Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Dezembro 2004 - nº 73 - Ano VII


Sumário

Festança

Bahia de todos os mistérios

Os bailes pastoris e a influência de Gil Vicente
D. Martins de Oliveira

Festa de Nossa Senhora do Rosário (dos pretos) em Jardim do Seridó
Veríssimo de Melo

Cancioneiro

O reisado de Mussambê (Juazeiro-Bahia)
Carlos Ott

Pitoco
Nhô Bentico - Abílio Victor

Santa Luzia passou por aqui...
Guilherme Santos Neves

Imaginário

O padre sem cuidados, colhida por Sílvio Romero em Sergipe

A árvore de Natal
Figueiredo Pimentel

As lendas
Renato Almeida

Colher de Pau

Culinária Gauchesca — Arroz
Glaucus Saraiva

Do banquete
Nélson Palma Travassos

Alimentação no Brasil
Robert Walsh

Oficina

Da folha de bananeira faz flores
Deise Sabbag

Jangada — entre a reminiscência e a pesquisa etnográfica
Luiz Santa Cruz

Tipos populares: Anastácio
Sérgio Milliet

Palhoça

O Natal dos simples
Antônio Viana

O Natal no fim do século XIX
Pedro Noslasco Maciel

As saias no folclore
Nestor de Holanda

Panacéia

As chuvas chegaram
Wilson de Lima Bastos

Panema
Eduardo Galvão

Com os mendigos ou pedintes
José Jambo da Costa

Veja o que foi publicado em Oficina
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Oficina
Textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Tipos populares: Anastácio

Sérgio Milliet

O homenzinho meio encardido entrou no café. Eram 19 horas e copos multicores enchiam as mesas. O homenzinho apregoou seus jornais, vendeu um bilhete de loteria, cumprimentou um freguês, sentou-se e pediu "fine à l'eau!" Olhou as redondezas à procura de uma simpatia e, como eu o observasse sorrindo, entabulou a conversa: "ando com a vida muito entulhada". — É, respondi, a vida é sempre uma complicação. — "Nem tanto, explicou-me o vendedor de jornais, nem tanto. Entulhada, isso sim. Por exemplo, a gente vende revistas, são dezenas de revistas, com isso encho a sacola e, como me canso, em cada café preciso espairecer um pouco. E, você compreende, lá se vai todo o lucro. Fica o entulho. Mas um dia desses eu desentulho a vida".

Não desentulha nem se vai o lucro, pois Anastácio (digamos que assim se chame) não paga coisa alguma. É um tipo popular nos meios intelectuais da cidade pequena, diz "você" aos poetas e a todos conhece intimamente.

Anastácio vende jornais porque perdeu um braço na guerra, nessa Legião Estrangeira que a Suíça aborrece por uma razão muito simples: a Legião lhe arranca anualmente centenas de rapazes ao exército nacional. O suíço é soldado por gosto e tradição e a pátria neutra não lhe exige senão 15 dias por ano de serviço militar. Então ele assenta praça no estrangeiro. Por isso, Anastácio conhece os desertos da África e as capoeiras pérfidas da Indochina. Aos domingos, junta-se a velhos companheiros de memoráveis campanhas e se exercita no clarim. A marcha dos legionários vale, para ele, todas as músicas do mundo. "É do barulho!", proclama orgulhoso. E é mesmo.

Anastácio fala uma língua entremeada de palavras árabes, que ele pronuncia à francesa, e de expressões de gíria militar, que não se entendem facilmente, mas Anastácio tem sua leitura: poetas românticos e novelas policiais. Também já leu Flaubert, que acha chato, e Balzac, um bicho! Gosta de pintura, vai aos museus, porém o que lhe apetece de verdade é a beleza feminina. É de ver-se com que volúpia descreve as beldades encontradas nas ruas e nos cafés, desde as grã-finas até as garçonetes. Não há malícia no que diz, nem grosseria. Nessas alturas o gesto se faz medido e delicado, e tão natural o vocabulário que a mais pudica donzela o ouviria sem corar.

Anastácio sabe agradar sem adulação e não sente o menor embaraço no exercício de sua ingrata tarefa.

A par dos acontecimentos do exterior e das notícias locais, é com ceticismo e bem humorado bom senso que comenta as manchetes escandalosas. "Quem compra peixe do Japão, já vem atomizado..." dirá a propósito da bomba H. Ou, referindo-se à envenenadora de Laudun (quinze pessoas em poucos meses): "Aproveitem a inflação, apliquem em arsênico seus capitais". Por vezes ele me lembra aquele jornaleiro de São Paulo que grutava: "a mulher que vendeu o marido em prestações". Anastácio é, porém, menos vulgar, mesmo porque só freqüenta intelectuais.

Não se faria dele uma caricatura, seria necessário pintá-lo com sutilezas e matizes e, no entanto, à maneira decidida e penetrante de um Lautrec. Ele faz parte do café como o cinzeiro ou o banquinho do bar, como o garçom ou o escritor cabeludo, de cachimbo e foulard. Figura nas crônicas literárias e será célebre um dia, quando se reconstituir para o cinema a vida de algum desses seus amigos atuais.

Anastácio não aceita gorjetas. Prefere um ovo quente, um sanduíche, uma fatia de presunto "para dormir de estômago forrado". Na rua, ignora com a máxima discrição seus companheiros de aperitivo. Não faz piada nem praça de suas intimidades. Sabe colocar-se no seu lugar: "há uma hierarquia social, que diabo".

Esquecia-me de contar que, enquanto se deleita no botequim, Anastácio larga sobre a calçada um pacote de jornais e uma caixinha ao lado. Ao voltar não encontra mais os jornais, porém a caixinha se encheu de níqueis de 20 centavos. "E nunca perdeu dinheiro, Anastácio?" — Oh, não. Às vezes tem selos em vez de níqueis, ou botões. Tudo perfeitamente aproveitável".

(Milliet, Sérgio. "Tipos populares". O Estado de São Paulo, 16 de maio de 1954)
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