Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 73
Dezembro de 2004
Artigos deste mês em
Colher de Pau
Culinária Gauchesca — Arroz, por Glaucus Saraiva

Do banquete, por Nélson Palma Travassos

Alimentação no Brasil, por Robert Walsh



Veja também

Realejo

Rádio Realejo

Como vovó dizia

No Estradão

Amigos da Jangada
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Do banquete

Nélson Palma Travassos

O fato socialmente mais importante de uma cidade era um banquete. Com ele festejavam os visitantes ilustres, os congraçamentos políticos, as grandes vitórias eleitorais. Era um ato de suma relevância, ao qual no geral só compareciam homens e despertava intensa curiosidade entre as mulheres, porque naquela vida toda girada dentro da família, o banquete escapava desta órbita doméstica, passando assim a ser uma coisa nova, diferente. Como era função rara, para nós meninos que tínhamos dele conhecimento pela primeira vez, representava um ato quase misterioso. Era um espetáculo inédito, muito falado, que marcava época, passava a ser um ponto de referência na história do lugar.

Os preparativos para sua realização demandavam tempo e ao contrário do que se passava em casa, onde a mulher é quem se incumbia da comida, o banquete se tornava mais estranho, para as crianças, porque organizado por homens. Era meu pai e os pais de meus amigos os que orientavam a festa sem a mamãe e a mãe deles. Era visível na cara de papai um certo ar superior de independência e na de mamãe um traço negro de despeitado desdém. Nas semanas que o antecediam não se falava noutra coisa. Comentava-se a ornamentação toda feita com cordéis de bandeirinhas verdes e amarelas confeccionadas com papel de seda cruzando o forro do salão da Sociedade Dante Alighieri ou da loja maçônica, ou do Hotel Liner, trabalho altamente artístico, executado pelo Tatão, decorador de grandes merecimentos a quem incumbia também os enfeites dos andores das procissões e das construções das barraquinhas das festas religiosas. Técnico exclusivamente dedicado à sua arte, era o único que possuía, comprado nunca soubemos onde, maços de preguinhos pequenininhos, que nos deixavam espantados, sem sabermos como e que podiam ser fabricados assim tão pequeninos.

A grandiosidade da festa impregnava o ar, com o fato de se mandar buscar em São Paulo cozinheiros de remarcada celebridade, peritos em cozinhar à francesa.

Certa vez um desses homens famosos ofereceu num banquete um prato de abertura chamado maionese, iguaria estranha confeccionada com ovos crus (que horror!) e legumes exóticos. Era um destes quitutes extravagantes usados em Paris, certamente em orgias com mulheres à toa. E o pior, o mais revoltante, foi o segredo com que o mestre cuca, cercou a confecção do manjar. Pernóstico, na hora de prepará-lo exigiu ficar sozinho na cozinha! Não admitiu nenhuma das ajudantes locais junto de si. Só um negrinho que veio com ele. Dona Querência ficou furiosa, porque tinha ido pessoalmente oferecer-lhe sua cozinheira para ajudar, mas na realidade, e toda gente sabia, só para espionar, tornando-a detentora da precedência da receita secreta. Golpe de estado bem maquinado, mas que falhou!

Se o banquete despertava melindres antes da sua realização, era de ver o prazer satânico com que as comadres o comentavam depois, transformando o seu êxito em fonte de mexericos:

— Então comadre! o que o compadre contou do banquete?

— Ora o que contou! Lá está de cama, vomitando sem parar. Também não repara no que come! Estas novidades de Paris, que ninguém sabe o que são... Imagine: ovos crus! Vai ver que até deram para ele perdiz podre, e ele comeu!

— Podre!!??..

— Pois é. Você não sabia que em Paris eles comem perdiz podre todo dia?

— Que coisa horrorosa comadre! — e já com uma pontinha de curiosidade profissional — Como é que se prepara isso?

— Eu não sei bem. Ouvi dizer que eles matam a perdiz e deixam pendurada durante quinze dias. Quando as penas começam a cair refogam com bastante tempero, depois assam no forno brando e comem. Eles chamam de “fezandê”, mas é podre mesmo.

Enquanto isso o compadre estirado na cama, esverdeado e suando frio, curtia tremenda ressaca por misturar vinho do porto Adriano Ramos Pinto com vinho tinto, mais licor, conhaque e champanhe...

Nada melhor para ilustrar um destes festins, do que a transcrição do menu, com que Santa Rita do Passa Quatro homenageou, a quatro de maio de 1904, o senhor dom José Lourenço, bispo do Amazonas, que visitava a cidade. Serviu este ágape para harmonizar a situação política do lugar e por isso foi festa de arromba:

Potage

“Canja” à la brésilienne

Entrées

Pigeons à la Sainte Menehould
Poulets aux petits’pois
Vol’au’vent d’écrevises
Pommes de terre frites

Rôtis

Roast’Beef
Dinde farcie
Cochon de lait à la broche

Entrements

Ouves, patés de foje gras, croquettes

Legumes

Asperges à la crême, haricots à l’huile
tomates farcies. Palmitos

Dessert

Petits’fours, macedoine de fruits
fromage à la crême, confitures
Fruits de la saison

Vins

Caldas, Caju, Chambertin, Porto
Madêre, Lambrusco, Champagne

Digna de atenção a relação dos vinhos.

