|
Renato José Costa Pacheco
Tenho procurado estudar o que se não perdeu ainda em nosso estado, das folias
de Reis.
Em A Gazeta, de Vitória, ou neste vitorioso boletim, obra benemérita
de Guilherme Santos Neves, já me reportei ao assunto.
Hoje, graças à prestimosa comunicação de Miguel Rodrigues Faria, de Guaçuí,
datada de 25 de março corrente, quero falar sobre um palhaço de Reis.
Palhaço é o nome que o povo dá à personagem central deste brinco do ciclo
natalino. Mas a analogia com os clowns de circo não é total, uma vez que
nas folias de Reis, o palhaço só brinca (sempre familiar e respeitosamente)
quando é convidado, com insistência.
Diz a citada comunicação sobre o vestuário dos palhaços: "usam
invariavelmente um fardamento vermelho, todo bordado de branco, as calças
amarradas ao tornozelo. Às vezes trazem um chapéu cônico, bem comprido com um
penacho na ponta. Cobrem a face com uma máscara, quase sempre de couro de
cabrito branco e, à guiza de arma, um chicote comum".
O simbolismo do palhaço é representar o demo, o coisa ruim, o tesconjuro, ao
passo que os demais participantes da festa equivalem aos Reis Magos, e aos
humildes pastores de Belém. Por isto o "palhaço" não entra em casas onde há
santos ou crucifixos.
As fardas dos demais foliões são também vistosas, cheias de fitas, cordões e
medalhas.
Na época própria saem folias, de casa em casa, a solicitar donativos para a
festança final, e às vezes, quando há fome, comida e café.
Muitos proprietários anseias por este cortejo, a fim de que seus filhos e
agregados vejam quem é o palhaço da folia, pois só então este tira sua máscara.
Finda a refeição, cantam os foliões, tocando entre outros instrumentos,
violões, violas, caixas, tambores, e pandeiros, e saem em busca de novas
paragens.
Quando acontece o encontro, temido aliás, entre dois grupos de foliões, é
mister que haja cantos (perdidos em grande parte) que relembram a história e os
mistérios do nascimento do Salvador. Se houver derrota de um dos grupos fica
este obrigado a entregar seus fardamentos, armas e instrumentos aos componentes
do outro grupo.
Eis aí, mais alguma coisa que consegui anotar sobre as festas de Reis no
Espírito Santo.
Pena é que o povo, pouco a pouco, vai relegando estes sadios divertimentos a
uma situação de esquecimento, influenciado às vezes por elementos estranhos que,
por desconhecerem o valor demológico de tais festejos, e, no intuito de
preponderância de uma suposta civilização, proibem ou dificultam a realização de
festas como as folia de reis, as lapinhas de Natal, as festas do Divino Espírito
Santo, e outras. A estes faço o meu apelo no sentido de que deixem o povo,
(cujos altos desígnios, muitas vezes, estão fora do alcance de nossas vistas
nubladas pelo verniz do estudo) brincar os seus brincos e festejar suas festas
para que se não diga, quandoo futuro estudar a civilização brasileira, que ela
foi de servis imitações de modelos europeus ou norte-americanos!
|