Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Dezembro 2004 - nº 73 - Ano VII


Sumário

Festança

Bahia de todos os mistérios

Os bailes pastoris e a influência de Gil Vicente
D. Martins de Oliveira

Festa de Nossa Senhora do Rosário (dos pretos) em Jardim do Seridó
Veríssimo de Melo

Cancioneiro

O reisado de Mussambê (Juazeiro-Bahia)
Carlos Ott

Pitoco
Nhô Bentico - Abílio Victor

Santa Luzia passou por aqui...
Guilherme Santos Neves

Imaginário

O padre sem cuidados, colhida por Sílvio Romero em Sergipe

A árvore de Natal
Figueiredo Pimentel

As lendas
Renato Almeida

Colher de Pau

Culinária Gauchesca — Arroz
Glaucus Saraiva

Do banquete
Nélson Palma Travassos

Alimentação no Brasil
Robert Walsh

Oficina

Da folha de bananeira faz flores
Deise Sabbag

Jangada — entre a reminiscência e a pesquisa etnográfica
Luiz Santa Cruz

Tipos populares: Anastácio
Sérgio Milliet

Palhoça

O Natal dos simples
Antônio Viana

O Natal no fim do século XIX
Pedro Noslasco Maciel

As saias no folclore
Nestor de Holanda

Panacéia

As chuvas chegaram
Wilson de Lima Bastos

Panema
Eduardo Galvão

Com os mendigos ou pedintes
José Jambo da Costa

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

As lendas

Renato Almeida

Que é a lenda? É a narrativa fantasiosa sobre um fato real. Ao contrário do mito, que é uma estória inteiramente fantástica. Assim, a figura de Rolando se tornou inteiramente lendária, mas Rolando existiu e foi guerreiro. Já Prometeu é inteiramente mítico, mero produto da imaginação.

Essa distinção é exata na prática, porém, muitas lendas contêm traços míticos, de sorte que não raro a diferenciação é complicada e difícil. Também a apresentação de lenda é igual à de um conto e muitos contos possuem um conteúdo lendário. Aliás, mito e lenda, a despeito do seu conteúdo e função, têm sempre a forma de estórias, caracterizados pelo enredo.

Coisas, fatos e figuras crescem tanto na mentalidade popular, que a imaginação os fantasia e os cerca de um halo de mistério ou de fantasmagoria que, conservando embora a sua realidade, aparecem inteiramente deformados, mutilada a história, desvirtuada a existência, distorcida a realidade.

A lenda — já escrevi — é como o limo que enverdece a pedra, nasce não se sabe donde, nem quando, nem como, viceja, dá à coisa bruta a feição rejuvenescida de um aspecto novo, como se fora um renascimento, uma alma florescente e encantada. Muda-se na variedade dos olhos que a vêem, o colorido cambiando nos infinitos reflexos da luz envolvente. Um pedaço inerte da natureza se torna elemento decorativo de esplêndido efeito; ao invés da negrura, que afasta a vista ou dela se subtrai, é agora um verde mágico num florir contínuo. São assim os efeitos da imaginação coletiva dos povos: um ser escondido, uma façanha duvidosa, uma recordação incerta, um tipo encantado, uma explicação difícil têm nos comentários interpretações várias e se lhes vão descobrindo avisos e ensinamentos, glória e esperanças, até a transfiguração na lenda.

Versam sobre todos os assuntos, religiosos, históricos, geográficos, da natureza e do homem, acontecimentos e personagens, entre os quais o diabo, cuja realidade é a encarnação das forças do mal, e têm principalmente sentido etiológico. Sem pretender fazer qualquer classificação, cito apenas os tipos mais comuns, e se pode mesmo falar ainda de lendas de fadas, que são irreais, girando sempre em torno de fatos objetivos, com sentido exemplificativo ou edificante, e de outros tipos imaginários, feiticeiras, duendes e entidades míticas, mas atuantes no plano da realidade humana. Como reconhece Stith Thompson, não há linha divisória que separe as lendas dos mitos e contos. A variedade espantosa da imaginação folk refoge às classificações e esquemas.

Para nós, a lenda é uma emanação de poesia. Para o homem primitivo ou do povo, brota de complexos culturais e se destina, sobretudo, a explicar. A mentalidade que não ultrapassa um certo grau de cultura, como observa Paul Sébillot, se preocupa com objetos que, no céu ou na terra, são capazes de lhe causar, espanto ou temor, forças da natureza, poder de certos homens, prognósticos, presságios, superstições. E assim germina a lenda.

