|
Solano Trindade
Todo ano aumenta o número de grupos de homens vindos do interior que,
pelos velhos caminhos do Distrito Federal e das cidades vizinhas de Duque de Caxias e
Nova Iguaçu, reproduzem, em ponto pequeno, a peregrinação dos Reis Magos em
busca do Menino. São as folias de Reis. Talvez este designativo, folia, não
caracterize bem o estranho bando que, a partir da meia-noite da véspera do
Natal, sai cantando e fazendo música à porta de casas conhecidas, a anunciar o
nascimento de Cristo. Com efeito, todos têm uma obrigação especial, uma promessa
a pagar, que consideram sagrada, — e nenhum deles deixará de fazer a jornada
durante sete anos regulamentares. E é com espírito religioso, e não folgazão,
que deixam o trabalho e a família para cumprir a sua missão de comunicar aos
homens o nascimento do Salvador.
A folia em marcha é uma companhia de doze homens, a dois de fundo, tendo à frente
e ao centro o bandeireiro, que carrega o estandarte, a bandeira, que representa
a devoção e a intenção de todos. À direita vai o mestre, ao mesmo tempo
organizador e diretor da folia e autor da música e dos versos que se cantam
durante a jornada. Todos os componentes do grupo estão uniformizados, mais ou
menos à maneira militar, com bonés enfeitados de flores e de espelhos, e todos
fazem música. Os instrumentos peculiaries à folia são a sanfona, a viola, a
caixa, o triângulo e o bumbo. Embora a sanfona seja considerada o mais
importante dos instrumentos da folia, é a batida regular do bumbo que a
identifica aos ouvidos do povo. Mas nenhuma folia estaria completa sem a
presença de personagens especiais — os palhaços.
O palhaço é o mais legítimo atrativo popular da folia. Supõe-se que tenha parte
com o diabo — e os foliões explicam a sua existência dizendo que são os soldados
de Herodes.
São geralmente três os palhaços em cada folia. Estão obrigados, como os demais,
a cumprir sete anos de jornada, mas sofrem uma série de restrições em virtude da
sua condição de palhaços. Se a folia penetra em alguma casa, os palhaços ficam
de fora. Se a folia canta, a única coisa que os palhaços podem fazer é
acompanhar a música, entre um e outro verso, com exclamações e palavras sem
sentido. Se a folia está em marcha, os palhaços não podem passar-lhe à frente,
nem formar com ela, e muito menos ficar à frente da bandeira. Mas, terminada a
louvação ao Menino, chega a vez dos palhaços. Muda a música — e os palhaços,
cada qual por sua vez, comandam a orquestra. Em versos engraçados, divertem e
mexem com o povo e saracoteiam, pulam e dançam, em cabriolas incríveis, para
encanto da meninada que de longe os vem seguindo, à espera desse momento. E
chovem moedas no chão, dinheiro que lhes pertence, dinheiro em que nenhum folião
ousaria tocar sequer.
O mais importante da folia é a bandeira. Vai ela à frente do grupo, e em lugar
de honra, enfeitada de fitas e lantejoulas e de registros católicos. É a
bandeira a primeira a entrar em qualquer casa. Postada junto ao presepe ou ao
altar, ali recebe as homenagens dos moradores. A bandeira representa tanto a
folia que tanto faz dizer folia com dizer bandeira. E é a bandeira que se
homenageia, quando se quer homenagear a folia, com dinheiro ou presentes.
Esse costume das zonas rurais, principalmente de Minas Gerais e do estado do
Rio, que está invadindo o Distrito Federal, acolhido com a tolerância
tradicional do carioca, tocado pela simplicidade desses homens pacatos, morigerados e corteses que, a
2000 anos de distância vêm à rua lembrar a todos que nasceu numa humilde
mangedoura, em Belém, o Salvador do Mundo, com a sua promessa de paz aos homens
de boa vontade.
|