Não posso atinar com o critério seletivo do organizador do banquete: Caldas ao lado de Chambertin! E este vinho de Caju, certamente cearense, o que fazia em Santa Rita? Hoje creio impossível lá encontrá-lo! Eis aí um caso de comércio talvez fanado. E aquele Lambrusco, tinto e espumante como devia pôr a fermentar aquela comesaina pesada e variada que ia do leitão ao peru com estações pelo rosbife, galinha, pombo e ligeiros vol-au-vent de camarão de lata?

Outra razão do interesse dos banquetes era a redação francesa dos cardápios. Sabiam francês no geral, apenas as mocinhas que com a facilidade da estrada de ferro iam estudar em Campinas, Jundiaí e São Paulo. Daí o pouco caso com que as senhoras de respeito se referiam à arte culinária dos cozinheiros de banquete:

— Tudo fita comadre! Por exemplo, cochon de lait à la broche, puro leitão assado, que segundo eu soube, nem estava pururuca.

Assim se derruía, por despeito, o prestígio do banquete, o que não impedia de, num próximo almoço caseiro de aniversário, chamar-se a atenção das visitas, com um sorriso de malícia:

— Que tal esta galinha ensopada dr. Epifânio? Igual ao poulet aux petits pois do banquete...

— Muito melhor excelentíssima senhora, muito melhor! — exclamava o dr. Epifânio, arregalando os olhos, com o guardanapo entalado ao redor do pescoço, como se fosse toalha de barbeiro.

O banquete era o coroamento supremo dos atos públicos. Às vezes, variava de nome. Surgia com o epíteto de ceias, depois dos bailes. Aí surgia, sempre como prato de entrada, a canja, tradição que vinha do império, pois dizia-se que dom Pedro a tomava nos entreatos da ópera. Quando realizado com menor aparato, a confecção do banquete era dirigida por senhoras da sociedade local. Servia aí então de pasto para a maledicência das que não eram convidadas a cooperar.

— Imaginem vocês, a Miguelina é quem vai dirigir a cozinha do banquete! Não entende nada. Por que não confessa logo, que é a Sinhana que vai fazer tudo?...

Ou então:

— Tome cuidado Eufrázio. Na casa do capitão major o arroz é sempre duro. Como é a Marianinha que vai dirigir o banquete não coma arroz que lhe faz mal para o estômago.

Outro prato indefectível em banquete era o arroz de forno. Não se compreendia que ele ali fosse apresentado de outra maneira, isto é, sem a cobertura de queijo ralado, enfeitado com carreirinhas de ovos cortados em fatias, intercalados de azeitonas.

O terrível nestas solenidades gastronômicas eram os discursos, quilométricos, repolhudos, imaginosos. Era moda falar difícil e adjetivar à Rui, quer dizer, aos punhados, com citações latinas de entremeio. Para obtenção de palmas da colônia italiana nos jantares patrióticos bastava citar versos da Divina comédia. Recitava-se, fazia-se uma pausa e deitava-se uma olhada para a colônia. Era infalível; palmas e brados dos mais extrovertidos e libados estrugiam:

— Bravo! Bravíssimo!

Havia naquelas festas um sabor que creio ter desaparecido do mundo atual, onde é de praxe vestir-se bem todo dia ou não se vestir com luxo especial para cerimônia nenhuma. Isso porque, naquele viver fechado dentro da família, os pais embora andassem distantes dos filhos pelo dever imperioso da austeridade, eram figuras familiares na simplicidade da postura. Estávamos habituados à sua roupa de todo dia e os conhecíamos nos seus mínimos tiques, hábitos e fraquezas domésticas.

Quando havia uma festa, entretanto, surgia do quarto de vestir um senhor cerimonioso, escarolado, aparatoso na indumentária, decorativo no porte, que ignorávamos, e isso nos levava a crer que a festa fosse um ato transcendental, que exigia aquela atitude artificial provavelmente inerente aos homens de vida superior, talhados para os grandes feitos da história. Pasmávamos ante aquela figura desconhecida e conjeturávamos o quanto de responsabilidade havia naquele ato de “ir ao banquete”.

Ficávamos mesmo matutando qual seria a verdadeira personalidade de nosso pai: a familiar, cotidiana, simples, ou aquela importante, séria, convencional, que surgia vestida para a festa. Talvez fosse a última, pois sempre se faz um alto conceito de nosso pai.

A vida simples tinha destes encantos.

(Travassos, Nélson Palma. Quando eu era menino... São Paulo, Edart Livraria Editora, 1960, p.223-230)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005