Há sempre duas histórias, a verdadeira e a lendária, sendo que muitas vezes uma se intromete na outra de tal forma que difícil é deslindar, tal a vivacidade da tradição popular.

As nossas lendas históricas começam com o dealbar da vida brasileira. Caramuru e Ramalho, para citar duas figuras a ela incorporadas, de forma tão fantasiada, que, debalde os historiadores forcejam para enquadrá-las na realidade. Diogo Álvares entra na lenda com a explicação do nome Caramuru, que teria sido a exclamação dos índios quando atirou num pássaro, que significa “homem do fogo, filho do trovão”... Essa versão, a sabemos errada, mas é bonita e perdura. Ramalho se confunde com a figura também esfumada do Bacharel de Cananéia, e a lenda se entrelaça ao meio da sua existência.

E quantos personagens mais da história do Brasil vivem nesse clima, arrancadas, por assim dizer, da realidade, para a imaginação do povo. Tive ensejo recentemente de encontrar, numa congada paulista que representava a luta dos mouros e cristãos, o duque de Caxias entre os “pares” de França. As lendas guerreiras são das mais fabulosas talvez, não só pelo sortilégio das batalhas, pela emotividade do heroísmo, como também porque o testemunho dos fatos é menos preciso e se presta ainda mais à fantasia. A nossa história militar não refoge à atmosfera lendária, embora não sejam numerosas as lendas, são comuns seus elementos iluminando figuras e feitos. Osório passou à história como o legendário Herval. Há ainda lendas históricas que, embora não se fixem num acontecimento em si, baseiam-se em condições que foram reais. É o caso do negrinho do pastoreio, lenda da escravidão por um lado, e, pelo outro, retrato da vida campeira gaúcha. E ainda hoje, no Rio Grande do Sul, se acendem velas ao Negrinho, para que sejam encontradas as coisas perdidas.

Muito numerosas as lendas em torno de figuras do povo que mais diretamente o emocionam. São conhecidos os ciclos lendários do Cabeleira, de Antônio Conselheiro, de Lampião, sobre os quais se criam verdadeiras gestas. No plano dos beatos, o padre Cícero e os milagreiros, que o povo canoniza. E há ainda traços lendários em certas figuras, como cantadores. Cita-se um desafio em que o diabo se meteu na figura de Mané do Riachão, violeiro afamado do Nordeste, e um outro em que a peleja foi entre esse cantador e o próprio diabo, que estourou quando aquele gritou pelo nome de Jesus.

Extraordinária a riqueza das lendas indígenas no Brasil, sobretudo as etiológicas, para mostrar como o natural e o sobrenatural, as coisas do céu e da terra nasceram e têm as formas e as funções que possuem. É que os índios, como todos os primitivos, vivem alimentados pela imaginação. Dentre todas, nenhuma mais bela e esclarecedora do que a do aparecimento da noite. Vale contá-la no registo de Couto de Magalhães, de que Ronald de Carvalho nos dá esta formosa versão:

“No princípio não havia noite. Era dia por todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais, e todas as coisas falavam.

Contam que a filha da cobra grande se casara com um moço.

Três servidores fiéis lhes prestavam vassalagem. Um dia, disse-lhes o senhor — ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.

Depois que os criados partiram, ele rogou à mulher que adormecesse em seu regaço amoroso. Mas a filha da cobra grande assim lhe respondeu:

— Ainda não é noite.

Tornou-lhe o jovem: — Não há noite. Somente há dia.

Retrucou-lhe a moça: — A noite está com meu pai. Se queres que eu entre no calor da tua rede, manda buscá-la, no grande rio.

Receberam então os servos a incumbência de trazerem a noite. Logo que chegaram à casa da cobra grande esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, prevenindo-os, porém, de que não o abrissem, sob pena de se perderem todas as coisas do universo.

Dentro da veloz igarité que os levava sobre o rio, onde vinha debruçar-se a ramaria cheirosa dos folhudos nambuís, e onde brincava o reflexo luminoso do firmamento, ouviram os três servos estranho rumor, o coco de tucumã estava cheio de vozes misteriosas: era o ruído intermitente dos grilos, que trilam nas ervas do chão, e dos sapos que, escondidos no jujuco dos igapós, coaxam à sombra das canaranas roliças.

