|
Carlos Moliterno
Houve tempo em Maceió em que as festas natalinas empolgavam, de maneira
absoluta, toda a população. Além da variedade de brinquedos populares, havia
ainda uma profusão de fogos de artifícios, queimados em horas determinadas, para
encanto do povo que se aglomerava a pouca distância do local.
Em Bebedouro, principalmente, as festas de Natal eram as mais concorridas. As
famílias mais representativas da cidade possuíam casas naquele bairro,
unicamente para passar a época dos festejos. E não era com facilidade que se
podia alugar casa ali, principalmente nas imediações da praça da Liberdade,
local da festa.
À frente daquele povo de subúrbio estava um homem que sentia um orgulho muito
grande pelo seu bairro e durante os festejos natalinos ele se desdobrava para que
a sua festa tivesse, cada ano, maior brilho e entusiasmo. Este homem era o major
Bonifácio.
A praça da Liberdade não tem uma área muito grande, porém comportava diversas
variedade de folguedos populares, entre os quais poderíamos citar: pastoris,
cheganças, reisados, baianas e fandangos. Ainda mais: todos o folguedos, por
ventura existente em outros bairros, faziam a sua apresentação em Bebedouro.
Ao nosso ver, foram os festejos organizados pelo major Bonifácio os mais
expressivos como tradição das nossas festas de fim de ano.
O espírito organizador daquele homem sabia por em destaque todos os nossos
folguedos e os apresentava na forma e no rigor do seu cunho primitivo. Se não
estamos enganados, ele próprio ensaiava as suas baianas, vestindo-as com os
trajes característicos, para melhor brilho da sua apresentação. Entre as
cantigas das baianas havia uma de autoria do major Bonifácio, composta em
quadras, que começava e terminava com a seguinte:
Quando como feijoada
E não bebo aguardente,
Ai que dor, ó ai que dor,
Ai que dor que dá na gente
Não houve ainda em Maceió outro bairro que apresentasse festas natalinas com o
esplendor das que fazia o major Bonifácio. Tudo era previsto por esse homem
dinâmico. E apesar de grande afluência da nossa população ao distante bairro o
transporte era muito bom, principalmente porque a Great Western fazia correr um
trem entre Bebedouro e Maceió, transportando o povo. O serviço de bondes também
era reforçado, havendo ainda um serviço de caminhões para passageiros.
Basta esse fato para mostrar-se a importância dessa festa na vida de Maceió.
Esse tempo já vai um pouco distante e vive hoje, apenas em nossa saudade. Mas
não é somente o tempo que faz o hiato do Natal de ontem e hoje em Bebedouro.
O que marca, sobretudo, a diferença da festa é a beleza morta, é o encanto
perdido, é a alegria paralisada na indiferença atual pelos nossos costumes e
tradições.
Os moços não a alcançaram; os velhos a recordam com uma boa porção do seu
passado, pondo nessa lembrança os melhores momentos da sua experiência
recreativa. E uma funda melancolia cobre a imaginação desses velhos, numa volta
imprecisa aos tempos recuados.
Hoje o Natal não tem a graça dos velhos tempos. Em Bebedouro, ultimamente, não
tem havido festas e quando as há ressente-se daquela suntuosidade que o velho
major Bonifácio sabia encenar e apresentar.
Alguns subúrbios ainda procuram manter a chama da tradição, mas essa chama é
apenas uma luz mortiça, sem aquela coloração que é a vida de própria chama.
O que nos resta na cidade com festa de Natal não se
caracteriza pela apresentação dos
nossos folguedos populares e tradicionais. O que vemos nos recantos onde um
simulacro de festa procura reviver os velhos tempos, são brinquedos com
finalidades comerciais, como roda-gigante, balanços etc. Os pastoris não
apresentam as jornada que vem de longa data com o seu ritmo e figuras
características. Somente Téo Brandão conseguiu fazer, no ano passado, a
apresentação de um pastoril do SESC, com todas as suas canções, jornadas e
figuras.
Também há, nos nossos dias, uma nova significação do Natal. Aquela que encara o
aspecto social da tradição, amparando os velhos e crianças pobres, os detentos e
enfermos, enfim a pobreza na sua angústia coletiva. Inegavelmente essa função
social merece a colaboração e o apoio de todos, mas, evidentemente, é com uma
tristeza, que assistimos à morte das nossas tradições ligadas aos festejos
natalinos.
|