|
Almiro Caldeira
Há quarenta anos, se tanto, a árvore de Natal não tinha parte nos festejos
natalinos do Brasil e de Portugal: seu uso era restrito aos povos germânicos.
Acentue-se, contudo, que a tradição teuta do pinheiro de Natal representa
antiqüíssima herança de primitivos cultos às árvores, possivelmente comuns a
todas as raças. Ainda que assim não fosse, ingrata seria a campanha de alguns
folcloristas, brasileiros e portugueses, intransigentes defensores do nosso
patrimônio de tradições, no combate que movem ao "pinheiro", tachando-o de
esquisitice indesejável, estrangeirismo prejudicial à pureza e preservação dos
nossos costumes. Porém, que são e como se formam os costumes? São eles estáticos
ou dinâmicos? Não nascem, desenvolvem-se, cruzam-se, disseminam-se,
abosorcem-se? O que hoje é nosso, legitimamente nosso, será ainda nosso,
exclusivamente nosso, daqui — digamos— há duzentos, quinhentos mil anos? E o que
hoje cultuamos, reverentemente, como se encarnasse o próprio espírito da
nacionalidade, não terá pertencido, algures, em tempos de que não ficou memória,
a outras civilizações? Não procedem, pois, os motivos alegados em desfavor do
pinheiro em nossas festas de Natal. Nem tão pouco as palavras de melancólico
amargor com que portugueses vêm-no prestigiado entre os povos de cultura lusa
[1].
A título de sugestão para estudiosos que, com mais vagar e saber, queiram
dedicar-se à tarefa de analisar as origens de dois dos principais integrantes
das nossas atuais comemorações do Natal, delineamos o seguinte quadro
esquemático:
| Elementos |
Celebrações pagãs |
Celebrações cristãs |
|
Pinheiro |
Espírito e corpo da árvore |
1. Força vitoriosa sobre a
natureza |
Símbolo de Cristo |
1. Força vitoriosa sobre o mal |
| 2. Distinção dos semelhantes
pela vitalidade |
2. Distinção dos semelhantes
pela divindade |
| 3. Fecundidade |
3. Dons criadores |
| 4. Culto à beleza exterior |
4. Culto à beleza interior |
| 5. Proteção contra doenças,
desastres, calamidades |
5. Proteção contra o demônio |
|
Fogos, fogueiras, lenhos, velas |
Figurações do sol |
1. Novo nascimento (solstício) |
Símbolos de Cristo |
1. Natividade |
| 2. Fertilidade |
2. Fertilidade |
| 3. Abundância material |
3. Abundância espiritual |
| 4. Luz |
4. Luz |
O pinheiro
As árvores sagradas pertencem ao folclore universal desde o aparecimento do
animismo. Para o homem primitivo, todos os seres que lhe pareciam viventes
deveriam ter uma alma sujeita às mesmas necessidades e paixões do ser humano.
Diante da inferioridade que naturalmente sentiu ao comparar sua própria força e
virtude com as de certas espécies vegetais, ele se inclinou ao respeito, à
veneração e ao culto desses seus "irmãos presos ao solo".
Segundo Frazer [2], de uma investigação feita por Grimm sobre as denominações
teutônicas, deduz-se como provável que, entre os germânicos, os mais antigos
santuários foram os bosques naturais. De qualquer modo — frisa — o culto da
árvore está bem comprovado em todas as grandes famílias do tronco ário. Mas não
lhe é privativo. Tem-se notícia de rituais semelhantes emquase todos os povos
primitivos. Os carvalhos, as pereiras e os pinheiros eram e continuam sendo
considerados sagrados em muitos países, estando sua liturgia vinculada às festas
solstícias. Celebram-se, comumente, a fecundidade e o vigor e aspira-se a obter
a proteção do espírito da árvore contra todos os males, doenças, misérias,
calamidades.
Talvez a mais remota homenagem do homem ao pinheiro refira-se ao costume
chinês de plantá-lo nas catacumbas. O permanente viço da árvore em contraste com
a decomposição do cadáver sepulto a seus pés, possivelmente induzisse o mongol a
um propósito de compensação ou reparação. Entretanto, é na lenda e no ritual do
deus Atis (Ásia Ocidental), o espírito corporificado no pinheiro, que vamos
encontrar o maior paralelismo entre as cerimônias pagãs e cristãs em torno "da
árvore nobre" [3].