Um deles, mais curioso, propõe que se examinasse a causa daquele contínuo murmúrio, ao que se opuseram, temerosos, os companheiros.

E ainda outra vez mergulharam na corrente os compassados remos, num ritmo igual e monótono, por entre as veias claras da espuma.

Mas o especioso tucumã não lhes saía da imáginação. Que barulho seria aquele?

Quando já haviam remado longamente, não se contiveram mais e, reunindo-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que o selava e abriram o coco de tucumã.

De súbito, anoiteceu nos ares. Em casa a moça disse ao marido:

— Eles soltaram a noite. Vamos esperar a madrugada.

Então, nos matos desertos, os lagartos e as corças começaram a correr e pular, as folhas das árvores se transformaram em pássaros, as onças urraram na espessura dos bosques; e, das coisas que estavam espalhadas pelo rio, revoaram patos e marrecas, e saltaram peixes ágeis e nervosos.

Quando despontou a estrela d’alva, disse ao marido à filha da cobra grande: — Vem rompendo a manhã. Vou dividi-la da noite.

Enrolando um fio, ela exclamou: — Tu serás cojubim. Assim fez ela o cojubim, pintando-o, com tabatinga, a cabeça de branco, e as pernas de vermelho, com urucu. “Cantarás para todo o sempre, quando a aurora vier raiando” ordenou-lhe a índia.

Trançou depois outro fio, sacudindo-lhe um punhado de cinza e falou: “Tu serás inhambu, para cantar nos diversos tempos da noite e de madrugada”.

Daí para cá, todos os pássaros cantaram nas suas horas e no arrebol matinal, para alegrar o nascer do dia.

Quando os servos tornam, queixou-se o moço:

— Não fostes fiéis. Abristes o caroço de tucumã, e soltaste a noite e as coisas todas se perderam.

E os servos, mudados em macacos, treparam pelos galhos do arvoredo”.

As lendas, que explicam o aparecimento dos vegetais, contêm, muitas delas, um elemento constante, alguém foi sepultado em dado lugar e do fundo da cova brotou a planta. Assim a mandioca; germinada no túmulo de Mani, filha de uma índia virgem; assim a manga de Itamaracá, que veio de uma árvore plantada por um padre no túmulo da mulher que muito amara e com que não se pôde casar por oposição da família; assim o guaraná, que nasceu dos olhos de um indiozinho maué, morto por Jurupari e transformado em serpente.

Possuem as lendas, como todos os fatos folclóricos, um sem número de variantes, como a que diz que foi o índio Sumé, que se confunde com São Tomé, quem deu aos homens não só a mandioca como o mate, outras raízes e ervas. E essa lenda tem ainda outros aspectos, inclusive o fato do santo ter deixado na rocha a marca de seus pés e mais vestígios de sua passagem por entre os índios.

Uma outra lenda, cheia de ingenuidade, explica porque se tira da cana o açúcar e cachaça:

“Andava Nosso Senhor pelo mundo e certo dia, morto de fome e de sede, dia de calor bravo, sentou-se em baixo de um canavial para repousar. Descansou, chupou uns gomos de cana, desalterou-se e, ao sair, abençoou as canas, para que dessem aos homens um alimento bom e doce. E assim delas se tira o açúcar.

Acontece que, nesse mesmo dia, o diabo saiu das caldeiras de Pedro Botelho com os chifres e o rabo pegando fogo. Deu no mesmo canavial, onde se espojou. As canas lhe atiraram pêlos e ele pulou com uma coceira danada. Chupou um gomo de cana. O caldo estava azedo, caiu-lhe no goto e lhe queimou as goelas. Ficou uma fera e amaldiçoou a cana, dizendo que dela os homens fariam uma bebida ardente como o fogo do inferno. Daí a cachaça.”

Primitivamente a palavra lenda se aplicou às narrativas das vidas de santos. Por isso o livro de Jacques Voragine (Bispo de Gênova, século XIII) se chama a Lenda dourada. No entanto, mesmo nesses relatos, ainda que real a existência dos santos, se podem notar traços lendários vindos daquele calor da imaginação e daquele ímpeto emocional com que foram compostos. Muitos aparecimentos de imagens, como entre nós as de Bom Jesus de Iguape e Nossa Senhora Aparecida, são fatos documentados em todas as suas circunstâncias, mas ao derredor se mesclam elementos imaginários e surgem lendas.

