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Abelardo Duarte
Não havia ainda a figura de Papai Noel entrado nos festejos natalinos do
Nordeste. Papai Noel aparecia, sim, nos cromos de Natal, nos cartões-postais
importados do estrangeiro, muitas vezes montado num trenó, correndo na neve e
tirado por velozes e galhudos animais, as renas.
E o presépio, feito ao gosto da nossa gente, armado com cheirosas folhas de
pitangueira e palmas e galhos de mato, surgia como uma criação nossa, engenho e
arte da nossa gente. A própria intimidade que se tomava com as figuras sagradas,
essa aproximação do nosso povo com o Recém-Nascido, deitado no tosco berço, um
doce sorriso nos lábios e os bracinhos abertos e acolhedores, tudo, afinal,
concorria para dar a impressão de uma obra bem nossa, dentro do sentido
universal de sua criação. E essa intimidade ou trato familiar com as figuras
sagradas leva muitas vezes, na construção dos presépios, a um sentido de arte
primitiva, e mais do que isso, à inventiva, à criação de detalhes e à introdução
de novas figuras e efeitos originais.
De igual modo para festejar a vinda do Menino Deus, a tradição juntou a devoção
do presépio ao pastoril. A princípio cântico, jornadas e bailados diante do
presépio armado executados pelas pastorinhas, grupos de crianças ou moçoilas
trajada à moda de camponesas ou com simplicidade.
Era assim uma representação de caráter sacro levada a efeito nas igrejas ou nas
residências particulares. Outras vezes, a encenação de verdadeiros autos e
bailes pastoris, estes, em realidade peças dramáticas, com personagens e enredo,
mas de inspiração igualmente sacra e em muito semelhante aos autos hieráticos
portugueses, castelhanos e de outras origens. Esses autos ou bailes pastoris em
versos perfeitamente metrificados, deviam-se aos poetas profanos e aos padres; o
texto erudito, posteriormente deturpado, bem como a métrica estropiada pelos
copistas sucessivos, deixa claro a sua verdadeira origem, tendo por modelo os
autos de Gil Vicente e as eclogas de Juan de la Encina, principalmente. O teatro vicentino inspirou e propagou o
surto poético dos autores dos bailes pastoris, não resta a menor dúvida.
A seguir o pastoril foi deixando o ambiente sagrado das naves ou o recato das
casas de família para o palco ou tablado de rua, e com essa extroversão,
publicado em cadernos numa representação sacra pura, feita diante do presépio,
isto é, o cunho de uma manifestação ou sentimento verdadeiramente religioso,
saudando a vinda do Messias. Daí por diante, o pastoril sofreu a pressão dos
fatores ambientais e entrou para o grupo dos folguedos populares da quadras das
festas — folguedos de rua.
Em Nápoles, L. Lavenere colecionou e reviu alguns bailes pastoris, publicando-os
em cadernos mimeografados; acrescentou que o original estava cheio de erros,
havendo corrigido o que foi possível. O primeiro caderno da sua série é o Baile
do rei Herodes, seguido de Baile de seduzida (ambos publicados no ano de
1948). O Baile do rei Herodes tem como personagens o rei Herodes, Maria, Gélia,
pastora, um centurião, Jônia, pastora, Marília, pastora, soldados. Desenrola-se
em três atos, musicados. Do Baile da seduzida, são personagens: libertina,
fúria, Anjo Gabriel,
pastoras. Ato único e musicado.
Outrora era muito comum a encenação de bailes pastoris.
O pastoril simples e ingênuo de antigamente, com as suas loas do Deus
Menino:
Vamos, pastorinhas
Vamos a Belém
com as suas jornadas de uma musicalidade suave,
Vamos ver Jesus nascido
Na lapinha de Belém
Vamos ver o Prometido
Que é todo o nosso bem
transmudou-se no pastoril dos dois cordões azul e encarnado, estabelecendo-se
entre os seus apreciadores, geralmente, um sentido de luta e rivalidade. O
partidarismo cresceu e acirrou-se nos dias atuais com o novo costume da eleição
da rainha do pastoril, cuja vitória deve recair numa das duas dirigentes dos
cordões — mestra ou contra-mestra.
A vitória leva a eleita à cena final da coroação (fazendo hoje parte do
pastoril) que marca o término da apresentação). Atinge então o entusiasmo
partidário o seu climax. Há trono, coroa e vassalagem, em cena aberta, cânticos,
vivas e anúncios, auxiliado tudo pelos amplificadores de rádio-difusão.
Outras modificações operaram-se ainda no pastoril. De cantigas relacionadas
exclusivamente com o motivo sacro do Nascimento de Jesus, loas e jornadas
delicadas, suaves, de fundo sacro, passaram a incluir no pastoril canções
profanas em voga sem nenhum nexo com a representação. mas, não se trata
evidentemente de fenômeno explicado pela dinâmica cultura.
São meros enxertos, sem evolução da temática. Tanto que para cantar as canções
da época, as duas figuras principais do pastoril (mestra e contra-mestra)
despojam-se dos seus trajes de pastores e de suas insígnias coloridas para
apresentar-se com vestidos compridos de baile e utilizar-se de meneios e
requebros, conforme a música. No tablado, empunhando o microfone, surgem baiana,
à la Carmem Miranda, rumbeiras a Ninon, cançonetistas, sambistas) e intérpretes
até da música carnavalesca (se non é vero...).
Há assim um desvirtuamento de comemorações do caráter sacro de que se deve
revestir, sem falar na perda da tradição. Dirão os indiferentes que isso não
constitui novidade e de há muito as vozes da igreja protestam contra as cenas
profanas dos pastoris, contra pastoris dançados de modo impróprio e não por
moçoilas ou crianças, como é o costume e manda a tradição.
O pastoril com os dois cordões de pastorinhas
— o azul e o encarnado — já vem de
longa data. As pastoras são moçoilas ou meninas trajadas de branco, tendo à
tiracolo uma fita longa do cordão (conforme a cor) e trazendo na cabeça chapéu
de palha rústico de abas largas com fitas. O cordão encarnado é chefiado pela
mestra e o azul pela contra-mestra, havendo ainda outra figura feminina, que é a
Diana, vestida igualmente de branco, mas trazendo ao mesmo tempo as duas fitas
encarnada e azul à tiracolo. Quando surge canta:
Sou a Diana, não tenho partido
Meu partido são os dois cordões...
Outras figuras completam o conjunto como o pastor (o velho).
As "jornadas" ou números cantados e dançados são vários.
Muito populares são as seguintes:
Em dezembro, a 24
Meia noite, deu sinal,
Rompe a aurora; primavera,
Viva a noite de Natal!
Estrela do Norte
Cruzeiro de Belém
Vamos dar um bravo
À Diana também
O Natal do Nordeste, especialmente nas Alagoas, tem pois, com o presépio e o
pastoril, um ambiente e um sabor especial. A noite de 24 de dezembro é festejada
com os cânticos doces das jornadas, assinalando a vinda do Salvador e dando ao
maior acontecimento do Advento cristão o sentido de uma comemoração humana nisso
que se identificam pelos séculos afora, o humano e o divino.
Estrela do Norte,
Cruzeiro do Sul
Vamos dar um bravo
Ao cordão azul
Estrela do Norte
Cruzeiro sagrado
Vamos dar um bravo
Ao cordão encarnado
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