Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 73
Dezembro de 2004
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O padre sem cuidados

(colhida por Sílvio Romero em Sergipe)

Ilustração de Marcos Jardim Havia um padre que nunca tinha tido na sua vida um cuidado. Nada o preocupava, a ponto dele ter escrito em sua porta o seguinte: “Aqui mora o padre sem cuidados”. O rei, sabendo disto, ficou muito admirado e disse que queria saber se era verdade o que aquele padre tinha escrito em sua porta. Mandou-o chamar, e logo que ele chegou e perguntou qual o fim daquele chamado, disse-lhe o rei que era saber se com efeito ele nunca tinha tido em sua vida cuidados. Disse-lhe o padre que na verdade não havia coisa alguma que o tivesse preocupado, que passava sua vida sem ter cuidados. Então disse-lhe o rei:

— Quero que daqui a três dias o senhor venha me responder, sob pena de morte, a três perguntas que vou lhe fazer.

Despediu-se o padre e saiu do palácio já todo cheio de cuidados. Chegou em casa só pensando na sentença dada pelo rei. Veio o jantar, mas ele não quis comer, tão preocupado estava, e deitou-se em uma rede muito pensativo.

No outro dia ainda não quis almoçar, o que vendo o criado, perguntou-lhe a razão por que ele estava tão triste e sem querer comer. Responde-lhe o padre:

— Ah, criado, é que eu estou cheio de cuidados. O rei mandou-me chamar e disse-me que, sob pena de morte, eu hei de ir responder a três perguntas que ele vai me fazer. Isto me tem dado muito que pensar, pois não sei mesmo o que hei de dizer.

O criado vendo o vexame com que estava o padre, disse-lhe:

— Não tem nada, se v. reverendíssima quer, eu vou em seu lugar responder às perguntas do rei.

O padre não acreditou nem quis aceitar a proposta do criado, mas este replicou dizendo que o padre lhe desse sua batina e que podia ficar descansado, que ele prometia desempenhar bem o seu papel. No dia designado pelo rei, o criado rapou bem a barba e o bigode, abriu uma coroa, vestiu a batina do padre e foi para a casa do rei. Este mandou-o sentar-se, e na presença de toda a corte fez-lhe a seguinte pergunta:

— Diga-me quantos cestos de areia tem ali naquele monte?

O padre sem cuidados levantou-se, olhou para o monte designado pelo rei e disse:

— Ora, rei meu senhor, é isto? Saberá vossa real majestade que ali tem um cesto de areia.

Disse-lhe o rei:

— Um só, como assim?

Tornou o padre:

— Vossa real majestade mande fazer um cesto muito grande, que abranja todo o monte, e eis aí o que digo.

Aí todas as pessoas presentes bateram muita palma e o rei ficou muito satisfeito. Depois fez-lhe a segunda pergunta, que foi a seguinte:

— Diga-me quantas estrelas tem no céu?

O padre deu umas voltas pela sala e disse:

— No céu há tantos milhões de milhões de estrelas.

E deu uma soma muito grande. O rei, que também não sabia, concordou com que o padre disse. A terceira pergunta do rei foi:

— Quero que me diga o que é que eu estou aqui pensando?

Vira-se o padre para, ele e diz:

— Vossa real majestade pensa que está falando com o padre sem cuidados, mas está falando é com o criado.

(Romero, Sílvio. Contos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954, p.290-292. Coleção Documentos Brasileiros, 3)
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