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J. C. Paixão Cortes
Peditório
O peditório nem sempre se verifica. Depende das finalidades principais do terno,
como já dissemos.
Alguns "tiram os reses" com o fito de realizar uma grande festa no dia 6 de
janeiro, recebendo dádivas (galinhas, ovelhas, arroz, ovos, etc.) ou solicitando
ao dono da casa visitada a remessa das mesmas para o local festivo, previamente
escolhido.
Quanto aqueles ternos que solicitam contribuições financeiras as quais se
dividem entre seus componentes, é um fato que não só encontramos no Rio Grande
do Sul como também em outros estados do Brasil.
É Mário de Andrade que nos diz: "A gente nordestina não me parece mais
pedinchona do que qualquer outra, e nisso não guarda traço mais da indiada que
lhe influiu na formação. Mas ao realizar suas danças dramáticas, bem como em
qualquer função de cantoria profissional, renasce nela extraordinariamente vivo
aquele espírito pagão dos pedidos de alvíssaras, em cortejo perseverado na Europa
Cristã e caracterizado em Portugal especialmente pelos peditórios dos janeiros.
Se entre nós, como em Portugal, essa tradição está fortemente cristianizada fica
principalmente no "tirar de Reis" e nas folias do Divino".
E, mais adiante, o mesmo folclorista nos afirma:
"Cumpre verificar sempre que se identifica pelos versos e costumes, os
peditórios das nossas danças dramáticas aos dos janeiros e maias pré-cristãs,
não esqueço não, que no teatro primitivo esse peditório é de uso comum. Nos
nossos costumes ibero-americanos, pelo menos neles, as duas tradições se
fundiram. No teatro grego como no asiático, no da Idade Média como em
Shakespeare, os pedidos de dinheiro e aprovação vêm como as despedidas sãs rastreáveis. Karl Mantzius
(22, I, 10) opina que o 'apelo imediato do autor ao seu público, explicando ou
pedindo aprovação, é o resultado de uma tendência universal que subsiste em
todos os tempos e países'. Está certo. Mas ainda aqui, a meu ver, o principio de
louvação de despedida e de peditório teatrais, pelos costumes e mesmo textos,
deriva de uma noção religiosa mais geral, do que o próprio teatro, deriva
também, ou lhe proporciona o nascimento — fica melhor dizer".
Meu senhor dono da casa
É a estrela que mais brilha
Venho pedir os nossos Reis
Pro senhor e sua família
Meu senhor dono da casa
Peço Reis para o senhor
Quando mais se não agora
E também pra sua senhora
Meu senhor dono da casa
É um cidadão brasileiro
Peço Reis para o senhor
E também para os companheiros
Porta aberta, luz acesa
Sinal de muita alegria,
Viemos lhe pedir os Reis
Filhos da Virgem Maria
Meu senhor dono da casa
Sobe no céu por uma fita
Esperamos das suas mãos
Uma oferta bonita
Meu terno vem de longe
Cansado de caminhar
Para pedir-lhe as festas
Que vós tem para nos dar
Senhora dona da casa
Uma rosa no jardim
Venho buscar as festas
Que vos tem para nos dar
Senhora dona da casa
Uma rosa no jardim
Venho buscar as festas
que estão guardadas pra mim
Este terno aqui chegou
Ele vem com lealdade
Pedimos nossos Natal
Porque temos qualidade
Senhora dona da casa
Desculpe lhe incomodar
Levante as suas meninas
Os natais venha nos dar
Ó de casa, casa santa
Ó de casa, casa bela
Venha dar nossos Reis
A todos que estão dentro dela
O senhor dono da casa
Não seja muito rogado
Venha dar os nossos Reis
Que o tempo está chegado
Meu senhor dono da casa
Faz favor de me escutar
Eu pergunto pro senhor
Se tem Reis para nos dar
Aqui estamos, aqui chegamos
Na beira do seu terreiro
Venha dar a vossa oferta
No dia 6 de janeiro
Uma cadeira de ouro
Ramalhete enflorescido
Venha dar os nossos Reis
Para ser agradecido
A todos que aqui estão
Venha nos dar o seu Reis
Que de todo o coração
Agradecemos outra vez
Como fizeram os Reis Magos
Nós queremos imitar
Com este modesto terno
Os Reis viemos tirar
Acordai se estás dormindo
Na sua cama dourada
Venha dar o nosso Reis
Que as horas estão chegadas
Meu senhor dono da casa
Debaixo do seu telhado
Venha dar o nosso Reis
Para de Deus ser ajudado
Meu senhor dono da casa
És um cravo no jardim
Venho buscar minhas festas
Que vos guardas para mim
Já que nos abriu a porta
Vem nos apreciá.