Outras vezes, porém, a lenda religiosa se tece de forma mais sutil, identificações com figuras de santos, como o caso do índio Sumé, ou pela simples fantasia popular, que explica a flor do maracujá ser roxa e ter na corola os cravos e os espinhos da coroa de Cristo porque ele a teria recebido debaixo de um pé de maracujá... Acontece ainda ser o traço religioso apenas edificante ou mera intromissão para realçar a figura do herói: São Gabriel recebendo Rolando no céu.

Há lendas universais, que estão em vários folclores, como a do dilúvio. No Brasil, aparece na estória de Tamandaré. José de Alencar, que de certo modo nela se inspirou para a cena final do Guarani, assim relata em página desse romance:

“Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As águas caíram e começaram a cobrir toda a terra. Os homens subiram ao alto dos montes; um só ficou na várzea com sua esposa.

Era Tamandaré; forte entre fortes, sabia mais que todos. O Senhor falava-lhe de noite; e de dia ele ensinava aos filhos da tribo o que aprendia do céu.

Quando todos subiam aos montes, ele disse:

— Ficai comigo, fazei como eu, e deixai que venha a água.

Os outros não o escutaram; e foram para o alto, e deixaram-no só na várzea com sua companheira, que não o abandonou.

Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subiu com ela ao olho da palmeira; aí esperou que a água viesse e passasse; a palmeira dava frutos que os alimentavam.

A água veio, subiu e cresceu; o sol mergulhou e surgiu uma, duas e três vezes. A terra desapareceu; a árvore desapareceu; a montanha desapareceu.

A água tocou o céu e o Senhor mandou, então, que parasse. O sol olhando só viu céu e água, entre a água e o céu, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.

A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; arrancando a palmeira, subiu com ela; subiu acima do vale, acima da árvore; acima da montanha.

Todos morreram. A água tocou o céu três sóis com três noites; depois baixou; baixou até que descobriu a terra.

Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da várzea; e ouviu a avezinha do céu, o guanumbi, que batia asas.

Desceu com a companheira, e povoou a terra!”

Vários mestres do folclore têm estudado e procurado sistematizar os motivos que presidem a formação das lendas, como os temas se associam ou dissociam, convergem ou se desagregam, como Van Gennep, em La Formation des Légendes, como já afirmei, o estado fluido da epopéia, de que falaram os Irmãos Grimm, não deve ser entendido poeticamente, mas como o resultado do encontro de folkways e mores que criam excitações coletivas. Muito curiosa é a similitude, o dilúvio é uma punição pela degeneração de costumes, salvam-se os animais e uma família, para repovoar a terra depois que baixem as águas. Noé e Tamandaré. Vimos como os vegetais nascendo da terra resultam da transformação de pessoas enterradas. E as lendas das imagens encontradas que persistem em ficar no lugar, na cor, nas condições em que foram achadas. E para não falar em variantes, conhecidas em todos os fenômenos folclóricos, como o do espanto pelo fogo causado com o disparo da arma de Diogo Álvares e o da labareda que Anhangüera produziu incendiando álcool, classificada, por Joaquim Ribeiro, como exemplo da individualização e desinvidualização do tema, dentro dos princípios de Van Gennep para a formação das lendas.

Sem o sentido normativo do mito, a lenda é a imaginação da história. Resulta muitas vezes da sedimentação de idéias, sensações e emoções. Freqüentemente encontramos numa só figura traços gerais de muitas outras, desde que sirvam para configurar o tipo que simboliza. O herói passa a ser uma síntese. Antônio Conselheiro é o beato; Lampião, o cangaceiro; Padre Cícero, o santo. E há também a zoomorfização lendária, nas gestas dos animais, em que se exaltam não só sua valentia indomável como ainda suas condições rabelaisianas, como o Boi-Espácio ou aquela pulga de uma chula de palhaço de folia de Reis, de cujas pernas se fez vai-e-vem de locomotiva, de cuja orelha uma sela e assim por diante...

O encantamento dos lugares, dos vegetais, dos animais, abençoados ou malditos, está sempre ligado a um fato ou a uma crendice, podendo aquele chegar muito diluído à imaginação, como fiapos da realidade, dinamizar-se na formação lendária, como empréstimos e reinterpretações.

Por fim é preciso considerar que, na alma primitiva ou popular, é muito comum a crença em coisas fantásticas-lendárias por si — tomando-as como se fossem reais, e assim novas lendas germinam em seu derredor.

(Almeida, Renato. Vivência e projeção do folclore. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1971, p.147-153)
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