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Fausto Teixeira
As manifestações folclóricas do ciclo do Natal, no Espírito Santo, como em todo
o mundo Cristão, abrangem o período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, isto é, da
véspera do Natal ao dia de Reis.
É nesta época que podemos apreciar presépios e assistir e participar de grupos
de Pastorinhas ou de folia de Reis, integrando-nos a algumas de nossas mais
caras tradições.
Comemorar o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo é o motivo central de todo este
ciclo folclórico, e a Missa do Galo, o seu ponto alto para os católicos romanos.
Tradições de bom sabor lusitano, que de Portugal nos vieram com os primeiros
colonizadores da Terra de Santa Cruz, talvez tenham se iniciado com apresentação
de autos dramáticos pastoris e armações de presépios.
Os autos pastoris estavam, em grande voga na Europa desde a Idade Média,
instituído que foram pelo clero no seio da Igreja, para fortificar a fé das
massas populares. Em Portugal, o quinhentista Gil Vicente compôs com sucesso
famosos autos, que foram representados nas cortes da Península Ibérica e
difundidos entre o povo: Auto da Fé, Auto da Mofina Mendes, Auto Pastoril e
Auto
dos Reis Magos, principalmente, foram elaborados com elementos populares do
ciclo folclórico do Natal. Logo vieram para o Brasil, onde encontraram boa
receptividade, e por aqui criaram raízes, em novas criações dos poetas da Terra
de Santa Cruz.
As pastorinhas, bem conhecidas em nossa região, principalmente nas áreas rurais,
são sobrevivências dos primitivos dramas natalinos, compostos em homenagem
popular ao Deus Menino. No município de Colatina há grupos de Pastorinhas que
ensaiam dramatização cantada, dias e noites antes do Natal, para bem se
apresentarem nas visitas que fazem a igreja, capelas e casas onde haja um
presépio instalado, louvando a data natalina de Cristo até o dia dos Reis Magos.
São numerosas as cantigas que tivemos oportunidade de recolher em Colatina,
sobre o Ciclo do Natal. Das pastorinhas, por exemplo, podemos registrar estas
amostras.
Quando as pastoras chegam a uma casa, em visitação, cantam:
Dá licença, meu Menino,
Que as pastoras querem entrar;
Já está chegando a hora
E nós queremos adorar
Entoam outros versos e os Reis Magos, em dado momento cantam, suplicantes:
Lança-me, meu Deus Menino,
A vossa benção sagrada,
Que no centro de meu peito
Fizeste a vossa morada
Todas as pastoras, então, cantam:
Vinte e quatro de dezembro,
Meia-noite, deu o sinal;
Entra a aurora e primavera,
Hoje é noite de Natal
Vários personagens do auto dramático vão se apresentando, a seguir, cada qual
cantando uma ou mais quadrinhas apropriadas, geralmente de
louvação: a estrela d'alva, a lua, o sol, um grupo de caboclinhos, a cigana do
Egito, a esperança e, por fim, o beija-flor, que termina cantando os versos:
Eu sou um beija-flor,
Que vem hoje de Belém
Visitar o Deus-Menino
E lhe dar os parabéns
Terminada a representação dos personagens das pastorinhas, todas vão admirar o
presépio, geralmente montado na sala de entrada da casa. Aí apreciam a
representação cerâmica da Sagrada Família, com o Menino Jesus deitadinho na
manjedoura de palhas, rodeado de animais domésticos — o burrinho ou jumentinho,
vacas e ovelhas e, às vezes, até algum cachorro, gato, galinhas, etc.
Parece que a origem da tradição dos presépios está situada no ano 1223, quando
São Francisco de Assis, com autorização do papa Honório III, armou o primeiro
cenário em uma estrebaria perto de Rieti, na Itália. Aí ajeitou estátuas de
madeira, representativas da Virgem Maria, de São José e do Menino Jesus, e
acrescentou ao ambiente, dando-lhe o máximo de naturalidade, um jumento e um boi
de verdade.
O presépio de São Francisco de Assis era franqueado, inicialmente, somente aos
companheiros de ordem; depois foi permitida a visitação pública e, com o tempo,
em toda a Itália a tradição dos presépias se firmava. Da Itália teria passado a
outros países europeus e a tradição se difundiu por todo o mundo cristão,
inclusive, evidentemente, nosso Brasil.
Já foi o presépio, desde os primórdios de nossa história, elemento obrigatório
nas comemorações do Natal. A árvore de Natal, que é de invenção relativamente
recente, nunca fez parte das tradições lusitanas mais antigas, e nem das nossas
que naquelas tem suas mais fortes raízes. É de criação alemã, mas seu uso tende
a se expandir, pela lei do menor esforço ou da maior preguiça, que tanto nos
agrada atender.
O ciclo do Natal, além das pastorinhas e dos presépios, marca ainda a presença
nas ruas e casas das folias dos Santos Reis, sobrevivência das janeiras tão do
gosto dos portugueses, até hoje grupos de foliões percorrem ruas visitando
casa onde cantam louvores pelo nascimento de Jesus Cristo e... "cantam" os donos
delas suplicando-lhes uma esmola "aos santos reis".
Em Colatina não são raras as folias dos Santos Reis, que agora, de 24 de
dezembro a 6 de janeiro, percorrem via públicas e se chegam a domicílios,
cantando:
Ó, senhor dono da casa,
Com sua nobre família,
Jesus Cristo é nascido,
Tomamos grande alegria
Em frente à casa onde o grupo estaciona, entoam com esperança:
Ó, senhor dono da casa,
Abra a porta, acenda a luz,
Vem receber nesta porta
O coração do bom Jesus
E, bem depressa, insistem, em elogio bajulatório:
Ó, senhor dono da casa,
És um grande cidadão,
Dá licença para entrar
E cantar no seu salão
A porta é aberta e a licença, prontamente concedida. Os foliões não perdem tempo
e vão logo ao principal:
Ó, senhor dono da casa,
Generoso como és,
Dá uma esmola ao Santo Reis,
Que chegaram a vossos pés
A esmola em dinheiro, pouca ou muita, raramente é negada, é recebida com geral
satisfação. Muita vez, um cafezinho acompanhado serve de agrado também. O
agradecimento a tal prevista acolhida não se faz demorar:
Agradeço a boa esmola,
Que tenhas muita que dar;
Deus vos tem lá na glória
Como o santo altar
O grupo retira-se da casa, não sem antes cantar versos de louvação aos donos
dela, e continua sua peregrinação, cantando sempre pelas ruas muitos versos,
dentre os quais não falta esta quadrinha:
Descem os anjos lá dos céus,
A cantar sobre a cidade:
— Glória a Deus nas alturas,
Paz aos homens de boa vontade
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