Em fins de outubro de 1956 fiz uma viagem de estudos folclóricos com meus alunos do 2º ano do curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. Além do material bastante amplo recolhido sobre a pescaria no rio São Francisco, que pretendo publicar em outro lugar, pude assistir a um reisado e tomar nota da maioria dos versos a luz de um fifó, desde 7:30 até 11:00 horas da noite. O que nos faltou foi um gravador para trazer igualmente para casa as melodias singelas, mas bem harmoniosas do sertanejo. Mesmo assim os resultados da viagem foram plenamente satisfatórios, levando em consideração que só pudemos demorar quatro dias em Juazeiro.
Queremos, pois, aproveitar este ensejo para agradecer às pessoas que nos ajudaram a realizar essa viagem e dar oportunidade aos alunos de aprender a fazer pesquisas de campo. Em primeiro lugar nos penhorou o magnífico reitor da Universidade da Bahia, dr. Edgar Santos, contribuindo com 12 mil cruzeiros para as despesas da viagem e a aquisição de material folclórico para a coleção da cadeira de Etnologia. Ao engenheiro Nerberto Paes, m. d. diretor da Leste Brasileiro, devemos a viagem gratuita num dormitório confortável. O prefeito de Juazeiro, o sr. José Padilha, ofereceu-nos hospedagem gratuita. O diretor da Viação Baiana do São Francisco, engenheiro Ari Ornellas pôs à nossa disposição dois informantes preciosos, o prático da Navegação Baiana, o sr. Benevides Antônio de Souza e o marinheiro, o sr. Messias José Martins. Igualmente devemos muitos favores ao engenheiro Alaor Siqueira, da Comissão do Vale do São Francisco que tornou possível uma excursão à Enclusa do Sobradinho. A todos ficamos muito agradecidos e só lamentamos não poder ficar mais alguns dias, pois, quando tivemos de partir, estava preparado o terreno para uma pesquisa etnológica e sociológica mais ampla da área de Juazeiro.
Entre o material folclórico recolhido, quero apresentar aqui apenas alguma coisa da poesia popular: o reisado de Mussambê.
Mussambê é um dos bairros mais pobres de Juazeiro, onde moram de preferência os carregadores, uma classe bastante numerosa, devido à importância econômica bem grande do rio São Francisco na vida do sertanejo. Foi o já mencionado sr. Messias José Martins quem nos levou a assistir ao Reisado numa casa de Mussambê. Um grupo de 20-30 pessoas (tanto rapazes, como moças e crianças) já estava reunido para os ensaios finais do reisado que costumam representar nos meses de dezembro e janeiro, para os quais se preparam nos dois meses anteriores. Ainda não estavam com as vestimentas características completas, contentando-se o rei, por ora, com simples coroa de papel prateado, como costuma ser usada na coroação do rei do congo em Cairú, que tive ocasião de assistir, em 1934. Entretanto, ensaios finais, freqüentemente, mostram mais entusiasmo e maior espontaneidade do que os próprios espetáculos. Foi o que observamos em Mussambê.
O que admira é ver de noite aqueles caboclos bronzeados, mais “índios vestidos” do que brancos ou pretos, depois da labuta pesada do dia, dedicarem-se com corpo e alma ao reisado, dançando ou digamos melhor: batendo com os pés chão, em fila de ganso à maneira dos indígenas brasileiros. A poeira que se levantava do chão da casa do rei, em que se apresentava o espetáculo, em certos momentos, nem permitia respirar, até que a dona da casa felizmente se lembrou de molhar o chão para diminuir a poeira.
Em que consiste o reisado de Mussambê?
É uma mescla, sem conexo interno, de cheganças, congada, bailes pastoris, ternos, bumba-meu-boi e de outros versos que falam da migração do caboclo para Goiás, Sergipe e Alagoas como de recrutas chamados às armas; nem faltam cenas cômicas e representações de fábulas e assuntos mitológicos. Numa palavra: o reisado é um verdadeiro “auto popular” que fala da vida passada e presente do povo.
E quem fez estes versos?
Não mo souberam dizer. Informaram-me apenas que os trouxeram de Juazeiro do Ceará, há uns 16 anos, quando os mais velhos do reisado vieram estabelecer-se em Juazeiro da Bahia. Mas, hoje em dia, já faz parte do folclore baiano, pois grande parte dos que o representam já nasceram aqui e, ao que parece novos versos foram acrescentados.
Pedi primeiro que me emprestassem o caderno em que se costumam escrever tais autos populares, como observei em outras regiões da Bahia. Mas me responderam que não possuíam caderno nenhum e sim que tinham os versos todos na cabeça. Alguns sabiam uns, outros sabiam outros, de sorte que quando algumas vezes perguntei ao rei ou ao seu filho, responderam: “não sei essa letra, é o mestre quem a conhece”; e este, por sua vez, não conhecia bem outros versos.
