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Rossini Tavares de Lima
As folias de Reis são dos acontecimentos mais originais e interessantes do ciclo
do Natal, no estado de São Paulo. Durante este mês e às vezes, um pouco antes,
elas já andam a percorrer as zonas rurais de diversas regiões do estado, a
angariar donativos para a festa dos Santos Reis.
O ano passado não as vimos em profusão na Alta Paulista, em Catanduva,
Potirendaba e Ibirá. Estabelecemos contato com folias organizadas e dirigidas
pelos próprios festeiros e outras constituídas de foliões assalariados. Um dos
grupos percorria as regiões circunvizinhas desde o dia vinte de novembro e seus
componentes percebiam dos festeiros, que os contrataram diárias de cinqüenta
cruzeiros per capita. E segundo fomos informados, a arrecadação dessa folia
ultrapassou em muito à expectativa, tanto assim que os festeiros puderam realizar
uma grande festa de Reis, na qual mataram cinco bois, setenta e três frangos,
quinze leitões, dando comida para muita gente.
Organização das folias de Reis
Na região em que estivemos as folias denominam-se "companhias" e compreendem
instrumentistas, cantadores e dois palhaços, além do festeiro ou seu
representante. Este carrega a bandeira, na qual estão desenhados os Santos Reis,
às vezes, levando nas mãos os instrumentos dos foliões, que, geralmente, são:
violas, caixa e pandeiro. Os cantadores chamam-se "mestre", "contra-mestre",
"ajudante", "contrato", "tipe" e "contra-tipe". Os dois primeiros são os
violeiros, que improvisam versos, em terças, enquanto os demais os repetem, em
intervalos diferentes, apresentando, nos finais efeitos de três a quatro vozes.
Os palhaços nas folias
Um nosso informante de Ibirá, perguntado sobre a significação dos palhaços na
folia de Reis, assim nos esclareceu, no seu linguajar, que foi gravado por nós:
"Os paiaço não é da companhia dos três Reis. Os três Reis passáro no reinado dos
Herodes, e Herodes então, mandou os dois paiaço junto com três Reis. Quando
chegasse lá na visita do Menino Jesuis, em Belém, onde o Menino estava prá mórde
os dois paiaço vortá prá tráis, que é os dois mascarado, no reinado de Herodes,
e contá prá ele, prá móde ele i e degolá. Mas, chegano lá, eles teve o grande
remorso. Então tiró a máscara e feis um juramento. Prestô um grande juramento,
que não queria companhá os trêis Reis. É por isso, então, é que nóis temo esses
dois paiaço na nossa folia de Reis".
A viagem dos três Reis
Além dos versos tradicionais das folias, em Ibirá nós gravamos os que eles
denominam de Viagem dos três Reis. Este são os versos, sempre encerrados com o
"ai, ai".
Vinte e cinco de dezembro, ai, ai
Eu vi a terra tremeu, ai, ai
Os três Reis foram avisado, ai, ai
O Cristo de Maria nasceu, ai, ai
Já saíram em viage, ai, ai
Visitar Menino Deus, ai, ai
Andava pelo mundo, ai, ai
Sem sabê destino seu, ai, ai
Logo no dia seguinte, ai, ai
Uma estrela pareceu, ai, ai
Essa que era vossa guia, ai, ai
Foi mandando ela por Deus, ai, ai
Quela estrela ia na frente, ai, ai
É preciso i acompanhano, ai, ai
Té que um dia eles encontraro, ai, ai
O que andava campeano, ai, ai
Pois era um Menino Deus, ai, ai
Eles ficaro adorano, ai, ai
E fizero suas continência, ai, ai
E também presentearo, ai, ai
Eles pegaro os instrumento, ai, ai
E pro mundo viajaro, ai, ai
Tirando as suas esmolas, ai, ai
Pela festa do Natal, ai, ai
E convidava tudo povo, ai, ai
Quando eles vinha chegano, ai, ai
O amô de Deus acompanhava, ai, ai
Pegaro sua rainha, ai, ai
Uma bandêra encontraro, ai, ai.
O vivório dos palhaços
Além de dançar, pular, realizar a suas acrobacias, os dois palhaços ao fim da
cantoria, costumam dar intermináveis vivas, no que são acompanhados por toda a
"companhia". De ibirá é o vivório que vamos apresentar:
Viva os tréis do Oriente!
Viva
Viva a estrela guia!
Viva!
Viva toda a companhia!
Viva!
Viva todos que aqui estão!
Viva!
Viva a bunita união!
Viva!
Viva todos fulião!
Viva!
As folias de Reis, ainda agora constituem motivo de grande alegria para as nossa
populações rurais, que vivem, sem maiores divertimentos, no rude trabalho da
terra. Todas as portas se abrem para receber os foliões e não há aquele que não
deixe de dar a sua esmola, para ouvir, depois, o agradecimento:
Deus vos pague a boa esmola
Dada com delicadeza,
O divino Santos Reis
Há de ser sua defesa.
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