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Leão Nunes
Enquanto assistia à passagem da procissão de São Benedito pela Fonte Grande,
sob o tirotear intenso dos morros, no último Natal, fui-me lembrando de outros
que vi passar em Nova Almeida, e me veio à lembrança recordar como eram
festejados em minha vila. As coisas vão mudando de fisionomia e não me parece de
mau aviso registrar como era o Natal naqueles tempos de minha meninice.
A festa natalina em Nova Almeida tinha uma parte náutica, que a torna
diferente de outras a que eu tenha assistido.
Fazia-se a cortada do mastro aí pelo dia 8 de dezembro. Na véspera ou
ante-véspera de 25, levavam-no a esconder lá para cima da Volta Funda, que é um
trecho sinuoso do rio Reis Magos.
No dia da puxada, enfeitavam-se as canoas de pesca, com bandeirolas de papel
de seda e flores de flamboyant. Enquanto isso, as bandas de congo andavam
tocando pelas ruas. Por volta das 3 horas da tarde, era o momento de ir buscar o
mastro.
Embarcava-se nas canoas engalanadas e era um corre-que-corre danado, pois à
embarcação que primeiro chegasse ao local do esconderijo caberia a honra de
transportar o mastro.
Impulsionadas a remo, lá se iam elas rio acima, entre o foguetório e rufos de
tambor e o "Lá, lá... oi!" dos congueiros. Podia dar-se que alguma canoa
retardada, na saída, para abreviar caminho, abandonasse o canal, indo encalhar
na coroa, por não estar bastante cheia a maré. Estrugiam as gargalhadas e vaias
dos que ficavam no cais, apreciando o prélio.
* * *
Uma ou duas horas após, retornavam as canoas. Na frente, a portadora do
lenho. Foguetes estourando, tambores rufando.
Havia, aliás, grande disputa entre as bandas. Muito famosa era a das
Concheiras, cujo capitão, um caboclo de meia idade, usava um como cocar de
papelão, cheio de contas multicores, com um espelhinho na testa. Trazia uma fita
larga cingindo a cintura; na mão, uma batuta com uma porção de fitas, para
marcar o ritmo.
Atracadas as canoas, desembarcava-se o mastro, já aguardado pela bandeira de
São Benedito, oferecida, cada ano, por uma família local. Era levado, então,
para o navio. Este era um prosaico carro de bois, que, com o auxílio de varas e
pano, assumia a aparência de uma nave.
Começava o cortejo. Duas longas cordas de cipó entrançado, amarradas a um pau
atravessado no cabeçalho, serviam para o povo puxar o navio. Quatro homens
sustentavam o cabeçalho e a multidão ia arrastando o barco ruas fora.
Na frente do navio, entre as cordas, seguia a bandeira do santo
— pintado de tinta preta, da cabeça aos pés, com os olhos muito brancos de morim
que servia de tela, e umas ingênuas ramagens verdes — seguia a bandeira, levada
por quatro meninas. Trepados no navio, os garotos se divertiam a valer. E lá se
ia o carro, rechinando, ladeira acima, rumo ao adro da igreja...
Na praça, era o mastro retirado do navio, passando aos ombros dos homens.
Assim vai do interior do templo e volta. Começa, então, um bailado, uma dança —
que direi! — difícil de descrever. É um vai-e-vem desesperado. Passos para lá,
passos para cá, para a frente e para trás; à direita e à esquerda. Pernas que se
cruzam e descruzam; mãos que se agitam, o mastro sempre nos ombros dos homens
suarentos, excitados por um refrão frenético, meio gritado, meio cantado por
aquelas vozes roucas:
Quem me leva pro céu
E Bino santo!
Velhas segurando a saia, com um galho de mato numa das mãos, sapateiam em
torno. Os tambores zabumbam ensurdecedoramente, os couros tangidos pelas mãos
calosas. As casacas, rascando, arranham (reco-reco, reco-reco) o ouvido
da gente.
Colocada a bandeira numa extremidade, firma-se a outra num buraco e o mastro
vai-se elevando, à força de braços com muito Viva Bino! e foguetes, até à
vertical.
Adeuses ao santo, lenços que se agitam, súplicas... e vai o movimento
diminuindo. Reza-se a ladainha e o povo começa a se dissipar.
Durante o resto da noite, só se ouvem as bandas de congo rufando, rufando...
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