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Téo Brandão
Maceió, dezembro de 1952
Não obstante haver a moda nórdica da árvore de Natal invadido todos os lares
ricos ou modestos do Brasil e dos demais países latinos, perdura, entretanto,
resistente e tenaz, ainda como todas as tradições que recebemos da Península, a
tocante e significativa usança dos presepes e lapinhas.
A própria comercialização e o fabrico estandartizado ou em série tem contribuido,
é força reconhecê-lo, com sua pequena parte, para esta persistência.
As lojas de bijouterias e os armarinhos Nada Além exibem e vendem, também, por
ocasião da quadra Natalina, ao lado das policromas e brilhantes luminárias das
árvores de Natal, as modestas figurinhas de presepe em gesso pintado ou as
lapinhas armadas em cartolina.
Empresas gráficas, como a Melhoramentos de São Paulo, na sua série utilíssima do
Pequeno arquiteto, fornecem igualmente aos meninos engenhosos, ou mesmo aos
adultos amantes dos trabalhos de cartonagem, excelentes oportunidades, como
acontecia outrora em minha infância (e creio que ainda hoje acontece) com as
páginas de armar do Tico-Tico, para confecção de lapinhas com todo o rigor da
perspectiva artística, com coloridos realísticos e desenhos proporcionados, e
com figuras do Infante, de Maria, de José, dos Magos, dos pastores e dos bichos
guardando, tanto quanto possível, a cronologia, a topografia e a verdade
histórica ou bíblica.
Todavia conquanto mais artísticas e perfeitas não são estas as
lapinhas que os corações dos folcloristas ou dos amantes de nossa civilização tradicional
prezara e que desejariam nunca desaparecessem.
As lapinhas que nos acostumamos ver e admirar em nossa infância, e, antes de
nós, viram e amaram nossos pais, avós e antepassados, são os presepes
pitorescos, de graça ingênua e construção bizarra, de figuras desproporcionadas
e com anacronismos berrantes; presepes que têm indefectivelmente um lago de
espelhos, onde nadam patos de celulóide ou jacarés de barro pintado, chão de
areia da praia atapetado de folhas cheirosas de pitangueira, montanha arrumadas
de calcáreos e corais dos arrecifes e os maravilhosos panos de fundo, que podem
competir com qualquer pintura moderna, onde sobrados e igrejas, como os da
Bahia, "trepados uns por cima dos outros, como gente se espremendo para sair num
retrato de revista ou jornal", no dizer do poeta, se misturam a pirâmides do
Egito ou ameias de fortalezas
medievais.
Presepes onde todas as bugigangas e enfeites e bonecos e jarros e vasos de
flores e plantas se aglomeram, se amontoam entre montículos de seixos rolados e
toques de arroz recém
brotados, onde trenzinhos de ferro correm ao lado, de camelos e dromedários, e
pastores de cajado, vestidos de pele de carneiro ombreiam marujos de gorro à
francesa e soldadinhos de chumbo ao último modelo americano.
Lapinhas que são um verdadeiro bric-a-brac
em que figuras de barro, do biscuit,
de madeira, de gesso, de celulóide se alternam e misturam com o maior
desembaraço e sem cerimônia a figurinhas recortadas em papelão, lata ou
cartolina à bruxas de pano ou carneiros e ursos fabricados de algodão ou lã.
Presépios em frente dos quais vinham dançar suas jornadas saudosas o rancho das
pastorinhas e que era visitadas religiosamente por todas as famílias piedosas
da localidade, vale dizer por toda a sua população, desde a véspera de festa até
a noite dos Santos Reis.
Maceió, como todas as cidades do Brasil, não podia fazer exceção à regra e, há
bons 60 anos atrás, podia-se dizer que nenhum lar que se prezasse deixava de
exibir sua lapinha.
Umas modestas, de palhas de palmeira e figurinhas de barro, apenas com os
personagens da cena da adoração dos pastores: outras, mais ricas e numerosas,
com figuras é imagens de louca e farta decoração, às vezes enchendo todo o
"quarto dos santos" ou boa porção mesmo da sala de visitas ou de "janta".
A recordação dos mais velhos relembra ainda hoje com admiração e saudade as
lapinhas mais concorridas de Maceió nos fins do século passado e nas primeiras
década do atual: a de dona Clara, mais conhecida pelo nome de dona Senhora, esposa
do dr. Luís Eugênio: a de dona Luzia Lúcia, na rua Nova; a de dona Maroca Zanotti,
da rua do Comércio; a do afamado clínico da época, dr. Gouveia na praça da
Catedral; a de dona Leopoldina Domingues da Silva, freqüentadíssima pelas moças
casadoiras da época, que a visitavam a fim de arranjar noivo; a de dona Mariquinha
Brasileiro, irmã do coronel João Gatto; e sobretudo a de dona Francisca Franca
Morel, na entrada do Poço, hoje rua Barão de Atalaia, que superava em beleza e
profusão de figuras a todas as outras.