Os personagens mais importantes do reisado são, pois, o rei e o mestre; não sei por que o segundo é chamado assim. Parece que é uma espécie de mestre de cerimônias, pois ele, geralmente, dirige as danças e os cantos, dando para isso o sinal com um apito de folha de flandres. Devemos ainda mencionar uma terceira pessoa no reisado, a figura cômica de um menino de uns doze anos, chamado Mateus, que deseja ocupar o trono do rei. Enquanto o mestre lhe pergunta como ele, assim pequeno, podia ser rei, responde: sou grande, colocando ao mesmo tempo um chapéu em forma de funil na sua cabeça; é deixado então algum tempo no trono do rei, sendo depois expulso e entronizado o verdadeiro rei.
Os homens e rapazes, como o mestre e o rei, que tomam parte no reisado, dançam todos munidos de uma espada antiga, batendo um na espada do outro quando dançam, o que na meia escuridão iluminada apenas pela luz fraca do fifó, dá um aspecto fantástico ao espetáculo. E quando então apareceu o primeiro “bicho” (um dos rapazes disfarçado em dragão, com uma boca enorme que se abria e fechava), o mestre passou-me a espada para eu matar o dragão, enfiando-a na boca.
Igualmente é representada e ridicularizada a ave “guriatã” que quer beber cachaça e cai no chão.
E na completa escuridão (apaga-se o fifó) aparece finalmente o diabo (com a cabeça vermelha de papelão iluminada por dentro) para buscar a alma do homem que lha vendeu em troca de riqueza, velho tema europeu ainda encontrado no sertão brasileiro.
O reisado é apenas acompanhado por um violão.
Em resumo: o reisado de Mussambê de Juazeiro é um legítimo auto popular que consta de elementos culturais predominantemente europeus, com danças mais indígenas do que africanas, aparecendo quase só na congada a influência puramente africana. A contribuição aglutinadora do sertanejo nordestino em harmonizar elementos culturais tão diferentes, é bastante forte. O autor anônimo da letra do reisado (provavelmente do fim do século passado) deve ter sido um indivíduo fora do comum, mas sem possuir cultura maior. É a filosofia do povo que aí se manifesta:
Tanto padece quem ama,
Tanto ama quem padece!
como ouvimos em dois versos do reisado de Mussambê.
Vejamos agora o texto, como me foi possível anotá-lo à luz do fifó. Já que cantavam os mesmos versos 2-3 vêzes, não foi difícil passá-los ao papel, a não ser nos momentos de grande alvoroço, como quando depois de o terno ter recebido licença para entrar na casa do rei e prestar homenagem ao Menino Jesus: ai o sussurro não permitiu ouvir a letra completa. Eis o resultado:
Cantam e dançam fora da casa:
Eu para ensaiar reisado
Eu vou pedir a papai,
Éste ano eu vou
Para a cidade de Goiás.
As coisas deste mundo são
“invisíveis”
Assim mesmo a gente vive
Neste mundo enganador:
O meu reisado tem uma cor de açucena
Que me chama traidor.
Quarenta e nove de cinqüenta
vamos ver
Pais de família descer
Para a guerra
Não volto mais
Tanta mulher chorando
Por seu marido,
Tanto menino chorando:
Ó mamãe cadê papai?
Eu contei uma,
Contei duas, dezesseis,
Me zanguei,
Não conto mais.
Quantos anéis
Ourives faz?
Quanto rapaz
Anda no mundo sem mulher?
Mandei fazer
Um avião de borracha
Quando o motor pega marcha
Voa e desaparece.
Quando o branco mata a vaca.
Quem tira o couro sou eu,
Bacalhau de sete perna
Nas costelas de Mateu.
Ó meu mestre, contra-mestre
Já deu hora de lição;
Não me dê de palmatória
Que me dói no coração.
Fecha-se a porta da casa, anteriormente aberta, e continuam a cantar fora da casa:
Ó de casa, menina vai ver.
Que é?
É um cravo,
É uma rosa
Com uma açucena,
Tem urna morena
Que me chama traidor.
Meu Senhor, dono da casa,
Quanto mais a cama cresce
Tanto mais aumenta sua fama
Meu Senhor, dono da casa,
Dono da casa redonda;
Quanto mais a pedra brilha,
Onde o mar combate a onda.
Passa a mão nos seus caldos
Que do céu vem lhe caindo
Pingo de água de cheiro.
Eu cheguei na tua barca
Pus a mão na tua porta
Pus a mão na fechadura
Eu falei que não falasse
Coração de pedra dura.
Me abra a porta
Por um filho seu
Por Nossa Senhora
E o Menino Deus.
Me abra a porta
Por Nosso Senhor
Que vem de longe
Ora Deus que eu me vou.
Me abra a porta
Por Nossa Senhora
Nós somos de longe
Queremos ir embora.
Abra a porta, morena,
A chuva chovendo
As goteiras pingando,
Abra esta porta, morena,
Que estou me molhando.
Ave Maria de prata
Padre Nosso de Pojuca
Eu vi a mãe do seu Rego
Debaixo da arapuca.