Os louvores a Atis tinham lugar nos festejos da primavera e é provável qye,
por sincretismo, passasse a figurar nas comemorações solsticiais, mais tarde
encampadas pela festa do Natal. É de notar, de um modo ou de outro, a perfeição
com que o Cristianismo se apropriou do culto pagão ao pinheiro, transformando-o
em símbolo de Cristo. As qualidades que se celebravam o pinheiro — o viço
permanente em oposição à inclemência hibernal, a inusitada força vencedora das
mesmas leis naturais que subjugavam e feriam as demais árvores — foram
transferidas ao Redentor de maneira exata e sem artificialismo: Jesus venceu o
mundo e o poder do mal, mantendo-se puro e bom enquando a seu redor a impureza e
a maldade maculava todos os homens, tal como o pinheiro, no inverno, conserva o
seu verdor emmeio à devastação de todo o reino vegetal.
Velas e fogueiras
A igreja, sobrepondo às festividades pagãs em honra ao sol (solstício de
inverno) a comemoração do nascimento de Cristo, teve em mira, ao que parece,
matar a heresia sem desagradar aos hereges: tudo estaria muito bem desde que, em
vez do culto ao sol ou da adoração a divindades estranhas, o cerimonial
celebrasse o advento do Messias. É provável que, habilidosamente, houvesse
declarado aos catecúmenos: "Não há mal em que continuem, nesse dia, a festejar o
nascimento do sol (retorno), mas o "novo sol", doravante, será o Cristo Redentor
que Deus levantou dentre os homens para aquecê-los com o lume da justiça,
purificá-los com o fogo do amor e guiá-los com a tocha da salvação". E
persistiram os fogos, os archotes, as fogueiras, já não há mais acessos com o
fito de reverenciar o sol e ajudá-lo a espevitar a chama em declínio, mas em
regozijo pela Nova Alvorada da Natividade Divina.
A transferência é evidente nas loas natalinas [4]:
No presépio de Belém
Venham todos, venham ver
Da mais cândida açucena
O sol divino nascer
No presépio de Belém
Uma luz apareceu
À hora da meia-noite
O sol divino nasceu
Não há dúvida de que todas as formas de luzeiro (Fogueiras do galo, cepo de
Natal [5], archotes processionais, lareiras, lenhos de Natal, velas ou lâmpadas
do pinheiro) dos nossos atuais costumes natalinos derivam dessas primitivas
festas solsticiais.
Notas
1. "Ainda hoje, de mistura com a árvore de Natal, que também por lá tem
atirado para plano secundário os presépios... Quanto aos presépios ou lapinhas,
em poucas casas das grandes cidades serão ainda hoje armados, substituídos
lamentavelmente pela árvore..." (Gastão de Bittencourt. "O Natal português e a
sua revivescência em terras do Brasil". Doc.112 /Ibecc/CNFl)
"...ou armando simplesmente a importada árvore do Natal com seus jogos,
luminárias e brinquedos para as crianças..." (Afonso Duarte. O ciclo do Natal
na literatura oral portuguesa)
2. Sir James Frazer, La rama dorada.
3. "Otro de los dioses cuya supuesta muerte y resurreción tenia profundas
raices en el credo y ritual del Asia Occidental era Atis, que en Frigia figuraba
lo que Adonis en Siria. Lo mismo que este, para ser que Atis fué un dios de la
vegetación y en los festivales anuales que se celebraban en primavera se llorava
su muerte y se regocijaban con su resurrección... El primitivo caráter de Atis
como espíritu arbóreo se deduce claramente del papel que juega en el pino, em su
leyenda, em su ritual y en sus monumentos. La fábula que nos lo considera un ser
humano transformado en pino es tan sólo uno de esos intentos transparentes de
racionalizar las creencias antiguas que encontramos con mucha frecuencia en la
mitologia". (Frazer, obra citada)
4. Luís Chaves. Folclore religioso.
5. "É à lareira, queimando o cepo, madeiro ou canhoto... que se faz o serão
da família... O cepo do Natal, antecipadamente escolhido, preferindo-se de
madeira de carvalho, castanheiro, azinho ou oliveira... deve durar aceso até o
dia de Reis, não ser apagado, mas deixar-se que ele se apague por si,
guardando-se o tição que restar para acender nos dias de trovoada... Em quase
todas as províncias de Portugal, a fogueira do galo canta o seu legendário
passado..." (Afonso Duarte, obra citada)
|