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Guilherme Santos Neves
Em Conceição da Barra tivemos o ensejo de assistir à representação de um
reis-de-boi. Realizou-se ele, às 23 horas do dia 19 do corrente, no salão do
edifício da Câmara Municipal, onde se alojara a comitiva da Comissão
Espirito-santense de Folclore que tinha ido àquela cidade a fim de presenciar a
bela festa do Alardo.
O reis-de-boi é um velho folguedo popular, ainda corrente em São Mateus,
Conceição da Barra e outras localidades ao norte do estado. Compõe-se de várias
figuras, entre as quais: o boi, personagem principal; pai Francisco, o vaqueiro;
e sua mulher Catirina; João Mole, um boneco desengonçado; a cobra, seu Pai, ou
vosso Pai e Agaú, um gigante fantasma. Essas são as figuras grotescas que
participam da função. Mas, além dessas, há no reis-de-boi, um grupo de marujos,
que toca pandeiros e canta, bem como um sanfonista que os acpmpanha. Todos sob a
direção de um mestre. Em Conceição da Barra, este era o senhor José de Carvalho,
organizador do reis-de-boi e morador na Bugia, arrabalde da cidade.
O reis-de-boi que vimos ali representado assemelha-se aos bumba-meu-boi do
norte e do nordeste. Claramente se verifica que a Catirina deve ser a mesma tia
Catirina, do bumba baiano e a mãe Catirina do bumba do Maranhão. Mas o ponto de
referência mais estreito está no boi — figura central dos dois autos populares.
Como nos bumba-meu-boi, o animal do reis-de-boi entra em cena, dança,
cabrioleia, dá marradas e, lá pelas tantas, morre. Nos bumbas, há nessa cena, os
conhecidos versos:
O meu boi morreu
Que será de mim?
Manda buscar outro
Lá no Piauí
No reis-de-boi da Bugia, nessa hora se canta:
Eu não sei como é
Eu não sei como foi
Botaro a mandinga
Mataro o meu boi
Ai meu Deus
Minha Mãe de Deus
No meio do salão
O meu boi morreu
Num e noutro folguedo, o boi ressuscita e torna a dançar e a dar marradas nas
figuras e nos assistentes. As outras personagens têm, também, cada qual a sua
vez de entrar e brincar — e o auto assim se vai desenrolando, agitado e por
vezes malicioso e brejeiro, com o seu Pai, a Catirina, a cobra, o João Mole e
Agaú, a fantasma.
O reis-de-boi — como se vê do próprio nome — é representado nas festas de
Santos Reis, podendo, todavia, repertir-se em louvor de São Sebastião (20 de
janeiro) e de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro). E porque a festa é de
Reis há, como nos ternos e folias do reisado, cantigas e descantes alusivos ao
Natal e aos Magos.
Inicia-se com singelas trovas da entrada entoadas diante da porta fechada,
luzes apagadas:
Acordais que são chegada
Que dos montes venha vindo
Venha trazê boas nova
Acordais que estai dormindo
Em Belém cantô um galo
Ai eu Deus, quemnasceria?
Foi o neto de Santana
Filho da Virge Maria
E vão cantando, cantando, dolente e monotonamente, até a trovinha final:
Porta aberta, luz acesa
Vamo entrá com alegria
Aqui nos mandô Deus Padre
Filho da Virge Maria
Entre cada par de versos bisados há ligeira pausa preenchida somente pela
sanfona e pandeiros dos marujos.
Depois da entrada, o reis-de-boi entoa, num batuque ligeiro, o descante, tal
como nas folias de Reis. Alguns dos versos cantados:
Solo
Ó que caminho tão longe
Ó que rodeio que tem
Se não fosse os teus carinhos
Aqui não vinha ninguém
Coro
Eu sô aquele canário
Que cantava na gaiola
Qualé o amô que não sente
Quando o seu bem vai embora?
Solo
Sinhora dona da casa
Gáio de alecrim maió
A sua sombra me cobre
Qué chova, qué faça só
Coro
Eu sô aquele canário...
Solo
Alecrim bateu na porta
Manjerona qué saí
Sinhore dono da casa
A porta mandai-me abri
O solista — no caso, o mestre José Carvalho — ao cantar suas trovas, encaixa,
entre o 1º e o 2º versos de cada uma, o 1º verso do estribilho: "Eu sô aquele
canário". Tão curioso enxerto, longe de prejudicar a cantiga, dava-lhe muita
graça, sem quebra da cadência e melodia do canto.
Outras marchas cantam os marujos do reis-de-boi, algumas alusivas aos Santos
Reis, como esta:
O meu Santo Reis
Ói que santo lindo
Ói que adorado...
São Sebastião
No vosso dia festejado
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