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No mundo pitoresco dos berloques

Iside M. Bonini

Em São Paulo, freqüentemente nos é dado representar o papel de Colombos à vista de constantes e novas descobertas. Esse amontoado de "arranha-céus", exteriormente inexpressivos, oculta um complicado mundo efervescente de mil atividades cujos mistérios nos são revelados, quase diríamos, com pudor.

Quantas surpresas se nos deparam quando resolvemos indagar qual é a força motriz que impele o nosso progresso para sempre mais arrojadas conquistas no terreno das artes, da indústria, do trabalho em geral!

Passando diante das vitrinas abarrotadas de artigos de toda espécie, nossos olhos contemplam admirados a abundância e a beleza dos mesmos mas, nunca nos detemos a considerar a proveniência material, direta, a fonte originária em suma, dessas coisas que constituem o nosso encantamento. Entretanto, vale a pena indagar como nasceram e não só a título de curiosidade, mas pelo muito de ensinamentos que nos pode advir, porque a manufatura de cada objeto nos oferece uma verdadeira lição da qual muito aproveitamos.

Pensando assim, tivemos oportunidade de mergulhar num mundo realmente fantástico, no qual tomamos contato com a manufatura desse lindos berloques de madeira e ouro que atualmente fazem ato de presença em todas as joalheria luxuosas. Visitando as instalações dessa manufatura não só aprendemos muitas coisas interessantes, como demos um mergulho nas regiões antigüissímas da traição e nosso pensamento fez um autêntico turismo do mundo, induzindo-nos a pensar no significado que através dos tempos, tem tido essa figurinhas simbólicas que ora tomava conta da cidade.

Examinando detidamente as figurinhas alinhadas em lindos estojos, as quais pareciam viver ao contato de nossas mãos, sentimos-nos verdadeiramente admirados. Minúsculas efígies esculpidas nas madeiras preciosas, incrustadas de artísticos lavores de ouro, representando tipos e espécies diversas, legítimas obras de arte pela altivez do desenho e pelo fino acabamento, pensamos, na inexorável capacidade criadora do artista quando é realmente artista.

Esse desfile de miniaturas cuja única finalidade atual é adornar caprichosamente as mulheres, nos impôs inconscientemente, a pergunta: quem inventou, quando surgiram os primeiros berloques?

Se tentarmos remontar à sua origem acabaremos por nos perder nos labirintos da história, mas apoiando-nos na grande mestra, a arqueologia, esta nos revelará a sua existência milenar, conduzindo-nos pelos caminhos das várias civilizações através de todos os tempos, colocando-os, sob os olhos uma variedade infinita de amuletos, talismãs e berloques encontrados nos túmulos e necrópoles antigas dos egípcios, medos, persas, assírios, helênicos, etruscos, incas, maias, astecas enfim de todas essas gerações passadas que primaram pela cultura e amor à arte.

Os berloques que ora admiramos são decorativos; mas, outrora atribuía-se-lhes um significado todo especial, por exemplo: dividiam-se eles em diversas classes, devocional, votiva, propiciatória, evocativa e decorativa. Na sua heterogênea coleção existem os de reminiscências religiosas de muitas civilizações, lembranças amorosas, presentes de simpatia ou apenas significativos pela sua beleza.

Quanto aos amuletos, e isto podemos ter em muitas obras de valor de escritores modernos também, consistia o seu poder, era defender o seu possuidor contra as influências maléficas.

Os talismãs agiam sob forma mais direta, colocando a disposição do seu portador o serviço de entidades mágicas, ou proporcionando a realizações de seus íntimos desejos.

Os balangandãs, tal como são conhecidos em nosso folclore, são destinados a afastar o mau-olhado e as forças inimigas que vivem no ar e são dirigidos por pessoas desafetas.

Contudo, na paixão era dominante pela coleção dos mesmos está praticamente excluída qualquer idéia de poder sobrenatural. Colecionam-se pelo prazer de possuir a maior quantidade possível de miniaturas originais e artísticas, fáceis de serem transportada conosco, companheiras de nossos passeios, testemunhas mudas de nossos sucessos e, freqüentemente, causas inocentes de muita inveja. O balangandã fino e artístico é um imperativo da moda, por conseguinte, sua origem, sua função, passam a um plano secundário para exercer simplesmente a função de adorno elegante.

E adornos de autêntico fino gosto são os berloques executados na manufatura em São Paulo porque cada um dele tem um único significado: arte.

Numa conjugação de idealismo a equipe de artistas empregada na confecção dessas miniaturas explica-nos que produção não implica apenas no interesse material, mas que pode afirmar-se como originalidade e valor espiritual. O desenhista, o escultor, o gravador, o cinzelador, no elaborarem uma peça, não visam, o custo monetário da mesma, mas sim o alcance sugestivo de seu expressividade. Seguindo essa linha as características de cada miniatura obedecem escrupulosamente a sua razão de ser.

Vimos, por exemplo, típicas baianinhas, ostentando umas o indefectível turbante, mas caprichosamente arabescado de ouro, outras o seu tabuleiro cheio de frutas, mas caprichosamente executadas em ouro. A série de índios de todas as Américas, desfilou em plena forma, destacando-se perfeitamente os tupis dos bororós e dos cajabis, com suas feições fidedignamente reproduzidas, e excelentes estampas, seus enfeites cuidadosamente copiados isentos de ridículos anacronismos. A coleção de animaizinhos é um luxuosíssimo zoológico cintilante de ouro. Os tipos orientais; rajás, egípcios, hindus, persas, etc., apesar de sua pose hierálica, não são isentas de graça e leveza. As minuscúlas índias africanas, exibem orgulhosas seus longos pescoços ataviados de colares de ouro e as figas, esses amuletos tão amplamente conhecidos desde dos tempos clássicos greco-romanos, surgem inéditas na sua forma moderna e aristocrática, trazendo no pulso e no dedo elegantíssima pulseira e anel de ouro, além de apresentarem-se com aspecto inteiramente novo de mãos bem femininas e delicadas, agéis e acariciadoras ao mesmo tempo.

A efígie de Nossa Senhora Aparecida constitui uma verdadeira revelação. Finamente esculpida, parece transmitir toda a sua doçura inerente e seu manto é um verdadeiro bordado de ouro, assim como o rosário, a coroa e demais acessórios que completam os seus atávios. Tanto esmero de confecção, levou-nos a indagar sobre a técnica empregada e aí nos foi dado comprovar até que ponto pode ser levada a paixão pela arte, pois, cada microscópica incrustação é executada com uma perícia admirável. Cada migalha de ouro é aplicada mediante a introdução na madeira de um pinho correspondente, note-se, essas peças e esse pinos não são fabricados em série, mas obedecendo à necessidade do momento. Assim, para confeccioná-los, os artífices têm que fabricar previamente, os utensílios matrizes e adequados para cada um.

Esse trabalho de uma paciência incrível vem traduzir, inegavelmente, o que sempre se repete, isto é, que o artista distribui-se pela sua arte, a toda a humanidade, pois em cada obra sua está implícita uma fração de sua alma, de seu gênio criador e de seu espírito de propagação. Eis porque, ao passar diante de uma vitrine, ao contemplar um objeto de real interesse artístico, devemos refletir o quanto de humano ele encerra e, então, encarar o seu valor não somente pelo custo monetário, mas sim e principalmente, pelo que vale como construção genial e idealística.

(Bonini, Iside M. "No mundo pitoresco dos berloques". Correio Paulistano. São Paulo, 24 de abril de 1955)
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