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Téo Brandão
O reisado é um dos autos populares próprios da época
natalina que se filia ao
vasto ciclo de folguedos derivados das janeiras e Reis
portuguesas, como as folias de Reis de São Paulo e do Rio de Janeiro, o
bumba-meu-boi do Nordeste, o reis-de-boi do Espírito Santo, o boi-de-mamão, do Paraná e Santa Catarina, o
boizinho do Rio Grande do Sul, e o boi-bumbá, da Amazônia.
Em Alagoas sincretizou-se o folguedo com outra dança dramática
— o auto dos
congos, apresentando por isso maior riqueza e encanto em sua indumentária, na
música e coreografia que o tornam, assim diferente das versões do reisado de
outras regiões do país.
Seu desenvolvimento consiste numa série de episódios, alguns já existentes nos
ranchos de janeireiros e reiseiros portugueses, como o pedido de abrição de
porta:
Abris a porta
Se quereis abrir
Que somos de longe
Queremos nos ir
A louvação aos donos da casa:
Senhor dono da casa
Olhos da cana caiana:
Quanto mais a cana cresce
Mais aumenta a sua fama
A louvação do Divino:
Deus te salve, casa santa
Onde Deus fez a morada,
Onde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada
As marchas de entrada de sala:
Entremos, entremos,
Em jardim de fulô,
É do nascimento,
É do Redentor
E, no fim do auto, a ceia, em que se renovam os agradecimentos aos donos da
casa:
O senhor dono da casa
É quem pode vestir véu
É quem se pode adorar
Debaixo do Deus do Céu...
E a despedida final:
Dono da casa
Adeus que eu me vou
Até para o ano
Se nós vivo for
Entre os primeiros episódios e os dois últimos, realizam-se as
representações dramáticas (entremeios), característicos do bumba-meu-boi, as
danças cantadas (peças) e as partes declamadas (embaixadas ou chamadas de Rei),
estas últimas oriundas do bailado dos congos, bem como o episódio da guerra, por
sua vez equiparável às várias danças rituais européias.
As cantigas dançadas apresentam-se nos mais variados assuntos e motivos.
Antigamente, africanos:
Topei num vi, ô dalipá
Caramundelo, zumbi, mamde ô lá
Ou guerreiros:
Somos soldados
Vamos para a guerra
Costas com costas
Joelhos em terra
Atualmente, senteciosos:
Ô minha gente,
Reisado só de Viçosa,
Fazenda só cor de rosa,
Baiana só do Farol
Ô minha gente
Dinheiro só de papel
Carinho só de mulher
Capital, só Maceió
Religiosos:
Igreja da Sé
O sino tocou
Nós vamos adorar
Santa Cruz do Senhor
Amorosos:
Mandei fazer um buique p'ra meu amor
Mas sendo ele de bonina disfarçada;
Tem o brilho da estrela matutina
Adeus, menina, sereno da madrugada
Sucessos vários, que ficam na memória do povo, como a revolução de Princesa,
na Paraíba:
Ô minha gente e pessoal de Princesa
Por que não conta esta história bem contada:
O avião que o nosso Reis mandou
Antes do campo pousou, não pode tomar chegada
A morte do padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte, Ceará:
— Ô Beata, ô beata mocinha
Me dizei pra onde foi meu padrinho.
— Meu padrinho, ele viajou
Ele deixou Juazeiro sozinho
A vida de Lampião e Maria Bonita:
Adeus serra do Buique
Maria Bonita passeava nela;
Adeus serra do Pavão,
Onde Lampião suspirava por ela
Coreograficamente tais "peças" apresentam enorme variedade de passos, alguns
individualizados ou batizados tradicionalmente: o passo do gingá, o curropio, o
encruzado e os diversos sapateados (tropel rebatido, cavalo manco, etc.), outros
sem denominação própria mas similares a danças de outros países, como o célebre
passo dos cossacos das danças russas.
Os "entremeios" são também os mais variados: o
folharal, o diabo e a alma,
o capitão de campo, o zabelê, o jaraguá, o urso, o cavalo-marinho ou burrinha, o
corcunda, o Anastácio, a mamãe velha, o Manuel Pequenino, o morto-vivo
e, por fim, o boi, indispensável e característico que começa com a estrofe
inicial do romance português da Bela pastora.
Pastorinha mana
Que fazeis aqui,
Pastorando o gado, ó maninha,
Que eu aqui perdi
E pelo canto de entrada do boi no salão:
Chegou, chegou,
Lá chegou meu boi agora,
Se quiser que eu dance, eu danço
Se não quiser, vou me embora
Culmina com as danças e salamaleques do boi, no salão:
Ora entra janeiro, é bumba
Entra pro saldo, é bumba
Faz a cortesia, é bumba
Ao nosso patrão, é bumba.
E termina com a sua morte:
O meu boi morreu
O que será de mim,
Vou mandar buscar outro, ó maninha
Lá no Piauí
E posterior repartição:
O pé do focinho, é bumba
É do seu Pedrinho, é bumba
O xambari, é bumba
É do seu Luís, é bumba
E a ressurreição, após o clister ou bexigada que o doutor lhe pespega,
servindo-se para tal de um moleque agarrado na assistência que, sob a carcaça ou
armação do boi, vai padecer cascudos e beliscões.
A indumentária, de grande beleza, pelo colorido e arte com que é realizada,
compõe-se de saiote de cetim adornada de gregas de espiguilha dourada ou
prateada, que deixa aparecer na fimbria os bicos e as rendas da saia branca;
guarda-peito de espelhos, capas de cetim com galões dourados, chapéus de abas
largas, dobrado na frente ou de lado, guarnecido de espelhos, flores artifíciais
de ouropel colorido e fitas das mais variadas cores. O rei e a rainha trazem
coroas do mesmo material e os Mateus (pois) e o palhaço pintam o rosto de preto
(os primeiros) ou de branco (o último), vestem paletós e calças de fazenda
quadriculada, e levam à cabeça o típico chapéu afunilado, que denominam de
cafuringa. Tocam pandeiros e trazem amarradas aos punhos réstias de cebolas
ou chicotes de fibra de bananeira, com que enxotam a meninada impertinente. Às
vezes além dos Mateus e palhaços surge a Catirina (homem vestido de mulher), de
cara encarvoada com um boneco no braço.
Durante a dança é costume atirarem os figurantes lenços ou entregarem espadas e
chapéus ou maracás aos assistentes, com o fito de obter dádivas em dinheiro. São
as "sortes", que representam a antiga tradição das pechinchas, aguinaldos e
entregues, características dos folguedos do ciclo natalino.
Nos últimos vinte anos, os reisados começam a desaparecer, sendo substituídos
pelos guerreiros, auto do primeiro derivado.
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