Dessa época são ainda as lapinhas de dona Antônia Porto, em Jaraguá, de
dona Mocinha
Dantas, na rua Nova, e da família Bringel, no Mutange, ainda hoje são armadas e
visitadas, ao que nos informam.
Nenhuma, porém que tivesse a sorte de durar tanto quanto à de
dona Mocinha Moeda.
Pela primeira vez armada no ano da graça de 1888, na rua da Boa Vista, vem dessa
data até este ano de 1952, sendo erguida initerruptamente em vários locais da
cidade: no beco da Moeda, na rua do Comércio e, atualmente na praça Manuel
Duarte em Pajussara, por sua piedosa, afável e diligente proprietária, hoje
simpática velhinha de 84 anos, que apesar do reumatismo e do peso dos anos,
ainda sente os dedos ágeis e fortes para arranjar, diante do magnífico oratório
de belas imagens antigas, a sua opulenta lapinha de figurinhas de biscuit, que
se acresce todos os anos com os presentes trazidos pelos visitantes, o que lhe
dá um ar quase de exposição restrospectiva de bibelôs.
Não obstante todos os fatores contrários à velha usança a tradição das Franca
Morel e das Mocinha Moeda, consegue adeptos novos e continuadores.
Uma lapinha, iniciada há seis anos atrás numa modesta casinha de porta e janela
da rua Manuel Lourenço, e Ponta Grossa, por dona Ester Vilela, guarda a singular
tradição das lapinhas populares.
Com papéis pintados, forra ela toda a parede posterior da humilde sala de frente
a imitar escarpas rochosas em torno da porta de comunicação com a alcova, onde
ela arma o seu presépio, sob pitoresco painel, dentro da mais pura e ingênua
concepção popular.
E são, espalhados na mesa encoberta por vasos
de plantas e seixos rolados e blocos de corais, os lagos com jangadas e canoas
em miniatura, tablado de pastorinhas e marujos de pano e mais tudo o que a
imaginação e a bolsa populares podem conseguir para enfeitar a obra-prima —
barcaças, casinhas de papelão, castelos de cartolinha, bibelôs de louça, etc.
Dessa Lapinha de dona Ester Vilela, a quem encarregamos para preparar uma réplica
na Exposição de Arte Popular da IV Semana Nacional de Folclore, realizada em
Maceió, em janeiro do ano passado é a descrição que se segue, documentário
precioso, que entregue em cópia datilografada a todos os visitantes de sua
obra-prima de arte popular:
"Descrição da lapinha
A estrela do Oriente está indicando o caminho de Jerusalém, onde nasceu o
Mestre dos mestres. E então vamos seguir a estréia, para chegarmos até lá e
adorar o nosso Menino Jesus. Não constitui mais novidade nesta Lapinha a
tradicional Chegança e o mais bem organizado pastoril que sob a direção de Ester
Vilela vem alcançando êxito extraordinário. Olhemos o lado esquerdo e voltemos a
nossa vista para o alto das pedras e veremos uma pequena casa onde mora os
componentes do reisado; ali vem eles descendo, tendo à frente o engraçadíssimo
Mateus. Mais em baixo, vocês poderão comprar renda a esta mulher, ajudando-a na
sua vida laboriosa. É digno de compaixão este pescador que vocês já devem ter
notado pois está sem o braço que perdeu na sua humilde profissão. Foi este
jacaré quem decepou seu braço. Mais feliz foi o seu colega da direita, que só
perdeu a mão, deste modo ainda pode pescar. Há algum embaraço na sua vida?
Procure as três ciganas do Egito. Presente, passado e futuro, isto é, com as
três ladronas. A prova do que digo são os ratos que as rodeiam. Este navio, que
transportava passageiros do nosso estado, sofreu uma avaria e dos arrofados
marinheiros da tripulação, tentando verificar o que havia, caiu ao mar e um
tubarão que circundava no navio, avançou contra o marujo, não dando tempo que se
prestasse o socorro. Daí piorou a situação do navio que encalhou nas pedras.
Ainda veremos, percorrendo a lapinha do mesmo lado, um pouco acima, o Galo Toré,
que antes de se exibir ao público, presta uma homenagem aos bravos soldados de
nossa pátria, que mais em baixo fazem instrução preparatória, exercitando-se
para uma eventualidade qualquer! Os nossos pracinhas aí estão demostrando a sua
vontade, que é soberana, de defenderem quando preciso o nosso querido Brasil.
Felicidades no Natal! Bons Anos e Salve o Brasil."
Pena é que ela tivesse preferido substituir por figurinhas de gesso pintado,
adquiridas na Casa 4 400 suas figuras de presépio, feitas em barro cozido pelo
ceramista Artur Rodrigues, com banca no Mercado Público e que fez para nós e
para Alfredo Mesquita, de São Paulo.
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