Ave Maria de prata
Padre Nosso de latão
Eu vi a mãe de seu Flecha
Montado num varrão.
O reisado entra na casa do rei e canta:
Por Nossa Senhora e a Virgem
Maria
Vamos ver Jesus
Que é filho de Maria,
Pai dos inocentes
Como vê meu Jesus,
Teu Deus onipotente.
Entremos nós com muita alegria
Vamos ver Jesus que é filho de Maria.
Vamos entrar com muito valor
Vamos ver Jesus que é nosso redentor.
O menino chamado Mateus senta-se na cadeira do rei; cantam:
Eu botei a cadeira
Para o Rei, chegou
Mateus se assentou
Neste mundo eu acho difícil
Este Mateus ser governador
Mateus é expulso da cadeira na qual se senta o rei; cantam:
Da prata, do ouro
Se faz o metal,
Arrasta a cadeira,
Para o rei se sentar.
O nosso rei está na corte,
Está no trono,
Viva a rainha
Viva o nosso rei de congo.
Cobra verde não me prenda
Se me prende, me solta
Olha que tenho quebrado
Outras correntes mais fortes.
Minha rolinha quando voa
Se sentou na verde rama,
Caçando um amor perdido.
Tanto padece quem ama,
Tanto ama quem padece.
A França e a Alemanha
Elas são cidades afeiçoadas
Nós brigamos todos marujos
E arrastemos pela espada.
Acordai, meu São José,
Acendei o candeeiro
Nossa Senhora das Dores
Jesus Cristo verdadeiro.
Acordai, meu São José,
Acendei o castiçal
Nossa Senhora das Dores
E Jesus Cristo no altar.
Meu barco pendura
Para o lado de lá
Torna a atravessar
Para o lado de cá.
Meu governador mandou-me
chamar
Atravessa o rio para o lado de lá
Torna a atravessar para o lado de cá.
Meu mestre, eu vou-me embora
Na boa veste
Lá para o agreste
Aonde os pássaros
Cantam e choram.
Nossa Senhora da Conceição,
Proteja meu batalhão,
Porque eu vou-me embora.
Eu sou o carapina de Alagoa,
Bato prego, arriba, avoa,
Serro o caibro
A casa cai
Olá rapaz
Eu canto para distrair
Numa viagem bem ali
Se eu não mandar
Você não vai.
A menina
Está-me amando,
Você saindo
Sei que fazes muita falta.
Eu sou matraca,
Tenho valor.
Este ano eu vou
À matriz de Arapiraca.
Este ano eu vou a Lagarto.
Eu vou vadiar.
Chego lá passo um telegrama
O mestre de fama já vem me açoutar.
A proa da barca bela
Foi feita para não se acabar
Com prata, ouro, aço e ferro,
Foi feito para Sinimbu.
A proa da barca bela
Foi feita para não se acabar
Com prata, ouro, aço e ferro.
É prata que vai se acabar.
Entra um homem disfarçado de dragão; cantam:
Oh que bicho feio,
Virgem Mãe de Deus,
Vem com a boca aberta
Oh Mani!
Para pegar o Mateus
Lá vem meu passarinho Jaraquá
O bichinho é bonitinho
Ele sabe vadiar.
Meu Deus, cadê minha namorada,
Que aprendeu na escola.
Só quero que me dê notícia
Do passarinho que fugiu da gaiola.
Passarinho preso canta
Preso deverá cantar,
Ele foi preso sem culpa
Canta para aliviar.
Juazeiro é banhado de ouro
Vale o tesouro,
Prata, ouro e metal.
Juazeiro é terra de Nosso
Senhor
Levanta outro pondo ele no lugar.
Juazeiro acima de Capela.
Entra o diabo para buscar a alma; cantam:
Que uma pedra
Que ele hora em hora geme
A terra treme,
Meu Deus, que será de mim?
Meu Senhor, dono da casa
O bichinho chegou
Agora vamos dançar
Mais o Quinquintô.
Carrega água no barco
Areia em meu navio, senhora,
Armai, não lograr
É malhar em ferro frio.
O Cruzeiro vai virando
À meia-noite em pino
Viva o cravo e viva a rosa
E a flor da bonina.
Às onze horas do dia
Porto de banho mimoso
Aonde combate a saudade
Eu arreto penoso.
Entra um rapaz disfarçado em guriatã; cantam:
Agora sim é que eu quero ver
O guriatã aonde vai beber
Guriatã é do lameirão
Vai beber cachaça
Para cair no chão.
Meu guriatã é das Alagoas
Meu guriatã é que é coisa boa,
Meu guriatã é do meu sertão.
A carinha dele é de um
corujão,
É de dentro a dentro
E de fora a fora
Meu guriatã.
Pode ir-se embora.
Chegou, chegou, chegou
Boa chegança.
Meu povo todo,
Isto fica por lembrança.
Chegou, chegou, chegou
Lá meu bem agora
Meu povo todo
O reisado vai embora.