estado de São Paulo, 16 de maio de 1954)
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