O povo, por simpatia ou temor, por fanatismo, devoção ou sei lá o que, costuma atribuir a certos santos da corte celestial, poderes miraculosos que abrandam tempestades, cortam doenças, curam ou fecham o corpo, favorecem uniões e casórios, defendem a casa ou o roçado, evitam perigos, facilitam o encontro de coisas perdidas, garantem a salvação eterna e mil outros fins possíveis e impossíveis.
A fila desses padroeiros é infinita: Santa Clara e Santa Bárbara, São Jerônimo e São Romão, São Pedro e São Paulo, São João e Santo Antônio, o Santo Anjo da Guarda, São Longuinho e Santo Onofre, São Bento e São Gonçalo, Santa Iria e São Brás, a Santíssima Trindade, São Cosme e São Damião, o Padre Nosso Pequenino...
Contra os males dos olhos, nossa advogada é Santa Luzia. Nossa e de muita gente, daqui e dalém mar: pelo menos, os portugueses, os espanhóis e os italianos a têm na conta de protetora contra as doenças da vista. Conheço esta quadra castelhana que comprova tal devoção na Andaluzia:
Porqué me diste vista
Santa Luzia
Si no veo lo que quiero
Todos los dias?
(Cuentos e poesias andaluces. Fernan Cabalero, 1887, p.154)
Para o povo, esta santa foi quem lhe concedeu a graça de ver e, por conseguinte, deve zelar pelos olhos e ter sobre eles altos e desmedidos poderes. Assim como os preserva e cura, pode arrancá-los até!
Tal o que se depreende desta trova lusitana cheinha de cruel egoísmo feminino:
Lindos olhos tem Antônio
Santa Luzia, guardai-lhos
Se não hão de ser pra mim
Santa Luzia, tirai-lhos!
(Cantares do Minho. Pires de Lima, 1937)
Mas, não é de quadrinhas populares que aqui viso tratar, como bem se vê da epígrafe: Santa Luzia passou por aqui...
Duvido que ignore alguém esta velhíssima e infalível oração para tirar o cisco dos olhos — conhecida, com certeza, em todos os recantos do Brasil.
Amadeu Amaral, nas suas Tradições populares — livro que é um excelente e precioso temário do nosso folclore — transcreve as seguintes variantes do ensalmo. Esta, recolhida em São Paulo:
Santa Luzia passou por aqui
No seu cavalinho comendo capim
Perna de banco
Nariz de capim
(ou de funi, funil)
E a outra, corrente em Santos:
Santa Luzia
...
Sangue de Cristo caiu nos meus olhos
Não me fez mal
Entre a gente simples da terra capixaba, consegui colher algumas versões da oração à Santa Luzia. Uma delas, de Manguinhos, reza assim:
Santa Luzia andou por aqui
Com seu cavalinho comendo capim
Perguntei se queria vinho
Disse que não
Perguntei se queria pão
Disse que sim
São Lourenço
Tirai o cisco dos meus olhos
Com a ponta do meu lenço
Como se vê, na reza se intromete outro santo — São Lourenço — que, a meu ver, não tem nada com o peixe. Já disse eu algures (A Tribuna, de 18 de abril de 1943) que o encaixe de São Lourenço na oração deve ter sido apenas por força da rima: Lenço / Lourenço.
Em Araçatiba, outra versão — sem São Lourenço, porém lá o seu tanto hermética, diz assim:
Santa Luzia passou por aqui
...
Diz que pedra, diz que não
Pedra de sal, água do mar
Tira este cisco, botai no cisqueiro