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Eurico Nogueira França
Creio que ninguém assistirá a certas manifestações pujantes do nosso folclore
sem amá-las como expressões características de brasilidade. Não é difícil
avaliar assim, com justiça, a missão do folclorista, o sentido profundo que
enriquece a pesquisa, a coleta, o estudo e a interpretação dos nossos documentos
tradicionais. Certas de nossas entidades folclóricas, porém, como as do ciclo do
Natal, tendem aos poucos a extinguir-se. As veleidades de "progresso", a ambição
de parecer civiziliadas, fazem com que até autoridades locais, de cidades onde
exista, mais ou menos fiel, o culto a algumas dessas manifestações populares —
prefeitos que como diz Mário de Andrade, "viajaram na Avenida Rio Branco"
—
combatam essas práticas de interesse tão vivo.
Do ciclo folclórico do Natal há a destacar, no Brasil, o pastoril e o
bumba-meu-boi. Ambos seja o primeiro embora, de origem portuguesa,
constituem expressões inconfundíveis, em nosso país, das festividades populares
que se enquadram no período do calendário folclórico iniciado a partir do Natal.
De fato, a celebração do Natal europeu se faz por meio de deliciosas canções — os
Noels, franceses; os Christmas carols, ingleses; os Villanoicos, espanhóis; os
Laudi
spirituali, Pastorelle, Canti pastorali, italianos. Previnda da
Europa, alimentamo o que para nós passou a ser uma simples convenção — já agora
nitidamente comercializada: o Papai Noel, e a árvore de Natal carregada de
adornos, que se originam dos países frios do Norte, e inclusive do norte da
França. Mas paralelos ao pinheiro plantado dentro da casa há, folcloricamente,
os festejos populares de Natal, realizados a céu aberto, como convém ao nosso
clima.
Festejos que existem com entidades folclóricas, como dados da tradição. Mas —
cabe perguntar — persistem? Deixarão talvez de sobreviver, ao cabo de certo
tempo, e valia preservá-los, na certeza de que, se esse Natal mudar, se as
pastorinhas esmorecerem, de todo a fisionomia mais íntima e genuína do Brasil
também há de estar mudada.
A diferença entre aqueles cantos europeus de Natal — que começamos a adotar
aqui, comprando discos das obras-primas do gênero como a Noite silenciosa, e
inclusive instituindo concursos de melodias de Natal, quando a nossa tradição é
de outra índole — a dissemelhança profunda entre um Adeste Fideles, um
Stille Nachtl, um Minuit chretiens! e o nosso Natal folclórico, é que
também nós possuímos cânticos, mas estes funcionam dentro de um auto, ou seja,
de uma representação, o baile pastoril, que decorre diante de um presépio.
Representação sem tema dramático, mas composta de quadros que se sucedem, e se
denominam jornadas. Melo Morais Filho assinala esse grande interesse que
ocorre na diferenciação entre as festas de Natal no Brasil e suas congêneres
estrangeiras, e Luís da Câmara Cascudo, que lhe anota o volume de Festas e
tradições populares do Brasil fornece, em lúcido comentário, não poucas das
observações que me serviram acima.
Enquanto no baile pastoril não há seqüência de enredo, o bumba-meu-boi é,
essencialmente, um bailado dramático. Cem por cento nacional, deve-se
considerá-lo nossa principal dança dramática, de uma originalidade
perfeita, sem revelar nenhuma influência, a não ser episódica, de outros
exemplos da literatura folclórica universal. Segundo ocorre, porém, nos bailados
de civilizações primitivas, se baseia na morte e ressurreição da entidade
principal que é no caso, o boi. Mário de Andrade (As danças dramáticas)
assinala essa característica: "É justo nos bailados mais próximos das culturas
primitivas, nos congos, de origem negra, nos caboclinhos, de inspiração
ameríndia, e nos reisados e cordões de bichos de sobrevivência do culto do
animal, que se dá a morte e ressurreição. A importância do boi na vida
brasileira, do chefe do organismo tribal, da mourama
na conquista das terras, deu, ao boi, ao chefe, ao mouro, um valor místico, um
valor religioso, esotérico, às vezes, e sempre simbólico, que foi o convite à
criação das danças dramáticas."
O pastoril, a despeito de interpretação que sofre de melodias ocasionais,
até estrangeiras, se nutre, nas suas formas de maior pureza e comovedora
inocência poética, ao passo que o boi é de lirismo bárbaro e poder
satírico prodigiosas. São expressões díspares, mas profundamente nacionais, do
que se denomina do ciclo folclórico de Natal. Tem o pastoril destinação
específica às celebrações natalinas, prolongando-se porém, até antes do
carnaval. Já o boi, que nasce na mesma época, é mais um folguedo de Reis.
Por que não reuni-los em um só quadro, em um espetáculo de fim de ano, para o
povo, em um dos nosso grandes parques? Aqui fica a sugestão — quem sabe se a ser
aceita em 1954 — a Renato Almeida, secretário e animador da Comissão Nacional de
Folclore, que tão agudamente estudou o bumba-meu-boi em um dos seus
livros e que, certa vez, nos trouxe a reconstituição de um encantador auto pastoril. Por que, com esse fim, não se articulam ele, em nome da Comissão,
e o sr. Alfredo Pessoa, diretor do Departamento de Turismo da Prefeitura?
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