Prepare os nossos Natal
Que viemos buscá
Meu senhor, dono da casa
Desculpe lhe encomodar
Venha dar nosso Natal
Que o tempo já está chegado
Graças a Deus eu já vi
A luz da vela luzia
Venha dar nossos Reis
Com toda a sua família
Senhora dona da casa
Não seja de mau coração
Não podendo dar os Reis
Nos dê mate chimarrão
Os Reis Magos
Alguns ternos se fazem acompanhar de uma criança, que vai na frente carregando
uma varinha, na extremidade da qual vê-se uma estrela simbolizando aquela que
guia os Reis Magos e os pastores ao estábulo onde nasceu o Menino Jesus. Em
outros rincões, os "ternos" se enriqueceram dos reis — Gaspar, Baltazar (um
negrinho) e Melchior — que surgem com suas coroas, suas capas coloridas, etc.,
lembrando as roupagens que se supõem exibiam os Magos. Em outras regiões,
outrossim, como no município de Torres — onde colheram o rilo, o anu etc., as
visitas constituem não só na apresentação dos Reses como na execução de danças
de fundo dramático como o "baixinho", a "jardineira", o pau de
fita, esta já
focalizada em nosso livro com Barbosa Lessa intitulado Manual de danças gaúchas.
Ano Novo
Chegamos em sua morada
Eu e meus companheiros
Nós andamos festejando
O primeiro de janeiro
Entrada do ano novo
Com prazer e alegria
Com grande contentamento
Eu festejo este dia
Eu festejo o Ano Novo
Com muita moralidade
Deus do céu lhe dê saúde
E muita felicidade
Acordai se estás dormindo
Neste sono tão profundo
Levante e seja bem-vinda
Mais um ano neste mundo
Senhora dona da casa
É uma flor de maravilha
Venha nos dar seu anos
Junto com sua família
O meu terno está cantando
Para alegrar a todo ano
Nós andando festejando
A entrada do Ano Novo
Meu senhor dono da casa
Deus do céu que lhe ajude
Que passe este 60
Gozando boa saúde
Eu festejo o Ano Novo
Nesta data querida
É mais um ano que passamos
No calendário da vida
Meu senhor dono da casa
Estamos aqui de novo
Parabéns muita saúde
E um feliz Ano Novo
Vingança a prisão
Já nos referimos, em edições anteriores, sobre a "prisão", entre
dois ternos. Hoje
acrescentamos um curioso fato, em que um irmão jura vingança a determinado
guia, que "prendera" seu mano, mestre de outro terno.
Prenderam o meu irmão
Eu hei de me vingar
O teu terno há de ser preso
Custe o que custar
Prendeste meu irmão
Deixa as água rolar
Para o ano que vem
Nós vamos nos encontrar
O terno que tu prendeste
É de um homem de bem
Eu espero me vingar
Para o ano que vem
Nossa Senhora te ajude
E a Virgem Santa Maria
Eu deixo Deus do céu
Em vossa companhia
Eu nunca prendi terno
E nunca tive tenção
Mas quando prendê o teu
Sei fazer a amarração
Quando eu te prender
Tu vai reto p'ra correção
Que eu digo e sustento
Porque tenho opinião
Se tu sair com terno
Em casa de alguém
Eu te juro por Deus
Que tu és preso também
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